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Extensão e Cultura

Profissionais de saúde dão exemplo de acolhimento e prevenção no combate à pandemia

Amanda Miranda     20 de maio de 2020 - 9h29

Medo, acompanhado por um grande sentimento de responsabilidade social e de compromisso público. Se pudessem resumir seus sentimentos em palavras, talvez essas fossem as escolhas da equipe de residentes multiprofissionais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que atua em uma dimensão muitas vezes invisibilizada no dia a dia: a atenção primária à saúde da família.  

Atividade essencial no sistema, a atenção primária é considerada o primeiro degrau de atendimento à população, evitando que os hospitais lotem e garantindo estratégias de prevenção e de cuidado de forma territorializada, por regiões.  

Desde que a pandemia começou, 30 profissionais da área de Enfermagem, Farmácia, Medicina Veterinária, Nutrição, Odontologia e Terapia Ocupacional atuam na rede municipal de Piraquara, região metropolitana de Curitiba e participam de estratégias de enfrentamento à covid-19, com a orientação direta dos professores do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família da UFPR. 

 

Profissionais de diversas áreas atuam no programa. Nas imagens, registro da coordenação e dos residentes em saúde da família, anterior ao início da pandemia (Fotos: Divulgação)

 

Nos últimos meses, os profissionais viram suas rotinas mudarem drasticamente e reforçaram a certeza sobre aquilo que se apresentava nas aulas: o trabalho em equipe, o acolhimento às pessoas e a atuação na prevenção são fatores cruciais em um momento de crise. Sem essa ação, que pode ser considerada um trabalho de formiguinha, os hospitais estariam ainda mais superlotados, dificultando o cenário de enfrentamento à pandemia. 

De acordo com a professora Marilene Buffon, coordenadora do programa, os profissionais atuam de acordo com portaria do Ministério da Saúde que determina dois objetivos centrais para as distintas práticas profissionais: o atendimento à população em todos os níveis de atenção à saúde e a redução no tempo de espera do atendimento no Sistema Único de Saúde. 

Piraquara é um município de cerca de 100 mil habitantes, situado na região metropolitana de Curitiba. Com uma média de 2,5 salários mínimos por pessoa (em Curitiba, a média é de 4,0), registrava, até 19 de maio, 24 casos confirmados de covid-19 e outros 21 em investigação. As estatísticas são acompanhadas de perto pelos profissionais da UFPR, que não poupam esforços para vencer um inimigo comum.  

Na cidade, de acordo com a professora, a equipe colabora com atendimento da população em todos os níveis da atenção à saúde: desde à assistência, nos atendimentos classificados como urgências e emergências, até a vacinação dos grupos prioritários. Agem também no preparo de material didático e na orientação quanto aos cuidados na prevenção. Os residentes ainda contribuem com a capacitação de profissionais de saúde quanto ao uso dos EPIS, na triagem de pacientes, no atendimento domiciliar e na orientação quanto aos cuidados aos animais domésticos. Outra frente de atuação se dá nas atividades de gestão em saúde na secretaria municipal. 

Neste momento acreditamos que devemos pensar nas pessoas que estão contando conosco, pois como profissionais de saúde não devemos deixar que a insegurança dite o curso de nossas vidas”, resume a professora.

Para ela, há um conjunto de certezas a serem trabalhadas em um contexto difícil.  de que entendemos o sofrimento do outro e que somos capazes de ajudá-lo; de que podemos realizar um bom trabalho; de que somos capazes de superar as adversidades e  de que podemos fazer a diferença enquanto profissionais do SUS“.  

Dedicação e acolhimento 

“Meu coração é muito pequeno”. É assim, citando um trecho do poema “Mundo Grande”, de Carlos Drummond de Andrade, que a dentista Ana Gabriela Lobo da Costa resume os aprendizados de atuar com saúde da familia em tempos de pandemia. Antes adaptada à uma rotina em que dividia triagem e atendimento com as aulas, ela passou a se deparar com a apreensão dos colegas diante dos novos desafios. “Todos nós temos dúvidas para as quais não  respostas”, sintetiza. 

