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Ensino e Educação

UFPR forma 92 médicos em colação de grau antecipada

Jéssica Tokarski     7 de maio de 2020 - 12h28

A partir desta quinta-feira (7), a sociedade conta com mais 92 médicos que reforçarão o sistema de saúde brasileiro. Os profissionais, da primeira turma da Universidade Federal do Paraná (UFPR) a antecipar a formatura, devem colar grau remotamente, via processo na plataforma de gestão de processos eletrônicos da universidade.

A colação antecipada partiu de um pedido da própria turma de formandos à coordenação de curso após o Governo Federal (por meio de portaria do Ministério da Educação  e de Medida Provisória) autorizar a formatura de estudantes da área da saúde (Medicina, Farmácia, Enfermagem e Fisioterapia) que tenham cumprido 75% do período de internato médico ou de estágio supervisionado. A medida é excepcional e vale enquanto durar a situação de emergência pública causada pela Covid-19.

Até a definição, houve muito diálogo entre os estudantes, membros do colegiado do curso, coordenação de Medicina e direção do Setor de Ciências da Saúde. Não foi uma decisão fácil para nenhuma das partes, mas a situação excepcional causada pela pandemia acabou prevalecendo. “Foi uma decisão que atendeu os anseios dos alunos, do Ministério da Saúde e da democracia interna da instituição. A situação foi discutida e votada por duas vezes no colegiado do curso e a maioria dos membros decidiu que não haveria danos à sociedade em formar os alunos no final da trajetória, antes de completar totalmente o internato”, explica o coordenador de Medicina, professor Ipojucan Calixto.

A UFPR formará 92 médicos antecipadamente, em colação remota. Foto: André Filgueira

Para o diretor do Setor de Ciências da Saúde, Nelson Rebellato, a experiência do trabalho na prática poderá compensar as horas faltantes do internato. “Em termos institucionais, a universidade entende que pode haver perda no aprendizado do aluno. Mas, em contrapartida, os alunos terão uma oportunidade muito grande de aprendizado em uma situação emergencial que há muito tempo não se via no mundo. A iniciativa foi fruto de uma discussão coletiva e responsável. A universidade tem responsabilidade com a sociedade e jamais se furtará de enfrentar esses problemas adequando-se a cada momento”.

O formando Guilherme Fioramonte conta que foi difícil abdicar dos planos que havia feito para o segundo semestre de 2020, porém ele acredita que a decisão, tomada em conjunto, foi correta. “Consideramos as demandas da sociedade, as recomendações sanitárias e o que nós enquanto acadêmicos e futuros médicos precisamos”. Ele também imagina que essa seja uma oportunidade de retribuir para a sociedade o ensino gratuito que teve. “Eu sinto, tanto como profissional de saúde quanto como cidadão, que é meu dever e isso me deixa feliz e grato”, revela.

De acordo com a futura médica Paula Adamo, a ocasião proporciona um misto de sentimentos. “A gente entende que nossa hora é agora, que o mundo está precisando da gente, pois os médicos farão a diferença. Então passamos por cima dos sentimentos de medo e de frustração para atuarmos junto aos demais médicos. Isso nos traz alegria”. Paula acredita que ela e seus colegas podem assumir as demandas mais básicas de saúde par liberar os profissionais mais experientes para atuarem na linha de frente da Covid-19.

“Não vou dizer que estamos prontos porque acho que nunca estaremos, ainda mais na medicina que estamos sempre em preparação. Foram muitas horas de estágio no Hospital de Clínicas e em outros lugares, inúmeros plantões e isso tudo nos traz certa bagagem, mesmo que não tenhamos toda a experiência que vamos adquirir ao longo dos próximos meses”, avalia a formanda Viktoria Weihermann.

Colação remota

O processo de colação de grau acontecerá de forma totalmente remota. Os estudantes deverão acessar o sistema de gestão de processos eletrônicos da universidade, assistir ao vídeo do reitor lhes outorgando o grau, ler e assinar os documentos necessários – termo de aceite, juramento e ata de colação. A partir daí, estarão formados e aptos a ingressar no mercado de trabalho.

