Universidade Federal do Paraná

Menu

Ciência e Tecnologia

Pesquisador da UFPR aborda complexidade do trabalho em TI em dissertação que se tornou livro

Jéssica Tokarski     14 de setembro de 2021 - 11h37

O modelo de trabalho reproduzido na área de tecnologias da informação e como ele afeta o caráter, as expectativas e a vida pessoal dos trabalhadores é tema de um livro escrito por Alexandre Pilan Zanoni, estudante do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A obra, fruto de sua dissertação de mestrado, recebeu o “Prêmio Mundos do Trabalho em Perspectiva Multidisciplinar”, concedido pela Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET), e será publicada em formato de livro, compondo a Coleção Mundos do Trabalho.

A partir dos relatos de vida de quatro trabalhadores que exercem ou exerceram diferentes atividades na área de tecnologias da informação, Zanoni desenvolveu seu estudo com o objetivo de compreender o processo de construção das subjetividades dessas pessoas, buscando perceber como os trabalhadores projetam a si mesmos e reconstroem seus conhecimentos e capacitações ao mesmo tempo em que trabalham em projetos coletivos, cujos produtos têm como característica a imaterialidade (softwares ou serviços).

Imagem: redgreystock / Freepik

De acordo com o autor, parte significativa do trabalho no setor das tecnologias da informação é organizada em torno de projetos, com prazos preestabelecidos e que envolvem equipes de trabalhadores reunidos de modo temporário. Esse modelo exige muita “flexibilidade” dos colaboradores nos aspectos de conhecimento, capacitação e disponibilidade para o trabalho. “Muitas vezes os contratos são estipulados em função do prazo de um projeto específico. Mesmo em empresas com trabalhadores contratados por tempo indeterminado, os conhecimentos para executar determinadas atividades se alteram conforme o projeto do momento”, exemplifica.

O nome do livro, “Lâmpada para os meus pés: vida e trabalho nas tecnologias da informação”, foi inspirado na experiência religiosa dos entrevistados e na reflexividade em relação à incerteza do futuro. “Trata-se do trecho inicial dos Salmos 119:105: ‘Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho’. Essa oração foi acionada por alguns dos personagens quando foram confrontados sobre seus planos para o futuro. Diante da impossibilidade de assumirem responsabilidades e planos de longo prazo, no contexto mutável de suas profissões, confortam-se com a ideia de que Deus ilumina apenas um passo de cada vez, não sendo possível visualizar o destino final de suas caminhadas”, revela o mestrando.

As histórias de quatro trabalhadores com ambições, anseios e expectativas diferentes se entrelaçam em um ambiente de trabalho similar que causa incertezas, rupturas e frustrações, mas também abre espaço para novos desafios, sonhos e expectativas.

Imagem: vectorjuice / Freepik

João

A história de João, que atualmente trabalha como engenheiro de sistemas para uma grande empresa norte-americana do ramo da tecnologia de informação médica, evidencia um percurso marcado por constantes rupturas e mudanças. João começou a trabalhar como “peão” no setor, desempenhando a atividade de Analista de Suporte Técnico. Apesar de sua formação superior em Sistemas de Informação, seus primeiros empregos consistiram em atender chamadas e realizar atividades monótonas e repetitivas, que fogem da imagem por vezes difundida de um trabalhador criativo e autônomo.

Atender chamadas não era, para João, apenas a atividade que exercia em seu trabalho. João também atendeu ao “chamado” para sua vocação como pastor de igreja, vindo a desempenhar essa atividade nas suas horas fora do trabalho. Hoje, implanta projetos de sistemas informacionais em seu trabalho na informática, mas também implanta, como pastor, projetos de novas igrejas.

Carlos

Imagem: stories / Freepik

A trajetória de Carlos, amigo de João e seu antigo colega como analista de suporte, seguiu por outro caminho. Trabalhou por vários anos na mesma multinacional do ramo do petróleo e gás, com o sonho de um dia ser reconhecido pela empresa e ser transferido para outro país. Desapontado com a falta de reconhecimento no trabalho e frustrado com as avaliações de desempenho que recebia de seus chefes, entrou em depressão e pediu demissão. Em um longo intervalo de tempo, que envolveu severas crises depressivas que o impossibilitavam de sair de casa, não conseguiu mais uma recolocação na área, apesar de continuar estudando e aprendendo novas tecnologias. Recorreu a trabalhos informais ou precários, os quais não foram suficientes para mantê-lo financeiramente.

Sua narrativa é marcada pelo momento da crise que tem no trabalho, sua entrada em uma igreja evangélica e sua conversão. “Compreendi que a narrativa religiosa forneceu um importante arcabouço simbólico para os personagens, constituindo-se em uma fonte de sentido e orientando-os em um mundo do trabalho marcado pela fragmentação do tempo e do espaço”, revela o autor.