O afeto e a empatia vieram em grandes doses no atendimento diário aos pacientes – a estratégia ajuda a lidar com o medo e o sofrimento ou, nas suas palavrasparafraseadas do poeta, a “amontoar tudo isso num só peito sem que ele estale”. Os grupos de apoio psicológico aos funcionários, organizados para conversar, também surgiram para aliviar o peso de um trabalho árduo. 

Ação no posto de saúde de Piraquara, onde profissionais atuam na atenção primária, evitando que os hospitais colapsem

 

Antes, as rotinas rígidas e organizadas faziam com que se sentisse “no controle dos processos. Hoje, por outro lado, vê a transição de um cenário fragmentado para um campo unificado, em que os profissionais da atuação primária abrem as portas de forma corajosa, sem minimizar esforços para lutar contra uma doença que assusta o mundo.  

Espero que a partir de agora vejamos o serviço de saúde de forma integral, reconhecendo a importância de todos os níveis de atenção e de todos os profissionais que os mantém em funcionamento, porque se as Unidades Básicas de Saúde fechassem, o cenário seria ainda mais catastrófico“. 

O trabalho preventivo, difícil de se ver quando todos os olhares se organizam em torno dos hospitais, é essencial para evitar que o sistema colapse. A prevenção, a orientação e o cuidado nas unidades básicas vivem um momento de adaptação, mas a pandemia também trouxe aprendizados pessoais para Ana. “ A pandemia do covid-19, muito mais que reorganizar a dinâmica da unidade de saúde e do programa de residência do qual faço parte, reorganizou a forma como penso e vejo o mundo, o outro, o aqui”, resume. 

A terapia ocupacional surge como uma aliada em um momento de medo, em que a saúde mental parece mais ameaçada do que durante o cotidiano de normalidade. As residentes Stella dos Santos e Nadya Moraes estão ativas para colaborar com a prevenção em um contexto adverso. O atendimento em grupo foi cancelado, mas as ações continuam.  

Ensinar a lavar as mãos, a utilizar máscarasorientar sobre atividades de lazer que ajudem a manter a saúde mental e a organizar rotinas estão entre as suas principais missões. Elas também confeccionaram máscaras de tecido para os colegas e para distribuir entre a população com menor poder aquisitivo na região. “É gratificante saber que posso contribuir e estar na linha de frente“, destaca Nadya. 

Trabalho em equipe 

Para a nutricionista Eduarda Boscardin, perceber a importância do trabalho em equipe é um dos grandes aprendizados impostos aos profissionais da saúde em tempos de pandemia. “Percebi a importância do vínculo com os usuários, do olhar ampliado para cada situação e do trabalho multidisciplinar”, pontua. “Num primeiro momento, o medo tomou conta do ambiente de trabalho e da equipe, pela preocupação com nossa saúde e de nossos familiares. Porém, aos poucos, toda a equipe convergiu para um mesmo objetivo: atuar no combate à pandemia”. 

Equipe de residentes em ação

 lidando com uma insegurança natural, ela também viu o medo se disseminar a partir do aumento exponencial dos casos no Brasil. Mas, aos poucos, o que era medo se transformou na necessidade de combater e enfrentar a pandemia.

“Nos dispusemos a abdicar momentaneamente de nossas funções específicas para atuar como profissionais de saúde generalistas, auxiliando no que fosse preciso. Lentamente, com a experiência obtida ao final de cada dia, os processos de trabalho foram sendo ajustados e o medo deu lugar à coragem para enfrentar os problemas que ainda estavam (e estão) por vir”, pontua.  

