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Isolamento social: sim ou não?

Jéssica Tokarski     26 de março de 2020 - 13h28

Em momentos como o atual, em que a pandemia da Covid-19 e a disseminação do SARS-CoV-2 têm causado tantas incertezas, o refúgio na ciência apresenta-se como o melhor caminho a ser seguido. Pouco ainda se sabe sobre uma doença tão nova, existente há menos de quatro meses, mas que vem trazendo consequências devastadoras para diversos países – sejam eles potências mundiais, médias ou regionais.  Que atitudes o Brasil deve adotar? Como enfrentar essa doença? Com escassas informações acerca do problema, as respostas a esses questionamentos devem vir da observação dos cenários presentes em outros países atingidos e do desenvolvimento da doença por lá.

Até esta quarta-feira (25 de março), o Brasil tinha 2.433 pessoas contaminadas com a Covid-19 e 57 mortes em decorrência da doença. O quadro demonstra que, até este ponto, a evolução da enfermidade no país foi parecida com a da Itália, dos Estados Unidos e da Espanha, afirma o cientista Emanuel Maltempi de Souza, professor do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e presidente da Comissão de Acompanhamento e Controle de Propagação do Coronavírus na universidade. Nesses países, quando cerca de duas mil pessoas apresentavam a condição, já haviam morrido aproximadamente 50.

“Todos esses países estabeleceram medidas semelhantes às do Brasil para diminuir a transmissão entre as pessoas: medidas de distanciamento social rígidas – como suspensão de aulas em escolas e universidades, fechamento de comércio e ordem para ficar em casa – e de higiene pessoal, principalmente lavar as mãos e não tocar o rosto”, comenta Souza. Após a implantação dessas providências, espera-se que o número de novos doentes apresente redução. Contudo, o professor lembra que o resultado deve aparecer claramente entre duas a três semanas depois da adesão da população às medidas, já que o período de incubação do vírus pode ser de até 14 dias, embora na maioria das vezes seja de três a cinco dias.

Atitudes de distanciamento social foram empregadas no Brasil e no Paraná ainda no início da expansão da Covid-19, em comparação com outros países. A região italiana da Lombardia, por exemplo, foi isolada quando já havia 237 casos e três mortes (em 23 de fevereiro), mas as universidades e escolas do país só suspenderam as atividades quando já existiam cerca de 3800 doentes (em 8 de março). “Esse atraso para romper o ciclo de contaminação provavelmente levou à transmissão disseminada da enfermidade. Apenas nos últimos dois ou três dias (23 a 25 de março) é que foi possível notar a estabilização do número de novos casos, cerca de duas semanas após a implantação de medidas rigorosas. Ou seja, mesmo em casos extremos como o da Itália, o distanciamento social realmente funciona”, reitera o cientista.

“Mesmo em casos extremos como o da Itália, o distanciamento social realmente funciona”

Casos bem-sucedidos

Coreia do Sul e Alemanha são exemplos de países que adotaram abordagens que têm gerado efeitos positivos. No primeiro, a evolução do número de casos foi semelhante à do Brasil e de outros países com população parecida. A diferença é que logo no início da disseminação da doença, cerca de 150 casos em 18 de fevereiro, as autoridades iniciaram uma estratégia agressiva de contenção do vírus por meio de testagem ampla das pessoas que tiveram contato com casos positivos dentro dos grupos familiares, identificando os contactantes positivos e isolando-os.

Além disso, a Coreia do Sul proibiu aglomerações de pessoas, fechou instituições educacionais e locais públicos como parques, centros de convivência e de práticas esportivas e cancelou eventos esportivos. “Lá o número de casos evoluiu de forma semelhante ao dos outros países até 28 de fevereiro, cerca de dez dias após o emprego das estratégias de isolamento, mas a partir daí a taxa de crescimento da doença foi reduzindo e se distanciando da situação da Itália, dos Estados Unidos, e da Espanha”, esclarece Souza. A Alemanha seguiu estratégia semelhante e também parece ter reduzido o avanço da doença.

O professor explica que na Alemanha o aumento de dez mil para vinte mil casos levou três dias e o mesmo período foi necessário para avançar de vinte para trinta mil casos. “Já nos Estados Unidos, que demoraram para implantar as medidas de distanciamento social, o aumento de dez mil para vinte mil casos levou dois dias, enquanto de vinte para trinta mil casos levou menos ainda: 1,7 dias. Isso é o esperado na expansão exponencial da doença com ausência de distanciamento social”.

