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Extensão e Cultura

80 anos de SCH: de hobby de professores e alunos à criação de bacharelado, tradução ganha destaque nas Letras

Camille Bropp     21 de maio de 2018 - 10h35

A história de como a atividade de tradução conquistou destaque nos departamentos de Letras da UFPR, alavancada por prêmios e homenagens a escritores, mistura gosto e oportunidade. Por “gosto”, explica-se: para muitos, a tradução é também um prazer, e em algum momento na década de 1990 esse tipo de literato começou a se tornar ainda mais comum pelos corredores do Humanas. Já as oportunidades foram aproveitadas por professores e alunos, em diversas frentes.

Um deles é o professor Maurício Mendonça Cardozo, que hoje leciona Teoria da Tradução e foi um dos responsáveis por propor a criação do Bacharelado em Estudos da Tradução, há cerca de 20 anos Cardozo conta que, em sua época de aluno — ele se formou em Letras e Literatura Alemã em 1995 — já havia a oferta esporádica de disciplinas optativas e eventos sobre tradução.

Interessado desde sempre na atividade por causa do poeta alemão Paul Celan, Cardozo havia conseguido convencer seu orientador a aceitar um trabalho de conclusão que envolvia tradução — este professor, ele mesmo, um tradutor diletante. Quando se tornou docente na UFPR, Cardozo era mestrando na Universidade de São Paulo (USP), com um projeto sobre a concepção de Walter Benjamin sobre o ofício da tradução.

Alguns dos professores-tradutores da UFPR (em sentido horário a partir do topo): Maurício Cardozo; Regina Przybycien; Caetano Galindo e Guilherme Gontijo Flores. Fotos: Simone Petry/Acervo Pessoal; Samira Chami Neves/Sucom-UFPR; Cristovão Tezza/Acervo Pessoal; e Rafael Dabul/Acervo Pessoal

Foi então que fez à chefia uma pergunta que, mais tarde, influiria na reforma de currículo dos cursos de Letras. “Não havia uma linha ou disciplina obrigatória além da tradução do Inglês para o Português, que continua um exercício maravilhoso para os alunos. Então perguntei: ‘posso dar umas disciplinas de tradução?’”, conta. “Tentei convencer o pessoal sobre o interesse latente dos estudantes, que era o meu também. A demanda se mostrou imensa, muitos interessados a cada semestre”.

A partir da soma desses interesses em comum e de muita “negociação interna” (palavras de Cardozo), foi criado o em 1997 o Núcleo de Estudos de Tradução (NUT). O núcleo permitiu que disciplinas fossem ofertadas com mais regularidade e consolidou os eventos sobre tradução no Humanas. Foi assim, devagar, que a tradução acabou por se tornar uma possibilidade de bacharelado para os alunos dos cursos de Letras da UFPR, a partir de 2001.

A oportunidade de sugerir o bacharelado em tradução surgiu em 1997, quando os cursos de Letras começaram a discutir uma reforma curricular. Segundo Cardozo, o argumento da proposta era de que os estudos em tradução poderiam se tornar uma opção mais bem delineada para os bacharéis. “O bacharelado em Letras não tinha um perfil, uma cara. Era definido como ‘tudo que não é licenciatura’”, lembra.

Da academia à editora

O Bacharelado em Estudos da Tradução da UFPR não nasceu para ser profissional, ou seja, uma escola de escritores. O formato acadêmico, mais ligado à pesquisa, à reflexão das línguas, é o que diferencia o curso na comparação com outros da área. Os conteúdos, muitas vezes, se assemelham aos da pós-graduação. Trata-se de uma proposta que compele o graduado a continuar sua formação acadêmica, bem como uma adaptação aos recursos disponíveis nos cursos de Letras. Esta última, uma conta que incluía o número de professores que lecionavam tradução, na época pequeno.

Talvez essa característica do bacharelado é o que, à primeira vista, torne mais interessante o destaque de tradutores ligados ao curso. “A proposta do bacharelado foi um pouco mais modesta, para prometer o que não poderíamos cumprir. Mas o modelo funciona muito bem, estamos formando muitos tradutores, de juramentados aos que têm contratos fixos com editoras”, avalia Cardozo. “A tradução é uma atividade prática, antes de qualquer coisa. Por não ser uma atividade regulada, todos podem traduzir. Há os autodidatas. A diferença é que percursos formativos ajudam a acelerar o processo, a organizar essa formação”.

