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Referência em diversidade e inclusão, UFPR realiza trabalho de acompanhamento a estudantes com deficiência

Superintendência de Comunicação Social     19 de fevereiro de 2019 - 10h19

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) é exemplo em iniciativas e ações de inclusão de pessoas com deficiência. Desde 2008 a resolução 70, do Conselho Universitário (Coun), garante a destinação de uma vaga para estudantes com deficiência em cada curso da instituição. Apenas no final de 2016 é que a reserva de vagas em universidades federais se tornou obrigatória pela Lei nº 13.409.

De fato, o número de pessoas com deficiência ingressando no mundo acadêmico tem aumentado anualmente na UFPR. O Vestibular 2018/2019 teve 24 aprovados nas vagas destinadas a pessoas com deficiência e, destes, 23 realizaram registro acadêmico. Entre os aprovados, nove têm deficiência auditiva; cinco têm deficiência física; quatro são cegos; cinco possuem visão subnormal ou baixa visão; e uma estudante tem Síndrome de Asperger (autismo).

Apesar do esforço permanente da instituição em garantir a esses alunos o direito de acesso à universidade, simplesmente receber o estudante com deficiência no ambiente universitário e na sala de aula, não caracteriza inclusão. É por isso que o Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais (Napne) realiza um trabalho de acompanhamento intensivo que vai desde a reserva das vagas, atendimento de necessidades específicas durante a realização das provas do vestibular (bancas especiais), até o atendimento individualizado de acordo com a deficiência do estudante que ingressa.

Bancas especiais no vestibular. Foto: Rodrigo Juste Duarte

Esse atendimento inclui apoio pedagógico, social, psicológico, físico e estrutural. A coordenadora do Napne, professora Laura Ceretta Moreira, explica que o atendimento e o acompanhamento são fundamentais para colaborar com o processo de inclusão dos estudantes, tanto no que se refere ao acesso quanto à permanência na universidade. “Apesar de o Napne ser uma importante unidade na luta pela inclusão, o que garante isso efetivamente é construirmos, cada vez mais, uma universidade inclusiva, pluralista e comprometida com a diferença”.

Acompanhamento

Segundo o pedagogo da unidade, Rodrigo Machado, o trabalho de acompanhamento dos ingressos inicia logo após o resultado do vestibular, momento em que aqueles que sinalizaram possuir alguma deficiência, na ocasião da inscrição, são identificados. Posteriormente, durante o registro acadêmico, os pedagogos realizam entrevistas com esses estudantes, por meio das quais são verificadas as necessidades individuais.

“As entrevistas ajudam a traçar perfis dos alunos, assim podemos avaliar o que eles devem precisar ao longo do curso, disponibilizar a estrutura que já temos e correr atrás de outros materiais”, conta. Os profissionais realizam reuniões com as coordenações dos cursos e, sempre que necessário, com os professores, indicando sugestões e encaminhamentos pedagógicos fundamentais.

“Alguns estudantes precisam apenas sentar em carteiras mais próximas ao quadro, por exemplo, o que pode resolver a necessidade de pessoas com baixa visão ou dificuldade de atenção. Outras vezes, podemos alterar as salas de aula para locais com mais acessibilidade ou providenciar carteiras adaptadas”, revela Machado.

Para os alunos que necessitam um apoio mais direto, as coordenações indicam um professor tutor e o Napne, por meio de recursos do Programa Incluir – do Governo Federal –, financia um bolsista para fornecer assistência no processo de ensino e aprendizagem. Há ainda, o atendimento psicológico.

Existe também um grupo formado por estudantes e técnicos-administrativos com necessidades especiais. “Idealizado pela unidade, o Convivas tem o objetivo de colaborar com o convívio e o empoderamento dessas pessoas”, revela Laura.

Suporte às necessidades

Intérprete acompanha estudante surdo em registro acadêmico. Foto: Leonardo Bettinelli

O Napne disponibiliza materiais e equipamentos de acessibilidade aos estudantes, quando necessário. Para os cegos, por exemplo, a unidade proporciona os materiais pedagógicos digitalizados que podem ser acessados via software especial.

Já os surdos recebem suporte de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Marrie Moraes Alves, uma das intérpretes que faz esse trabalho, conta que a equipe acompanha os estudantes em todas as disciplinas que eles estão matriculados. “São assegurados dois intérpretes em sala de aula para cada solicitante que vão se revezando, pois o tempo de interpretação é muito dinâmico”.

Os surdos sinalizantes recebem suporte em todo âmbito da universidade, até mesmo em palestras, feiras e seminários. “Atuamos em apresentações de iniciação científica e em cursos de pós-graduação também”, relata Marrie.

Larissa Carvalho, recém-aprovada no curso de Fisioterapia, é surda e acredita que o trabalho dos intérpretes é fundamental para o aprendizado e, com esse apoio, espera adquirir muito conhecimento na graduação. “Sei que serão disciplinas bastante puxadas, mas vai ser legal aprender o funcionamento do corpo, dos órgãos e dos músculos, estou bastante interessada”. Ela pretende, após formada, contribuir para a melhora da vida de pessoas com deficiência.