E se nada fosse feito?

Os dados apontados acima permitem prever que se nenhuma medida restritiva fosse adotada no Brasil, o número de pessoas com Covid-19 seria semelhante ao que Itália, Estados Unidos e Espanha apresentam hoje num prazo entre sete e dez dias: cerca de 50 mil casos. “Destes, 15% seriam hospitalizados, requerendo sete mil e quinhentos leitos em hospitais. 5% iriam necessitar de cuidados médicos com respirador em UTI, gerando uma demanda de dois mil e quinhentos leitos de terapia intensiva. Isso representa um pouco menos do que 10% dos leitos no Brasil, que já têm ocupação de, aproximadamente, 75%”, revela o presidente da comissão.

Considerando a já observada taxa de crescimento da Covid-19 que dobra a cada três dias, é possível prever que, na ausência de providências para bloquear o crescimento da doença, em mais duas semanas (três semanas e meia a partir de hoje), o Brasil teria 200 mil doentes, requerendo sete mil e quinhentos leitos de UTI. “A partir desse momento os novos pacientes não poderiam ser tratados por falta de recursos materiais”, prevê Souza. Considerando a taxa de mortos verificada até agora, cerca de 2%, o país teria aproximadamente quatro mil mortos. “Estes números podem ser obtidos extrapolando as curvas e utilizando o comportamento médio da doença observado em outros países”.

“A partir desse momento os novos pacientes não poderiam ser tratados por falta de recursos materiais”

Os especialistas da comissão ainda alertam que outra característica da enfermidade é que os profissionais da área de saúde são contaminados e ficam doentes. Essa situação exaure recursos humanos necessários e essenciais para cuidar da população.

O Reino Unido havia colocado em prática uma abordagem semelhante à sugerida pelo presidente do Brasil em pronunciamento nacional na noite de terça-feira (24). Com a não adoção de regras rígidas de distanciamento social, contrariando a maioria dos epidemiologistas do mundo, esperava-se que a população fosse imunizada e adquirisse resistência ao vírus, já que em grande parte dos casos a doença causa sintomas leves. Entretanto, no final da semana passada, em 15 de março, o crescimento exponencial de casos da Covid-19 obrigou o governo britânico a abandonar a estratégia suicida devido à perspectiva de sobrecarga iminente do sistema de saúde.

“O emprego de determinações rígidas de distanciamento social é eficiente para reduzir drasticamente a expansão da doença, diminuindo o número de pessoas doentes. Essa é a nossa melhor arma contra o SARS-CoV-2. Essas medidas levam ao chamado efeito de  ‘achatamento da curva’ de pacientes com Covid-19. É a melhor e mais eficiente forma de que dispomos para combater a doença no estágio atual”, argumenta o professor.

Achatamento da curva

Os especialistas na área de saúde são praticamente unânimes em concordar que o achatamento da curva da Covid-19 não vai eliminar a doença, porém permitirá que o número de pacientes não exceda os recursos para tratamento disponíveis.

Para a Comissão de Acompanhamento e Controle da UFPR, o reinício imediato das atividades que geram aglomerações – como a reabertura de escolas, universidades e comércio – facilitaria a disseminação do vírus, provocando um número explosivo de doentes e uma sobrecarga incontornável do sistema de saúde.

“O reinício imediato das atividades que geram aglomerações provocaria um número explosivo de doentes e uma sobrecarga incontornável do sistema de saúde”

“Aspecto importante é o papel dos portadores assintomáticos do vírus. Essas pessoas, apesar de aparentemente saudáveis, transmitem a doença sem saber. É possível que crianças tenham um papel importante nesse fenômeno”, salienta Souza. Por isso é tão importante testar para presença do vírus uma grande quantidade de pessoas, mas o país não tem capacidade para isso atualmente. “Essa é outra razão para não reduzir a rigidez das medidas de distanciamento social nesse momento”.

Crianças e jovens raramente desenvolvem a doença, mas podem ter o vírus de forma assintomática e transmitirem para outras pessoas. “É muito provável que crianças e jovens, que têm grande contato com os avós, transmitam o SARS-CoV-2 para o grupo de risco. Além disso, nas escolas as crianças e jovens interagem entre si, com professores e com outras pessoas que realizam serviços. Ou seja, é um ambiente com grande interação entre pessoas, característica que facilita a contaminação, podendo ser levada pelos alunos para casa”, ponderam os membros da comissão.

