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Extensão e Cultura

Poeta polonês não judeu que testemunhou ocupação nazista tem poemas traduzidos por professor do Depac

Camille Bropp     24 de agosto de 2018 - 13h54

Ainda desconhecido no Brasil, o livro de poesias “A Leitura das Cinzas”, do escritor polonês Jerzy Ficowski, recebeu uma versão inédita em português com tradução do professor Piotr Kilanowski, do Departamento de Polonês, Alemão e Letras Clássicas (Depac). Falecido em 2006, Ficowski é um dos autores que se dedicou ao tema da Shoah (“holocausto” em hebraico), que consiste no testemunho dos sobreviventes do nazismo, com o diferencial de que não era judeu. O autor tinha 15 anos quando a Polônia foi invadida por tropas alemãs, em 1939, o que não o impediu de participar da resistência polonesa nem de registrar o que viu em textos, ainda que a maioria tenha sido descartada porque ele não a considerou boa o suficiente.

Kilanowski conheceu as obras de Ficowski “por acaso” e já trabalhava com os textos em sala de aula. Em 2014, escreveu para a família de Ficowski para pedir autorização para publicar as primeiras traduções do poeta, que estão em um livro de 2014 que reúne autores poloneses. Em 2013, o professor conheceu na Polônia a esposa de Ficowski, Bieta, ela mesma uma sobrevivente — nasceu no gueto de Varsóvia de família judia e cresceu com mãe adotiva. Assim começaram as tratativas para que Kilanowski pudesse traduzir o autor, que até hoje é mais conhecido pelo resgate da obra do escritor polonês Bruno Schulz do que por seus textos próprios, uma vez que lhe foi imposto um longo período de censura durante e depois da guerra.

Jerzy Ficowski registrou testemunho da resistência dos poloneses à política supremacista do governo nazista. Foto: Bartosz Pietrzak

Ficowski pertenceu a uma geração polonesa particularmente patriota, chamada de “os colombos”. A resistência à ocupação do país fez com que milhões de poloneses fossem perseguidos e mortos pelos nazistas, fizessem eles ou não parte das minorias atingidas pelas políticas de extermínio. Membro do Exército Nacional (AK), formado em 1939, o escritor foi preso em 1943 e solto por influência de sua mãe, Halina, que subornou os responsáveis pela prisão. Mas o escritor acabou em campos de concentração alemães depois de participar do Levante de Varsóvia, em 1944.

Após a queda do nazismo, Ficowski também se opôs à ascensão de um governo socialista na Polônia, que foi parte do acordo entre os Aliados e afastou o governo anterior. Com isso, o escritor adentrou mais um período de clandestinidade, passado, em parte, com ciganos poloneses (entre 1948 e 1950). Nesse meio tempo, Ficowski se dedicou à tradução e à elaboração de textos etnográficos sobre os ciganos, mas manteve os registros que dariam origem aos seus poemas, para os quais passou as décadas seguintes buscando uma forma de expressão literária.

“A obra de Ficowski está sendo redescoberta nos últimos tempos, ganhando várias reedições, críticas e recentemente congressos científicos dedicados apenas a sua pessoa e obra”, diz Kilanowski.

Neologismos

Segundo o professor, a linguagem desenvolvida pelo autor é o principal desafio para tradutores. “É o livro mais difícil em que já tive oportunidade de trabalhar”, avalia o professor, que também traduziu outra poeta polonesa da época, Anna Świrszczyńska. Contribuem para isso o fato de Ficowski fazer referências “cifradas” a pessoas e lugares, além de criar neologismos frasais a partir de expressões coloquiais.

“Ele aproveita a linguagem, faz brincadeiras”, explica Kilanowski, cuja avaliação é de que, para entender esses neologismos, o tradutor precisa “estar atento à presença de fragmentos das expressões presentes nos poemas e enriquecidos por novos sentidos” e verificar o ritmo da expressão.

O poeta em família (com a mulher, Bieta, a filha, o genro e os netos. Ao lado, a capa do livro. Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação

Um exemplo de como Ficowski usa esse recurso está na expressão “dawnowidz”, no poema “Paisagem Póstuma”. À primeira vista, fica claro que a palavra é junção de duas: “dawno”, usada para “antigamente”, e “widz”, que é “expectador”. Mas o neologismo diz mais do que “expectador de antigamente”, por causa da sua semelhança com “krótkowidz” (“míope”) e “dalekowidz” (“hipermétrope”). “Está claro que ele estava falando de alguém que também tem defeito de visão. Foi como cheguei a ‘retrovidente’”, conta o professor. Por conta dessa complexidade, Kilanowski relata, no prefácio do livro, ter contado com o segundo olhar de uma ex-aluna da UFPR, a tradutora Eneida Favre, na revisão da tradução.

Memória

Entre os poemas do livro, o professor destaca três, dos quais dois não têm nome. O primeiro trata da sensação de impotência relatada pelo poeta (“Não consegui salvar / nem uma vida”). O segundo, sobre a destruição da vizinhança de Muranów, região de Varsóvia onde ficava o gueto judeu na Polônia ocupada por nazistas. O terceiro é intitulado “Tuas mães As duas” e dedicado à mulher, Bieta. (Leia aqui os poemas traduzidos e no original, em polonês).

Para Kilanowski, o poeta simboliza um argumento veemente entre os poloneses que escreveram sobre a ocupação da Polônia. “Como testemunha do holocausto, Ficowski tem um ponto interessante porque ele se revoltava contra a postura dos poloneses que optavam pelo esquecimento, o que para ele equivalia a um ‘assassinato de memória’”, avalia. “Por outro lado, ele sabia que as pessoas às vezes precisam esquecer para viver e ele mesmo se sentia atormentado em relembrar que as suas paisagens de infância tinham se transformado em paisagens de um genocídio”.


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