“Sou a primeira médica da família, então farei uma comemoração online com eles e será isso por enquanto. Adiamos a cerimônia para algum momento em que tudo isso acalmar”, conta Paula. Para Guilherme, que é da comissão de formatura, a turma ainda terá muito tempo para comemorar. “A formatura presencial foi adiada e acontecerá no final desse ano ou no início do ano que vem. A princípio não estamos pensando nisso agora”.

“Esse é um momento histórico, em vários sentidos. Primeiro, por ser a primeira formatura virtual feita pela UFPR em mais de um século de existência. E segundo, porque apesar da frieza desta colação à distância, sem a emoção imensa da celebração com a instituição e com os familiares, ela acontece por um motivo mais do que nobre: colocar novos profissionais de saúde para combater essa emergência que agora vivemos”, avalia o reitor da UFPR, Ricardo Marcelo Fonseca.

Reitor outorgará grau em vídeo. Foto: Marcos Solivan

Formação e impacto social

Os novos médicos estudaram por quase seis anos, dos quais dois correspondem ao internato médico. Dessa última etapa, eles concluíram 83% do período.Como a formação médica acontece durante a vida inteira e como no final desse processo os alunos têm bastante consciência do que são capazes de fazer e do que não, entendemos que é seguro que eles saiam da universidade agora”, avalia Calixto.

Para o coordenador, esse é um momento importante para que os profissionais estejam no mercado de trabalho. “Está havendo um processo de adoecimento de alguns profissionais de saúde que estão se afastando do trabalho. Aqueles que têm mais de 60 anos também não podem atuar, por pertencerem a um grupo vulnerável. Então, nada melhor do que jovens para contribuir no esforço contra essa pandemia”. Ele avalia que a juventude e, por consequência, a falta de experiência, não é problema, já que médicos sempre trabalham em equipe.

Guilherme acredita que a turma tem muito a oferecer para a sociedade. “Desde quando a pandemia começou, ficar em casa me causava inquietude porque eu sinto que eu e minha turma, que já estamos na reta final da graduação, temos muito a oferecer para a sociedade. É uma perda ficarmos em casa enquanto todos o sistema de saúde está sofrendo e poderíamos estar ajudando”.

Celebração presencial foi adiada. Foto: Samira Chami Neves

Futuro

Calixto comenta que, de imediato, os profissionais formados terão oportunidade de realizar voluntariado no Complexo do Hospital de Clínicas e no Hospital do Trabalhador, referências para a Covid-19. “Muitos alunos já estão dando suporte para outros serviços necessários como o call center da Secretaria Municipal de Saúde que esclarece dúvidas sobre a doença. Na ação estratégica ‘O Brasil Conta Comigo’, do Governo Federal, 490 alunos de Medicina se inscreveram e estão aguardando o chamamento”.

Paula conta que vários colegas de turma já fizeram concurso e devem assumir logo e que muitos estão se preparando para atuar em outras cidades e no interior do estado. Ela, que se sente privilegiada por ter estudado na UFPR, pretende fazer residência e seguir carreira no Hospital de Clínicas. Viktoria também cogita trabalhar na universidade no futuro. “Tive professores incríveis, colegas que foram uma família. Meu sentimento é de muita gratidão e quero retribuir ao máximo, não só no trabalho como médica para toda a sociedade, mas também voltar, no futuro, trabalhando na universidade”.

O diretor do Setor de Ciências da Saúde deixa para esses estudantes um apelo. “A sociedade está necessitando urgentemente de pessoas que sejam tolerantes e entendam que as diferenças são normais e que o respeito a elas dignifica a nossa vida. Que eles vivam de forma simples, pois essa pandemia mostrou que, mais do que tudo, não adianta só ter, é preciso ser. Não se esqueçam nunca de onde vieram e de quantas pessoas no país se sacrificaram para vocês chegarem até aqui”.

Os profissionais formados terão oportunidade de realizar voluntariado no CHC e no Hospital do Trabalhador. Foto: André Filgueira

Na mesma linha, o coordenador do curso também acredita que eles devem retribuir a sociedade que tornou possível a formação em uma universidade pública, gratuita e de qualidade. “Não formamos apenas médicos, formamos cidadãos e, nesse primeiro momento, eles têm que cumprir esse papel e responder às necessidades da sociedade conforme as competências que possuem. Esses estudantes estão se formando antecipadamente dentro de um esforço nacional de combate à pandemia, então espero que eles se inscrevam e se apresentem para essas ações”.

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