Imagem: vectorjuice / Freepik

Fernando

Já Fernando era considerado velho para o mercado de TI por estar prestes a completar 40 anos. Sua história percorre os eventos e as tendências mais importantes e característicos do setor das tecnologias da informação dos últimos trinta anos, como as reformas neoliberais, a bolha da internet, a desoneração da folha de pagamento para o setor de TI no Brasil, as startups e a transformação digital, etc.

Paralelamente ao seu trabalho no setor, sua trajetória mostra os desafios de um pai que assumiu responsabilidades historicamente imputadas às mulheres, conseguindo conciliar seu trabalho, sempre que possível de modo remoto, com a criação e o cuidado de seus dois filhos.

Ana

Imagem: Freepik

A jovem Ana, de 29 anos, é trabalhadora do setor financeiro e seu trajeto profissional é marcado por rupturas e pela tentativa de reinserção no mercado de trabalho. Ela aprendeu por conta própria a utilizar e a adaptar os sistemas do banco em que trabalhava. Porém, depois de uma série de abusos em um relacionamento, que envolviam perseguições e a não aceitação de seu trabalho, Ana decidiu se demitir para não prejudicar sua imagem na empresa. Desempregada, começou um curso superior em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, projetando para si uma carreira no setor de TI.

Seu relato assume um contraponto em relação aos outros três, ainda mais por evidenciar as dificuldades inerentes ao seu gênero no mercado de trabalho e na construção de uma identidade profissional.

Inspiração pessoal

Apesar de Zanoni ter entrevistado diferentes personagens, sua própria história serviu como motivação para seu estudo. Ele conta que desde pequeno, com oito anos de idade, já se interessava por computadores e informática. “Aprendi ainda criança a instalar programas, a montar e a desmontar computadores, além de resolver todos os tipos de problemas que apareciam. Na adolescência, comprava revistas de informática e me lembro que elas traziam tabelas com as profissões da área e seus respectivos salários. Era o início dos anos 2000 e a promessa de salários já passava dos vinte mil reais mensais. Anos mais tarde, estava matriculado em um curso superior de Engenharia da Computação”, relembra.

Entretanto, ele cursou apenas três semestres e abandonou a graduação, já desiludido com a realidade que se apresentava. Na metade de 2008, decidiu tentar a vida no exterior. “Trabalhei em cozinha de restaurante, como vendedor de cosméticos e então consegui um emprego em Dublin, na Irlanda, na área de tecnologia da informação. Um emprego temporário em uma empresa que traduzia e testava jogos de videogame. Era um mundo de novidades para mim, não fazia ideia do que eram empresas terceirizadas e de como elas se organizavam”.

O entusiasmo com o trabalho era grande e ele se via fazendo aquilo por muitos anos e iniciando uma nova vida naquele país. Porém, tão logo se encerrou o projeto em que estava inserido, seu vínculo com a empresa se desfez. “De novo no Brasil, reiniciei os estudos no curso de Ciências Sociais. Ao cursar as disciplinas de Sociologia do Trabalho comecei a compreender o contexto geral no qual ocorreu essa minha experiência. Passei a entender também o impacto da reorganização flexível do trabalho na vida pessoal dos trabalhadores”,

Pesquisa recorrente na UFPR

O contexto de trabalho nessa área de atuação é objeto frequente de pesquisa nos cursos de Sociologia da UFPR. A professora Maria Aparecida Bridi, orientadora de Zanoni, também já foi agraciada com o mesmo prêmio de seu aluno. A temática está ancorada em seu primeiro projeto de pesquisa financiado pelo CNPq: “Trabalhadores em tecnologias de informação, sindicalismo e ação coletiva: o que há de novo no horizonte?”.

O projeto procura entender como acontece a organização coletiva desses trabalhadores e quais são as principais reivindicações expressas nas ações de seus sindicatos. A ideia é analisar esse sindicalismo recente e refletir sobre um setor que é cada vez mais central na sociedade e na economia atual.

Leia aqui a dissertação.


UFPR nas Redes Sociais

UFPR no Facebook UFPR no Twitter UFPR no Flickr RSS UFPR UFPR no Youtube UFPR no Instagram
Universidade Federal do Paraná
Rua XV de Novembro, 1299 | CEP 80.060-000 | Centro | Curitiba | PR | Brasil | Fone: +55(41) 3360-5000
UFPR no Facebook UFPR no Twitter UFPR no Youtube
Setor de Universidade Federal do Paraná
Rua XV de Novembro, 1299
CEP 80.060-000 - Centro
Reitoria da UFPR - Curitiba - PR - Brasil
Fone: +55(41) 3360-5000

Imagem logomarca da UFPR

©2021 - Universidade Federal do Paraná

Desenvolvido em Software Livre e hospedado pela AGTIC - Agência de Tecnologia da Informação e Comunicação da UFPR