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Ciência e Tecnologia

Queda do PIB pode variar com medidas governamentais e é preciso cautela em decisões de isolamento, alertam cientistas

Superintendência de Comunicação Social     24 de abril de 2020 - 19h17

Nota técnica de grupo de pesquisa da área de Economia da UFPR busca oferecer suporte para criação de políticas públicas de enfrentamento à doença

A pandemia do novo coronavírus trouxe ao mundo um cenário de incertezas. Além do isolamento social e das preocupações em torno dos sistemas de saúde, a economia global também caminha reagindo de maneira diferente a cada atualização do número de infectados pela Covid-19. Os impactos da paralisação das atividades econômicas no Brasil se tornaram objeto de pesquisa do Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Urbano e Regional (Nedur), da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A análise técnica prevê para 2020 redução de 1,87% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, soma de todos os bens e serviços finais produzidos, considerando apenas a paralisação temporária das atividades e queda de 1,21% quando são levadas em conta as ações de intervenção governamental.

Neste mês, o Nedur publicou uma nota técnica assinada pelos pesquisadores Alexandre Porsse, Kênia de Souza, Terciane Carvalho e Vinícius Vale, do Departamento de Economia da UFPR, abordando o comportamento da economia durante o distanciamento social, com previsão inicial de dois meses. O objetivo é oferecer suporte para a criação de políticas públicas de enfrentamento à doença e para a análise das consequências que a suspensão das atividades devem causar à economia. As dimensões desse choque trazidas no relatório da UFPR são baseadas na projeção epidemiológica feita em março pelo Imperial College London, um centro de pesquisa britânico especializado em ciência, engenharia e medicina.

Professor do Departamento de Economia da UFPR, Alexandre Porsse é um dos membros do Nedur e trabalhou na elaboração dos modelos demonstrados no relatório. Ele acredita que mesmo com as constantes projeções de alcance do vírus é preciso cautela para estabelecer a duração do isolamento. “O cenário ainda é de muita incerteza em relação à proliferação e aos efeitos econômicos. É difícil dizer quanto tempo vai durar esse cenário de restrição”, comenta.

Queda do PIB pode variar em 2020 com medidas governamentais previstas no cenário 2 do estudo. Gráfico: Nedur UFPR

Apesar dos efeitos econômicos negativos, o professor também recomenda cuidado na hora de decidir quais setores devem continuar funcionando, com base no risco de contaminação do coronavírus. “Com o relaxamento do distanciamento social, podemos ter uma nova onda de proliferação, que nos levaria a impactos ainda mais críticos na saúde e economia”, enfatiza Porsse.

Sem uma vacina confirmada até agora, a arma mais eficaz contra o vírus SARS-coV-2 tem sido a interrupção das atividades aglomerativas, que tem impacto direto na oferta de trabalho e movimentação da economia. Com isso, a análise da UFPR leva em conta dois cenários principais. O primeiro considera o impacto na oferta de trabalho devido à pandemia, afastando pessoas das atividades por conta do isolamento e/ou contaminação pelo vírus e a paralisação temporária das atividades. O segundo cenário também leva em conta o isolamento e as paralisações, mas considera as medidas governamentais que já estão sendo adotadas para contrabalançar os impactos da Covid-19 na economia.

Uma das medidas de maior repercussão é o auxílio emergencial de R$ 600 concedido aos trabalhadores informais, desempregados e beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família. De acordo com o professor Marcelo Luiz Curado, do Departamento de Economia da UFPR, é necessária uma intervenção do Estado na economia, através de programas de transferência de renda. “Sem transferência de renda, temos um colapso, um problema social muito grave. Nós já temos o Bolsa Família, já sabemos como fazer. O governo é quem deve tomar essa linha de frente”, alerta.

Estudo projeta mais de
49 milhões de infectados

Isolamento é a ação do momento para frear a contaminação pela doença, que já atingiu 2,5 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com o último levantamento do Ministério da Saúde, realizado nesta sexta-feira (24), o país tem 52,9 mil casos confirmados e 3,6 mil mortes registradas. A chamada “calibragem do choque” adotada pelo Nedur leva em consideração um cenário de medidas drásticas de combate ao vírus, como 75% da população brasileira em isolamento social. Na melhor das hipóteses, a taxa de contaminação é calculada em 23%, resultando em mais de 49 milhões de brasileiros infectados.

O estudo elaborado pelo Imperial College London fez estimativas de cinco diferentes cenários, que variam conforme a população do país, taxas de mortalidade e as medidas de redução adotada para reduzir os impactos da doença. Fazem parte das projeções o índice de isolamento social adotado, o distanciamento entre a população idosa e a variação da transmissão entre pessoas. O cenário adotado pelo Nedur considera a política de combate mais intensa e que uma pessoa com Covid-19 pode contaminar até outras três.

Queda no crescimento
previsto pelo Banco Central

O ponto de partida das medições realizadas pelo Nedur acompanha a trajetória de diversas variáveis econômicas. Entre elas estão Produto Interno Bruto (PIB), consumo interno, exportações e mudanças tecnológicas, por exemplo. O chamado “cenário base” do estudo assume a projeção de crescimento do Banco Central, realizada antes da proliferação do novo coronavírus, que previa um aumento de 2,2% do PIB nacional em 2020. Os dados socioeconômicos empregados no relatório são de 2015 a 2019 e têm origem nos sistemas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério da Economia.