Estar preparada e de ser flexível são apontadas, por ela, como qualidades importantes para o profissional da Saúde Pública“. Isso certamente agrega ainda mais conhecimento e experiência profissional, mas acima de tudo, crescimento pessoal”, pondera. 

A dentista Luana Portugal Adad cita a importância de os profissionais terem ainda mais consciência dos seus propósitos junto à comunidade. “O atendimento aos usuários começa aqui, somos nós que estamos na linha de frente, controlando e monitorando casos de usuários com sintomas leves, dando orientações sobre a importância do passo a passo da lavagem de mãos e colaborando na doação de artigos de higiene”. Ela lembra que a ação na atenção primária é essencial para impedir que o sistema de saúde entre em colapso. 

O período difícil e de ajustes em métodos e sistemas de trabalho também está sendo de aprendizado para as residentes de Medicina Veterinária. Poliana Vicente de Souza, que também atua na saúde da família, lembra do seu dever de, como profissional da saúde, acolher também a população, não somente animais. “Está reforçando nossa autonomia no cuidado da população como um todo, principalmente por estarmos auxiliando no acolhimento de pacientes que dão entrada na unidade de saúde”.  

Também médica veterinária, Fernanda Paula da Silva Torres lembra que a Covid-19 é uma doença de origem animal, deixando evidente a importância que ela e seus colegas podem ter no sentido de informar a população, tranquilizar tutores de pets e instruir a sociedade sobre o papel dos animais. “ A experiência vem reforçando na prática o empoderamento da Medicina Veterinária como a ciência que melhor trabalha o conceito de Saúde Única (One Health), que integra como uma só a saúde humana, animal e do meio ambiente”, explica. 

Prevenção é o começo de tudo 

“Não queremos que nosso paciente chegue ao hospital”, resume a farmacêutica Sacha Testoni Lange. Seu papel na atenção básica, segundo ela, é atuar na prevenção e na educação em saúde. O tratamento a pacientes crônicos e a gestantes, por exemplo, continua com força total, assim como aquilo que considera “o primeiro contato com a população”.  “Minha esperança é de que sejamos lembrados e de que as pessoas deem mais valor a nossa presença nesses locais”, diz. “Seguimos fortalecendo o SUS e a saúde pública para sairmos dessa cada vez mais fortes”. 

Residente do primeiro ano do programa, a dentista Aydee Martins está, tal como os colegas, atendendo somente casos de emergência na sua área de atuação. Entretanto, a força tarefa entre os diferentes profissionais se mostrou mais do que importante para que a atenção primária funcione em capacidade máxima. Trabalho de acolhimento, triagem, vacinas e suporte na gestão estão entre as ações realizadas. “Isso transforma o meu olhar, porque, ao iniciar a residência nesse cenário, amplia minhas possibilidades de atuação“, comenta. 

Atenção primária envolve orientação em diferentes espaços sociais

Já para o seu colega de profissão, o dentista e residente Eduardo Rossi, as múltiplas atribuições na atenção básica envolvem desde o desenvolvimento de materiais didáticos até vídeos sobre uso de equipamentos de proteção individual para profissionais da saúde. Apoio às campanhas de vacinação e ação conjunta com as agentes comunitárias também aumentam a importância desse trabalho. 

Talvez essa crise seja oportunidade para a população e os governantes darem também importância para as pesquisas na universidade pública. Ficamos vulneráveis quando enfraquecemos essas instituições”, completa. 

Com 13 turmas já abertas desde a sua fundação, o Programa Residência Multiprofissional em Saúde da Família, vinculado ao Departamento de Saúde Coletiva da UFPR, assegura seu papel social de fortalecer a formação dos diferentes profissionais e auxiliar a população e o sistema de saúde. Minha esperança é que, ao fim dessa pandemia, eu tenha me tornado um profissional mais capaz para atuar em situações adversas e que eu possa voltar a atender essa população que tanto precisa dos serviços na comunidade onde eu estou inserido“, comenta Rossi. 

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