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Ciência e Tecnologia

Pesquisadores do Cenacid orientam técnicos de Rio Branco do Sul sobre tremores de terra registrados em abril e maio

Superintendência de Comunicação Social     20 de maio de 2019 - 15h52

Além de trabalhar na proposta de um projeto de pesquisa para verificar os tremores de terra recorrentes em Rio Branco do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, o Centro de Apoio Científico em Desastres (Cenacid) orientou a Prefeitura a tomar uma série de medidas investigativas e de orientação da população do município, que possui cerca de 32 mil habitantes.

A reunião entre os professores Adriana Talamini e Wilson Alcântara Soares e os técnicos municipais ocorreu na última quarta-feira (15). O relatório do Cenacid sobre a reunião foi concluído na sexta (17).

Localização dos sismos registrados na região de Rio Branco do Sul, na Grande Curitiba, em abril e maio. Imagem: Google Earths/Cenacid

Moradores da região vêm reportando a ocorrência de sismos há pelo menos dez anos, mas a ocorrência de três deles em menos de 30 dias motivou a reunião.

O tremor mais recente foi  no dia 14 e, segundo o Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), teve intensidade de 2,6 na escala Richter. O centro registrou outros tremores na região nos dias 8 de maio (magnitude 2,2) e 23 de abril (2,5). Com exceção do tremor do dia 14, a localização dos epicentros está nas proximidades das áreas urbanas de Rio Branco do Sul e de Itaperuçu.

Na avaliação do Cenacid, o episódio permite levantar cinco hipóteses para explicar os tremores, que estão sendo investigadas. Duas delas têm relação com a ação humana e, as outras três, com situações naturais — movimentações tectônicas e desmoronamentos subterrâneos causados por desgaste.

Os professores Adriana Talamini e Wilson Soares (à dir.), do Cenacid-UFPR, na reunião com técnicos da Prefeitura de Rio Branco do Sul, no dia 15. Foto: Cenacid/Divulgação

“A hipótese de movimentação tectônica é mais remota, sobretudo em se tratando de uma região com muitas pedreiras e um solo com aquífero”, afirma a professora Adriana Talamini. “Mas no momento atual, em que estamos coletando mais informações sobre o caso, é importante trabalhar com essas cinco hipóteses”.

As duas teses ligadas à ação humana foram as mais discutidas na reunião com a Prefeitura: o desmoronamento subterrâneo causado pela retirada de água do aquífero da região; e a detonação em pedreiras.

Aquífero

A possibilidade de exploração demasiada do aquífero Karst pelos poços de abastecimento da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) foi exposta pelos técnicos municipais. O aquífero é do tipo cárstico, o que significa que a água flui por cavidades deixadas pela dissolução das rochas, em geral calcárias.

Segundo o município, que afirma já ter solicitado relatórios de bombeamento de poços profundos à Sanepar, a empresa expandiu sua rede na região recentemente. A suposição é que a retirada da água das cavidades existentes no maciço rochoso subterrâneo poderiam causar quedas de blocos abaixo da subsuperfície, o que causaria tremores. De acordo com o relatório do Cenacid, essa hipótese “causa preocupação, uma vez que é de difícil controle”.

A orientação dos pesquisadores foi para que a Prefeitura verifique também o funcionamento de poços profundos que abastecem as mineradoras da região, já que os abalos não foram sentidos nos bairros localizados sobre a região de rochas do tipo filito, que são as rochas onde usualmente não ocorrem cavidades cársticas. A informação consta nos relatos dos moradores feitos à Prefeitura.

Ainda segundo o Cenacid, a avaliação dessa tese exige investigação aprofundada nas regiões com predomínio das rochas carbonáticas, para compreender melhor as características geológicas e os processos deformacionais que afetaram essas formações geológicas. Também é necessário estudar o processo de dissolução das rochas. Essas avaliações pedem métodos geofísicos e demandariam em torno de seis meses.

Detonações

A outra hipótese discutida, que também tem a ver com ação humana, é a ocorrência de detonações nas pedreiras localizadas na região Leste da cidade.

Segundo o relato de moradores, os abalos de maio ocorreram durante a madrugada (entre as 3 e as 5 horas). O sismo de abril teria ocorrido à noite, por volta das 20 horas. Os três horários estão fora do expediente usual das pedreiras.

O Cenacid avalia que essa tese merece ser apurada pelo município, tendo em vista que a localização do epicentro dos sismos registrados do observatório da USP coincidem com a localização das pedreiras.

Consultados pelo Cenacid, os moradores do bairro Nossa Senhora de Fátima, um dos mais atingidos, afirmaram acreditar que, no caso do sismo do dia 14,  o estrondo e tremor lhes pareceram diferentes do causado habitualmente por detonação de pedreira.

Monitoramento

Em tempo hábil, o Cenacid pretende apresentar aos interessados um projeto mais amplo de investigação científica. A intenção é avançar sobre as hipóteses para os tremores, estudando causas e consequências dos fenômenos geológicos.

Outra recomendação do Cenacid ao município foi a instalação de um aparelho para registro sismográfico continuo, instalado em região adequada, a fim de especificar a localização dos sismos.