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Ensino e Educação

Pós-graduação do Setor Litoral preenche pela primeira vez vagas destinadas a indígenas e transgêneros

Superintendência de Comunicação Social     31 de março de 2017 - 14h54

Pela primeira vez, o Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Territorial Sustentável, ofertado no Setor Litoral da UFPR, recebe um aluno indígena e uma transgênero. Vagas para negros, pessoas com deficiência, docentes de escolas públicas, indígenas e transgêneros são reservadas nos editais de seleção do programa desde 2014 , mas as das duas últimas categorias só foram preenchidas este ano.

O programa tem como proposta central a busca pelo desenvolvimento da sociedade, aliado à preservação do meio ambiente e à justiça social. Por isso ele foi concebido de forma a permitir e estimular o ingresso de estudantes que fazem parte de grupos tradicionalmente marginalizados, como é o caso de Davi Vergueiro e Dionne do Carmo Araújo Freitas.

Davi Vergueiro: mestrado como caminho para ajudar povos indígenas a pensar num modelo de desenvolvimento adequado à sua realidade. Foto: William Leal

Vergueiro, de 31 anos, faz parte da etnia Kaingang, e mora no litoral paranaense. Sua aprovação no processo seletivo de mestrado reflete esforços de outras políticas, como das vagas complementares destinadas aos Povos Indígenas do Paraná, que permitiu que Vergueiro ingressasse na graduação, também concluída na UFPR Litoral.

“Quando a gente sai da graduação percebe que pode fazer mais. Optei pelo mestrado em Desenvolvimento porque, além de me sentir muito à vontade no Setor Litoral, tenho a possibilidade de desenvolver projetos e pesquisas que podem auxiliar os povos indígenas a pensar um modelo de desenvolvimento coerente com nossa realidade, sem a necessidade de abrir mão de nossos valores culturais”, conta Vergueiro.

Transgênero

O que é novidade nas vagas reservadas para cotistas é a destinação do benefício a pessoas transgênero, ou seja, aquelas cuja identidade de gênero/sexo difere do sexo biológico ou daquele designado no nascimento, tal como as travestis e transexuais.

Dionne Freitas é a primeira transgênero a ingressar no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Territorial Sustentável. Foto: acervo pessoal.

Dionne do Carmo Araújo Freitas é a primeira estudante trans a ingressar no PPGDTS por meio das vagas reservadas. A história da mestranda, de 27 anos, ilustra e justifica a necessidade de cotas para trans.

Terapeuta ocupacional formada pela USP, Dionne fez residência multiprofissional em Saúde do Adulto e Idoso. Mas para chegar até a aprovação no processo seletivo de mestrado muitas barreiras precisaram ser enfrentadas: do preconceito à própria aceitação.

Dionne foi registrada como menino e criada como tal, mas lembra-se que já aos três anos sabia que era uma garota: “Eu me sentia assim, ou seja, eu era uma criança transexual”, conta.

Como a imensa maioria das pessoas trans, Dionne enfrentou preconceito, violência e rejeição, no seu círculo mais próximo e fora dele. “Não podia andar sozinha no bairro onde morei, pois recebia pedradas e cusparadas. Sofri três tentativas de estupro coletivo”, conta.

“Quando eu entrei na faculdade queria viver como uma pessoa cisgênera – que tem sexo psicológico igual ao físico e não passa pelos constrangimentos das pessoas transgêneras – , então não contei para ninguém minha condição e por ter nome ambíguo e fenótipo totalmente feminino passei despercebida na faculdade e na pós graduação também. Já na pós minha documentação estava retificada, então não me preocupei com nada disso. Tudo isso me mostrou que realmente vivemos uma epidemia de transfobia no Brasil, pois quando me escondi não sofri nenhuma das coisas que passava lá como pessoa trans”.

Cotas trans

A decisão pela cota para pessoas trans tem como base estudos que evidenciam como esse público é socialmente marginalizado. Segundo Marcos Signorelli, professor do PPGDTS e pesquisador do tema, “a expectativa de vida para uma pessoa trans é de 35 anos, metade da população em geral, que chega a mais de 70 anos”.

Além disso, Signorelli lembra que o Brasil é o país que mais assassina pessoas trans, concentrando mais da metade de todos os homicídios cometidos no mundo. A violência que culmina na morte dos trans é a expressão máxima da violência, no entanto muitas outras formas permeiam a vida dessas pessoas : “isto está diretamente relacionado ao preconceito, falta de informação sobre o tema e reflexo de uma cultura machista” lembra o pesquisador.

Fora a violência há outras questões que intensificam os dilemas e dificultam o processo de auto aceitação da condição do trans, como a falta de apoio na família, que quase sempre culmina na expulsão do lar. E isso se mostra também no ambiente escolar, levando à evasão e, consequentemente, refletindo nas condições profissionais que essas pessoas poderão alcançar. “Muitas vezes a prostituição é o único caminho para a sobrevivência e disso desencadeiam-se vários outros problemas de saúde pública”, ressalta Signorelli.

O professor afirma que “ao contrário do que muitas pessoas pensam, cotas não são um privilégio, mas uma possibilidade, mesmo que limitada, de contribuir para um processo de correção de distorções históricas”.


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