Larissa e a intérprete, Marrie. Foto: Leonardo Bettinelli

“Não tem como pensar em educação de surdos sem a língua de sinais e, como a sociedade não é sinalizante, o intérprete é essencial para esse processo. Passaram-se muitos anos para que eles começassem a ter acesso à universidade, mas hoje estão presentes da graduação, no mestrado e no doutorado. Contudo, sem o trabalho de interpretação seria muito difícil, pois eles não teriam como se comunicar. É a mesma coisa que alguém que não fala mandarim estudar na China sem tradução”, salienta a intérprete.

A futura biomédica Cibele Batina Rabelo menciona que ter a estrutura adequada na universidade foi essencial para a sua continuidade no curso. Como tem Síndrome de Asperger, uma espécie de autismo, ela teve sua carga horária reduzida e conta com o apoio constante do professor tutor e de um colega que também faz esse papel. “Tenho dificuldade de concentração, então os tutores me auxiliam a entender quais são os pontos principais da matéria.

Cibele tem dificuldade para fazer grupos de trabalho, por isso a relação com os professores é tão importante. “Acredito que em outra instituição não teria o apoio necessário. O conteúdo do curso nos primeiros dois anos foi muito intenso. Eram mais nomes e detalhes do que eu conseguia absorver”. Atualmente ela está cursando o quinto período de Biomedicina.

Desde 2005, ano de criação do Napne, a UFPR recebe recursos do Programa Incluir, fundamental para a compra de equipamentos tecnológicos de acessibilidade, pagamento de bolsas de tutores e de apoio pedagógico e de profissionais de apoio. “Diante dos drásticos cortes governamentais, estamos apreensivos se o que receberemos será suficiente para mantermos nosso programa de inclusão na universidade. É importante apontar que a UFPR sempre colaborou e complementou com os recursos e materiais necessários”, frisa a coordenadora.

Expectativas

Ao receber a notícia de que havia sido aprovado no Vestibular, Juan de Oliveira Scurupa ficou animado, pois sempre ouviu dizer que a UFPR seria uma instituição de qualidade e acessível a ele. Com baixa visão, ele se prepara para cursar Psicologia e conta que nas últimas instituições de ensino que frequentou, usou tudo o que podia para compensar sua condição. “Tenho dificuldade na leitura de livros e de lousas. Tudo que puder ser feito para melhorar esses aspectos será de grande ajuda”.

“Uma estrutura adequada e bons meios de apoio são de grande importância com relação à eficiência e à produtividade dos estudos de um aluno com limitações”, avalia o estudante que revela a psicologia como sua vocação.

Natãmy Nakano no banho de lama. Foto: Arquivo pessoal

Já a jovem Natãmy Nakano, aprovada em Medicina com apenas 15 anos de idade, revela que sonha em ser médica desde os dois anos. “Espero, com a universidade, conquistar um grau elevado de desenvolvimento e de aperfeiçoamento profissional e acadêmico, além de um ambiente cooperativo e repleto de oportunidades”.

Por apresentar hipersensibilidade característica da Síndrome de Asperger, ela tem dificuldade de concentração. Quando possível, solicita salas separadas para tentar minimizar as distrações em provas e tempo adicional para concluir os testes. “Necessito suporte pedagógico e principalmente social, como ações de prevenção ao bullying. É importante que especialistas realizem palestras sobre a síndrome para que o estranhamento em relação ao comportamento de quem a possui seja reduzido”.

Estrutura

Atualmente, quatro profissionais atuam na equipe do Napne: dois pedagogos, uma psicóloga e um técnico-administrativo com experiência na área de deficiência. Muitos pesquisadores de diversas áreas da instituição também colaboram no processo de apoio e de permanência. “Temos um quadro pequeno, sendo que a demanda passa de 250 pessoas com inúmeras especificidades. Estamos fazendo esforços para ampliar a equipe”, salienta Laura.

No Setor Litoral, a Seção de Políticas Afirmativas, Assuntos Estudantis e Comunitários (SEPOL) faz um trabalho muito importante na área da educação inclusiva. Nos campi de Palotina, Jandaia do Sul e Toledo, pelo menos um profissional de referência acompanha as demandas existentes.

Os alunos que precisarem de apoio especial podem se dirigir pessoalmente ao Napne, situado no primeiro andar do Prédio Histórico da UFPR, telefonar para os números (41) 3310-2659/2698 ou enviar e-mail para napne@ufpr.br.

Quebra de barreiras

Em 2017, Carolina Fernandes formou-se em pedagogia com auxílio dos intérpretes de Libras da UFPR. Foto: Samira Chami Neves

Laura enfatiza que a formação de estudantes com deficiência é uma maneira de quebrar barreiras – tanto de aprendizagem, como atitudinais –, reprimir preconceitos e desmistificar a concepção de deficiência e incapacidade. “As falas desses estudantes evidenciam que cursar e se formar em uma universidade pública é uma maneira de romper com os alicerces de uma sociedade que, sistematicamente, ainda os exclui da escola, do mercado de trabalho, do acesso à convivência e ao capital cultural. Portanto, é proporcionando-lhes uma maior autonomia que, paulatinamente, teremos uma transformação cultural que os reconheça para além de suas deficiências”.