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Extensão e Cultura

Professor de Letras Polonês traduz primeira versão em português de livro de poetisa que viveu o Levante de Varsóvia

Camille Bropp     23 de outubro de 2017 - 18h42

De 1939 a 1944, a escritora Anna Świrszczyńska, que acabara de chegar aos 30 anos, participou da reação polonesa à longa ocupação de Varsóvia por tropas alemãs, trabalhando como enfermeira em um hospital rebelde improvisado. As imagens do que viu — inclusive a destruição da cidade em que nasceu, depois de 63 dias de resistência — ficaram retidas em sua memória até os anos 1970, quando colocou as impressões no papel.

Anna usou a poesia, linguagem já conhecida por ela, mas nem o estilo nem o conteúdo têm qualquer relação com os contos de fadas para crianças que havia escrito anteriormente. Os poemas geralmente curtos, que retratam a violência cotidiana da guerra, foram reunidos na obra “Eu Construía a Barricada”, lançada em 1974.

O livro ganhou neste ano sua primeira e única versão em português, traduzida do polonês pelo trabalho do professor Piotr Kilanowski, do Departamento de Polonês, Alemão e Letras Clássicas (Depac) da UFPR. A edição bilíngue foi publicada em agosto pela Editora Dybbuk, de Curitiba, e deve ser lançada até o fim do ano.

No livro, Anna trata do dia a dia de quem viveu o Levante de Varsóvia: as famílias desfeitas, o medo, a vida degradante, os fuzilamentos e bombardeios, as crianças obrigadas a amadurecer cedo, as reflexões sobre o que pensam os soldados ao pôr a cabeça no travesseiro toda noite. Por último, “o vazio de um milhão de pessoas” que foi feito da capital polonesa.

Barricada construída por insurgentes poloneses durante ocupação nazista em Varsóvia, em 1944. Foto: Stefan Bałuk/Polish Scientific Publishing

Antipoesia

Kilanowski descreve a linguagem adotada pela autora nessa fase como “quase antipoética”. “É uma linguagem mais denotativa, mais informativa do que poética”, descreve o tradutor. Trata-se de uma linguagem direta, em geral narrativa, com poucas e precisas palavras, como se Anna quisesse registrar uma sucessão de retratos do que viu. Ao fim do livro, a sensação é parecida com a de ter assistido a um filme, lembra o professor.

Ainda assim, Kilanowski rejeita a ideia de que a poesia de Anna nessa época seria tão narrativa a ponto de se aproximar da prosa. “É poesia, e poesia de alto quilate”, define. “Estamos acostumados com poesia que usa recursos de linguagem para suspender o cotidiano. Ela fez isso usando palavras simples, mas eu não chamaria de prosa de forma alguma. A guerra rompe de maneira tão drástica com tudo que se conhece que ela percebeu que a linguagem poética não se adequaria mais. Era preciso inventar outro tipo de linguagem”.

A raridade de recursos poéticos, porém, não significa que a tradução para o português não tenha tido seus percalços. Um deles foi discernir o sentido de expressões que em polonês até podem parecer ornamento de estilo mas, com pesquisa, se mostraram simples traços do coloquialismo da época.

Assim, o tradutor descobriu, por exemplo, que o que em tradução literal para o português seria “senhor, venha noite” — frase que daria a entender uma adaptação semântica para “noite” — era apenas uma informalidade de linguajar que desprezava a preposição. “O coloquialismo da época, determinadas maneiras fraseológicas… Houve algumas ‘pegadinhas’”, conta Kilanowski .

Histórias reais?

Em “Eu Construía (…)”, as histórias presenciadas e pessoais de Anna se misturam. Há, por exemplo, situações em que o eu-lírico é um soldado, inclusive das tropas invasoras. Mas existem também poesias que a escritora direcionou à filha, nascida nos anos 1950. Apesar de os relatos serem vívidos, como os de alguém que presenciou o que escreve, não é possível saber até onde os testemunhos foram diretos ou indiretos.

“Às vezes fronteira entre o eu-lírico e o poeta fica muito tênue”, avalia Kilanowski. “Uma mistura entre a voz autoral e a dos personagens está inerente em toda poesia. Sempre há algo do autor”.

No caso de Anna, o pesquisador avalia que não apenas o que é dito, mas também o que é calado formam os traços da subjetividade da autora na obra. “Seja na maneira como ela enfoca um tema ou outro, sobre como escolhe não falar como vítima, sobre como não fala dos estupros, sobre como não fala — ou fala pouco — das execuções… Não só o que se fala, mas o que se cala diz muito sobre o autor”, analisa. “Talvez seja maneira de escolher ver a guerra do ponto de vista da mulher, sem repetir os discursos usuais”.

Para Kilanowski, a escolha dos assuntos e da abordagem deles em “Eu Construía (…)” também revela uma forma rara de relato de guerra: o que parte de uma mulher. Trata-se de uma situação capaz de subverter as narrativas mais comuns desse tipo de acontecimento, ao optar por mostrar experiências diferentes, mais ligadas ao cotidiano do que a fatores políticos.

Esse ponto explica como a escritora optou por vasculhar os pensamentos do “inimigo” em vez de simplesmente retratá-lo como uma figura monstruosa. “Existe humanização do ‘outro lado’ nos poemas”, afirma Kilanowski. “Não é muita, mas existe. Ela consegue ver o humano no inimigo”.

Reflexão sobre a violência

Para o estudioso, a principal contribuição dessa coleção de poesias de Anna para o mundo é a reflexão sobre a violência que é possível fazer a partir delas. Kilanowski sustenta que a violência por vezes é justificada na própria literatura, na figura dos heróis nacionais, da mesma forma que pode ser questionada. Mas poucas vezes, como no caso de “Eu Construía (…)”, a violência é mostrada como é, com toda a incredulidade que desperta nos que se deparam com ela.

“A vivência com a violência dá duas opções: aderir a ela, buscando um ideal que a justifique; ou tentar denunciar esses mitos que levam as pessoas a fazerem coisas insanas, contrárias até à fisiologia humana”, comenta o professor.

Dessa forma, Kilanowski acredita que “Eu Construía (…)” tem muito a dizer ainda hoje e mesmo no Brasil, uma vez que tem como mote “colocar o dedo na ferida” e mostrar como os seres humanos reagem frente às atrocidades, mesmo quando se valem delas por ideologia.

“É uma reflexão importante em um momento como o atual, em que estamos provando que Darwin talvez não estivesse correto sobre a evolução da espécie”, brinca o pesquisador. “É válido mostrar como os humanos são frágeis e suscetíveis a ódio e fomentar a reflexão sobre violência, que é um dos grandes problemas do Brasil”.

Conheça alguns poemas de “Eu Construía a Barricada”:


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