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Ciência e Tecnologia

Pesquisa da UFPR sobre doenças reumáticas propõe tratamentos para população indígena

Superintendência de Comunicação Social     7 de novembro de 2019 - 17h54

Dois cursos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) de diferentes áreas se uniram para pesquisar e contribuir com a saúde de índios de Rondônia. O projeto surgiu em uma iniciativa do curso de Medicina da UFPR, que posteriormente teve parceria do curso de Antropologia da Universidade. O objetivo é reconhecer e categorizar as doenças reumáticas em grupos indígenas. A partir disso, é possível estabelecer um tratamento para o problema e propor ações que de fato ofereçam assistência a esses grupos. Além disso, estratégias podem ser planejadas para identificar doenças precocemente e encaminhar os pacientes com prioridade pré-estabelecida. Nesse momento, o grupo estuda etnias de Rondônia, contando com o apoio do doutor Liszt Jooney, especialista em reumatologia da região.

O professor Sérgio Kowalski, do departamento de Clínica Médica da UFPR e um dos organizadores da iniciativa, conta que a pesquisa é essencial para tratar esse tipo de doença na população indígena, aplicando os procedimentos utilizados na população não indígena. “Havendo consenso nas condutas, espera-se reduzir sequelas, deformidades e incapacidade decorrentes das doenças reumáticas, melhorando a qualidade de vida dos participantes.’’

Uma das propostas é reduzir sequelas, deformidades e incapacidade decorrentes das doenças reumáticas dos participantes do estudo. Fotos: Divulgação

Para Sérgio, além da identificação e categorização das doenças para propor tratamentos, o estudo tem ainda mais a oferecer. “A partir dos resultados pode ser feito o delineamento de políticas de saúde que contemplem harmonização das técnicas de tratamento das etnias e tratamento convencional alopático pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, identificação de riscos que podem ser discutidos e harmonizados com sua cultura, e potencialmente eliminados”.

Foram entrevistados 148 homens e 159 mulheres, todos acima de 15 anos de idade. Desses, 46% tinham dor, rigidez ou aumento de volume articular nos últimos sete dias, não relacionados à trauma. As localizações mais frequentes foram coluna lombar (14%), quadril (5%), coxa (3%) e calcanhar (2%). Dos que relataram que sofriam com esses problemas, 64% definiu as queixas como graves.

Os resultados que o projeto apresentou também colaboram para mantê-lo funcionando e fazer outras descobertas. “A pesquisa despertou nas etnias confiança em nosso trabalho, estreitamento de relações não somente médicas, mas sociais. Doenças não reumáticas (neurológicas, dermatológicas, saúde bucal) foram identificadas e discussões com os membros das etnias têm sido iniciadas e propostas para tratamento.’’

Parceria e resultados

O curso de Antropologia da UFPR também atua na pesquisa. A parceria entre os cursos é produtiva para os dois lados. A professora Andréa Oliveira, do departamento de Antropologia e colaboradora do projeto, utiliza das suas experiências passadas com grupos indígenas para contribuir. “Além de trabalhar há muitos anos com um grupo indígena específico de Rondônia, há etnografias sobre outros grupos indígenas daquele estado que nos informam sobre as percepções etiológicas, ou seja, sobre o surgimento do fenômeno, e processos nosográficos, que dizem respeito à classificação das doenças, elaborados por eles’’.

O principal trabalho da Antropologia para a pesquisa é orientar os médicos em dois pontos: o primeiro é sobre os procedimentos éticos da relação com os indígenas e como deve ser a relação entre eles; o segundo é instruir os profissionais da saúde para o questionário que leva ao levantamento de dados, a fim de que os resultados se aproximem mais da realidade dos indígenas.

Parceria dos cursos de Medicina e Antropologia da UFPR na pesquisa pode ainda auxiliar na formulação de políticas voltadas aos povos indígenas

Para a professora Andréa, a parceria com a Medicina também ajuda a produzir conhecimento para a Antropologia. Para a antropóloga, quanto mais se conhece sobre como os outros pensam, mais se pode aprimorar o conhecimento sobre os sistemas de pensamento. “Antropólogos, especialmente etnólogos, são, na maioria das vezes, muito envolvidos com as necessidades dos grupos com os quais trabalham. Conhecer outras áreas e seus modos de trabalho nos auxilia também a poder contribuir com a formulação de políticas voltadas a esses povos’’.

História

O interesse do professor Sérgio pelo assunto surgiu em 1987, quando morou na Amazônia. Desde então, desenvolveu um grande interesse pela cultura indígena. Ao longo de sua carreira acadêmica, percebeu que não haviam dados sobre a prevalência de doenças reumáticas em indígenas brasileiros. “Embora respeite sua cultura e preferências de conduta e tratamento, pensei que poderiam se beneficiar, caso houvesse identificação de alguma doença, de um tratamento alternativo ou complementar aos empregados na sua etnia.’’

Professor Sérgio Kowalski faz expedições às aldeias com equipe de reumatologistas, assistentes de pesquisa e estudantes de Medicina da UFPR desde 2017

Em 2017, os trabalhos do projeto começaram a ser desenvolvidos. “Desde então, sempre com muita alegria dirigi-me às aldeias nas expedições que contam com um motorista, dois reumatologistas, um assistente de pesquisa e alunos de graduação em Medicina (iniciação científica), como Sarah Stier, da UFPR.’’ A próxima visita à Rondônia acontecerá em dezembro.

A iniciativa conta com o apoio financeiro da International League of Associations for Rheumatology (Ilar), além do suporte da Sociedade Brasileira de Reumatologia, Sociedade de Reumatologia de Rondônia e departamentos de Medicina e de Antropologia da UFPR.

Rodas de conversa

Rodas de conversa começaram a ser realizadas em outubro, no café Babete, em Curitiba, para debater o projeto. O objetivo foi apresentar aos médicos uma visão antropológica desse contexto, buscando compreender as nuances do comportamento humano e suas crenças. A proposta é realizar rodas de conversa semanais. Elas acontecerão nas quintas-feiras, no período da tarde. “Nas próximas rodas haverá música ao vivo pelo alunos e professores, além de transmissão online, particularmente para a Universidade Federal do Pará (Ufpa), onde três alunas de iniciação científica de Rondônia colaboram também com este projeto’’, diz Sérgio.

Por Breno Antunes da Luz
Sob supervisão de Chirlei Kohls
Parceria Superintendência de Comunicação e Marketing (Sucom) e Agência Escola de Comunicação Pública e Divulgação Científica e Cultural da UFPR