Redução prevista para o PIB dos estados brasileiros, considerando medidas de apoio governamental. Infográfico: Nedur UFPR

Por outro lado, o “cenário de política” comparado pelo grupo da UFPR leva em consideração “perturbações” que afetam na decisão dos agentes da economia, mesmo sem fazer parte do sistema econômico. O coronavírus representa esse tipo de perturbação – “não se trata de um fator econômico que provoca crise, mas um elemento de saúde pública capaz de ditar as ações da economia, provocando desvios em relação ao cenário base”, aponta a nota.

Segundo a análise técnica, o resultado previsto para 2020 é de redução de 1,87% do PIB nacional no primeiro cenário, apenas com a paralisação temporária das atividades e queda de 1,21% no cenário que considera também ações governamentais. Nos dois cenários, as projeções indicam retração nos indicadores de todos os estados do Brasil. A variação dos índices de proliferação da Covid-19 pode tornar a queda mais aguda. “Além da nossa projeção, outros estudos levam em conta cenários mais graves de contaminação, que resultam em queda de até 5% no crescimento. O que fazemos é preparar hipóteses e avaliar qual seriam os impactos de acordo com elas”, avalia Porsse.

Projeção negativa
para os próximos meses

Um mecanismo de modelagem econômica australiano foi adaptado pelo grupo da UFPR à realidade brasileira. O TERM-UF é um modelo inter-regional dinâmico de equilíbrio geral computável (EGC) criado pelo Nedur, que incorpora uma série de equações econômicas com variáveis comportamentais e contábeis. O TERM-UF estabelece relações regionais de dependência entre diversos agentes econômicos, como firmas, famílias, governo e setor externo. Essas relações regionais são associadas com indicadores nacionais, podendo gerar resultados para todo o país.

Considerando 29 setores da economia, os integrantes da pesquisa abordaram os 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal. A projeção do Nedur simula como os setores econômicos devem se comportar com a suspensão das atividades econômicas, seguindo orientações de isolamento social do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Impactos percentuais previstos em relação ao cenário base de 2020 nos setores da economia com paralisação das atividades e ações de apoio governamental. Gráfico: Nedur UFPR

Mesmo que algumas atividades prossigam em trabalho remoto, o relatório prevê a paralisação das atividades em setores como comércio, transporte e alimentação. Medidas governamentais buscam amenizar o saldo negativo, com o remanejamento e criação de novas despesas aos cofres públicos, abertura de crédito e financiamento com foco em micro e pequenas empresas, além das ações de auxílio aos governos estaduais e municipais. Apesar de considerar esta intervenção, a projeção para os estados apresenta desvio negativo em relação ao cenário de referência, que previa crescimento nacional de 2,2%.

Por conta da intervenção estatal, apenas os setores públicos apresentam crescimento, em detrimento dos setores privados, com atenção redobrada para alojamento e atividades artísticas, que apresentam previsão de queda para 2020, segundo o documento elaborado pelo núcleo.

Medidas do governo
ajudaram em outras crises

Crises com impactos econômicos semelhantes ocorreram no Brasil entre 2008 e 2009. A grande recessão de 2008 provocou a quebra de grandes instituições financeiras e afetou as principais economias do mundo, como a dos Estados Unidos e de países da Europa. Entre os professores Alexandre Porsse e Marcelo Curado, do Departamento de Economia da UFPR, há o consenso de que medidas adotadas pelo governo federal colaboraram para tomar as rédeas da crise no Brasil.

De acordo com Marcelo Curado, os estragos no país foram reduzidos através de medidas fiscais e injeção de recursos na economia, que também podem ser aplicadas durante a crise provocada pela Covid-19. “Para superar essa crise, o [então] Ministério da Fazenda adotou uma série de políticas de intervenção, compressão de liquidez com redução de tributos e aumento de gastos, que devem ser similares com o que será necessário neste momento”, conta.

O professor Alexandre Porsse também compara a recessão econômica causada pelo novo coronavírus com o baque sofrido em 2008, apesar das características de cada evento. “Em 2008 foi uma crise de natureza financeira, sobre a economia real. A crise de agora tem características diferentes, com redução rápida das atividades, tanto em função de choque de oferta quanto de choque de demanda. Mesmo com diferenças, podem sim ser comparadas em nível de impacto histórico”, enfatiza.

De acordo com Porsse, as camadas sociais vulneráveis são as que mais sentem esse impacto e precisam de garantias no poder de compra. A falta de um trabalho com carteira assinada invalida o amparo aos informais e desperta a necessidade de cobertura desses trabalhadores. “De fato, o setor mais afetado é o informal, é um setor que está descoberto, principalmente nas atividades que dependiam do fluxo de pessoas”, afirma.

Ouça abaixo um episódio do podcast “Fala, Cientista!”, produzido pela Agência Escola de Comunicação Pública da UFPR, sobre impactos econômicos da Covid-19 no Brasil:

Clique aqui e assista a um debate sobre Economia e História com os professores Alexandre Porsse e João Basílio Pereima Neto, do Departamento de Economia, e Dennison de Oliveira, do Departamento de História. A mediação é feita pelo jornalista e superintendente de Comunicação e Marketing da UFPR, Carlos Rocha, e a produção é da UFPR TV.

Saiba tudo sobre as ações da UFPR relacionadas ao Coronavírus

Por Luiz Fernando Hanysz
Sob supervisão de Chirlei Kohls
Parceria Superintendência de Comunicação e Marketing (Sucom) e Agência Escola de Comunicação Pública e Divulgação Científica e Cultural da UFPR


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