Um modelo matemático e usando dados reais publicado na revista científica Science, este mês, indica que 80% dos novos doentes receberam o vírus de uma pessoa que desconhecia estar infectada. “Se esse modelo estiver correto, os portadores assintomáticos, sem que tenham nenhuma ideia, são os principais disseminadores do vírus”. Dados de países que têm testado grande parcela da população como Coreia do Sul e Alemanha indicam que o modelo está correto.

Mortalidade

Pela experiência vivida por outros países, é possível constatar que as taxas de mortalidade são escalonadas de acordo com a faixa etária dos doentes. A taxa de mortalidade dos pacientes entre 30 e 39 anos na Itália é de 0,3%, enquanto na China é de 0,2%. Já para os pacientes que têm entre 40 e 49 anos, a letalidade sobe para 0,4%. Jovens entre 10 e 29 anos representam 0,2% das vítimas fatais, ao passo que crianças entre 0 e 9 anos não tiveram óbitos observados. Para os mais velhos, entre 60 e 69 anos, a mortalidade observada é de 3,5%, podendo chegar a 15% para aqueles que têm mais de 80.

Podemos fazer outras perguntas aos números. Qual a fração de mortos em faixa de idade produtiva (entre 20 e 50 anos)? Na Itália esse número não é nada pequeno: 25%. “Se olharmos para a próxima faixa etária produtiva, especialmente levando em conta a nova idade mínima para aposentadoria no Brasil -65 anos-, temos 37,8% de mortes em pacientes entre entre 51 e 70 anos. Chegamos à conclusão de que a Covid-19 atinge em cheio as pessoas em idade produtiva , o que certamente terá impacto negativo importante na economia italiana”, analisa a comissão da UFPR. A taxa de letalidade dessa doença na Itália, onde a enfermidade está mais descontrolada, é 12,4 por cem mil habitantes. Os números são maiores que a taxa anual de homicídios do estado de São Paulo. “Isso em um prazo de apenas um mês e dez dias”.

Com relação à imunidade, os médicos recomendam alimentação balanceada para manter o sistema imune eficiente, independentemente da idade. Porém não há nenhuma evidência na literatura de que pessoas com histórico atleta sejam mais resistentes à doença. “Existem evidências de que fumantes ou ex-fumantes são mais suscetíveis à forma grave da doença”, advertem os integrantes da comissão.

Clima

Até o momento, não existe nenhuma evidência que comprove a teoria de que o clima influenciaria no comportamento da doença. Algumas conjecturas sugerem que o vírus poderia se comportar de forma diferente no Brasil, devido à maior temperatura média. Porém, para a comissão de especialistas, o comportamento dos estágios iniciais do SARS-CoV-2 em São Paulo e no Rio de Janeiro é semelhante ao da Europa, dos Estados Unidos e da China. “É importante frisar que ainda temos pouca informação sobre o comportamento do vírus no mundo, principalmente no Brasil. Qualquer afirmação nesse sentido é especulativa”.

Distanciamento Social

Pelo comportamento da doença em outras regiões do planeta e pelos resultados obtidos com estratégias diferenciadas, resguardados os parâmetros populacionais e de saúde, é possível concluir que o distanciamento social é a melhor forma de deter a Covid-19 nas condições atuais, evitando que o número de casos aumente demasiadamente.

“A progressão exponencial do número de casos pode ser difícil de visualizar, já que, no início, o número é pequeno e sobe muito lentamente, até o momento em que passa a elevar-se de forma extremamente rápida”, afirma o presidente da comissão da UFPR, certo de que bloquear essa forma de expansão da doença é essencial nesse momento.

“Depois que a expansão for bloqueada, será necessário retomar as atividades de maneira organizada para impedir o restabelecimento da doença.”

“Depois que a expansão for bloqueada e os números de doentes começarem a cair, será necessário retomar as atividades de maneira organizada para impedir o restabelecimento da doença. Para isso, acreditamos que a capacidade de detectar o vírus em pessoas com sintomas e assintomáticas será essencial para inibir cirurgicamente a sua disseminação. Além disso, o sistema de saúde deverá ter um número mínimo de leitos com respiradores reservados para novos pacientes para tratamento precoce e isolamento. Do contrário, estaremos sujeitos a uma segunda onda da Covid-19”, é a conclusão da comissão.

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