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Mestre em Design pela UFPR, jovem negro e da periferia conquista título de doutor na Holanda pensando em contribuir com mercado de baixa renda

Superintendência de Comunicação Social     12 de fevereiro de 2020 - 10h57

Determinação e obstinação marcam a história de Jairo. Na foto, durante a defesa da sua tese, na Holanda (Foto: Divulgação)

O título de mestre em Design pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), conquistado em 2012, foi apenas o primeiro passo para que Jairo da Costa Junior realizasse dois grandes feitos: ser o primeiro doutor da família e receber o título no exterior, na Universidade de Delft, na Holanda. As duas conquistas representam, também, a realização de um terceiro sonho – nascido e criado na periferia, ele se dedicou a estudar como o design pode ser uma ferramenta de inclusão social.

A história de Jairo em busca do conhecimento envolve determinação e obstinação. Formado em Design, ele só conseguiu concluir a graduação graças a uma bolsa de estudos que recebia porque sua mãe trabalhava de faxineira em uma universidade privada no interior de Santa Catarina. “Depois de formado, saí do emprego para estudar para o ingresso no mestrado na UFPR. Foi aí, também, que conheci o professor Aguinaldo”, recorda.

Aguinaldo dos Santos, professor do Programa de Pós-Graduação em Design, tem lembranças expressivas do primeiro contato com quem hoje ele chama de “diamante”. Em um mês de janeiro, Jairo o procurou, já preparado com a leitura de artigos, dissertações e teses relacionadas ao trabalho dele. “Lembro que no primeiro ano dele manifestei minha compreensão de que ele tinha perfil para realizar doutorado fora do Brasil. Para tanto teria que alcançar uma quantidade e qualidade de publicações razoável para ser competitivo no pleito por bolsas. O Jairo seguiu minhas recomendações à risca”, comenta.

As lembranças de ambos também contemplam um período de longa dedicação de Jairo ao Proeng/Capes, programa cujo objetivo era pensar e desenvolver metodologias focadas em design e sustentabilidade. Neste período, além da colaboração com empresas e do intercâmbio com pesquisadores de países como Alemanha, Itália e África do Sul, ele trabalhou com projetos que envolviam seu maior sonho – contribuir com soluções para pessoas de classes populares, como ele. “Nós trabalhávamos com esse contexto de desenvolver soluções para os mercados de baixa renda e o meu desejo era trabalhar com o design inclusivo”, conta.

O período, nas lembranças de Jairo, foi essencial e de uma intensidade única. Essa trajetória, que resultou em uma banda chamada “Jaca”, também possibilitou que pleiteasse e conseguisse uma das primeiras bolsas do extinto programa Ciência sem Fronteiras, para cursar o doutorado pleno no exterior. “O Jairo mostrou ao longo tempo sua enorme competência a ponto de antes de terminar o mestrado receber proposta de uma empresa para integrar sua equipe. Mas nesta época ele já tinha o aceite e a bolsa aprovada para realizar o doutorado na Holanda”, relembra o professor.

Sonhos que fazem a diferença

A história de Jairo se destaca também pelo sonho de retribuir à sociedade aquilo que ele mesmo conquistou por meio do conhecimento. Suas dificuldades para concluir o mestrado foram inúmeras: em uma greve, com o Restaurante Universitário parado, precisou retornar para o seu Estado porque não tinha recursos para se alimentar em outro lugar. Também viveu a dificuldade de ver a casa da família inundada por uma enchente.

Professor Aguinaldo e Jairo, parceiros desde o mestrado na UFPR

O doutorado no exterior lhe impôs outras barreiras: inúmeros percalços retardaram sua pesquisa, e o fim do prazo de concessão da bolsa fez com que ele tivesse de passar uma temporada na China para guardar dinheiro, voltar e concluir sua pesquisa. “Eu não fiz da melhor forma, no melhor prazo, mas eu não desisti – e por isso também esse título representa tanto”. 

A pesquisa de Jairo, que teve o professor Aguinaldo como um dos membros da banca, traz embutida a preocupação em transformar o designer em um profissional preocupado em conhecer a realidade para poder transformá-la. Intitulado “A SYSTEMS DESIGN APPROACH TO SUSTAINABLE DEVELOPMENT Embracing the complexity of energy challenges in low-income markets”, o estudo aponta o conceito de design sistêmico como saída para que não se observe somente a tecnologia, mas também os desafios sociais. 

“Formas tradicionais de design às vezes não funcionam para populações de baixa renda. O designer pode pensar em uma boa tecnologia, mas esses desafios o impedem de ir adiante”, explica. Por isso, concentrou sua preocupação em reforçar aspectos educativos, da formação dos profissionais, estimulando-os a melhorar as tecnologias para que se adaptem. “A minha preocupação central foi em como educar os novos designers para ter esse pensamento”, explica ele, que planejou recursos de ensino para viabilizar sua proposta.

Agora doutor, Jairo não esquece o papel da UFPR – e do professor Aguinaldo – em sua trajetória. Na universidade, conforme lembra, foi estimulado a se portar como um pesquisador e profissional autônomo, que frequentava reuniões de negócios e fazia trabalho de campo nas periferias. “Este título é uma realização de um sonho pessoal quase utópico para o contexto de onde vim”, reconhece. “Sou o primeiro doutor da minha família e a minha ideia com a pesquisa era realmente desenvolver uma ferramenta que contribuísse e tivesse impacto frente a questões sociais”.

Para Aguinaldo, participar da defesa da tese de um dos seus pupilos foi um momento emocionante. O professor assegura que teve muitos alunos brilhantes e que é um sonho permanente vê-los alcançando seus sonhos.  “Que ajudem a transformar as suas e outras vidas, que sejam agentes efetivos de mudança para uma sociedade ambientalmente responsável, socialmente equitativa e economicamente justa”, reforça. “Jairo é um destes diamantes que vez ou outra encontramos nesta vida. Espero muito que até o final da minha carreira como professor eu possa ajudar outros diamantes a brilhar como ele já brilha”.