O fato é que o bacharelado se tornou um núcleo em que alunos e professores se dedicam à tradução ao mesmo tempo em que estudam os autores originais. E, por outro lado, a atividade de tradução dos professores também contribui para que a sala de aula proporcione uma troca de experiências mais ampla.

Núcleo

Assim, ao longo do tempo cresceu o número de professores de Letras da UFPR que também atuam como tradutores. Nos últimos anos, pelo menos três deles receberam prêmios nacionais por isso: Caetano Walfredo Galindo, Guilherme Gontijo Flores e Regina Przybycien (já aposentada).

Para Galindo, a atuação como professor e pesquisador aprimora a prática de tradução. “As aulas no bacharelado com ênfase em estudos da tradução são onde a minha experiência editorial mais alimenta a prática de sala de aula. E vice-versa, porque a reflexão constante, e o diálogo permanente sobre tradução e sobre literatura também ajudam a manter o indivíduo afiado”, avalia.

Hoje com 44 anos, Galindo é professor da UFPR desde 1998. Graduou-se (em 1997) e fez mestrado em Letras na UFPR para depois concluir o doutorado em Linguística na Universidade de São Paulo (USP), em 2006. Atualmente é conhecido como tradutor de James Joyce. Foi premiado pela tradução de “Ulysses” em 2012 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); depois, recebeu o Jabuti e o Prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2013. Um ano depois, outro APCA, pela tradução de “Graça Infinita”, de David Foster Wallace.

O interesse por tradução surgiu aos poucos, mas hoje ele reconhece que a atividade hoje tem espaço considerável no que faz. “Eu meio que sempre brinquei de tradução. Mas nunca imaginei uma ‘carreira’. Até porque de fato, antes da internet, era bem menos simples fazer isso aqui de Curitiba”, afirma. “O que eu penso, no entanto, é que é bem capaz que a tradução literária seja a coisa que eu sou mais capacitado pra fazer de forma competente. Eu sou um professor mais ou menos, fui um músico ‘menos’, mas acho que sou um tradutor decente”, brinca.

Livros traduzidos por professores da UFPR: “Canção de Ninar”, de Leïla Slimani, traduzido por Sandra Stroparo; “Rock’n’Roll e Outras Peças”, de Tom Stoppard, traduzido por Caetano Galindo; “Safo”, com poemas traduzidos por Guilherme Gontijo; e “Um Amor Feliz”, de Szymborska, traduzido por Regina Przybycien. Imagens: Divulgação

Para Galindo, foi a criação do bacharelado que ajudou a formar um núcleo de tradutores na UFPR. “Foi o que detonou todo esse processo. Hoje há um ambiente extremamente fértil de discussão e produção de tradução literária”, acredita. O professor classifica a tradução como um trabalho que é feito “sempre em conjunto”. Em editoras, diversos profissionais atuam em uma tradução — da autoria à preparação, passando por revisão e edição. Para ele, no mundo acadêmico, a construção é similar. “Esse ambiente de troca é fundamental para o trabalho de cada um de nós ali dentro, seja como professores, seja como leitores, seja como produtores de traduções”.

Tradutor/acadêmico

Na percepção do professor Guilherme Gontijo Flores, do Departamento de Polonês, Alemão e Letras Clássicas (Depac), nos últimos 20 anos vem crescendo a tendência de projetos de tradução serem produzidos dentro das universidades como trabalhos científicos para, em seguida, serem oferecidos a editoras. Flores avalia que esse tipo de projeto tem a vantagem de agregar estudo específico à prática de tradução, devido tanto ao ambiente em que nasce quanto pelo tempo não ser o mesmo da prática de mercado.

“Hoje estamos conseguindo colher os frutos de quem faz esse tipo de trabalho, que por um lado tem rigor acadêmico e, por outro, um rigor literário, poético. É uma forma de traduzir também pensando no público extra-acadêmico”, afirma.

Flores é professor da UFPR desde 2008 — ou seja, em período posterior à criação do bacharelado. Sua ligação com a tradução, porém, é longa. Começou na licenciatura em Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), na qual se formou em 2005 com uma monografia que traz a tradução de um poema de Ezra Pound (1875-1972) feito a partir de trechos do poeta Propércio, que viveu na Roma Antiga.

“Raimundo Carvalho foi quem mais me guiou para a tradução”, conta. “Ele me incentivou quando percebeu meu interesse, me passou bibliografia, me deu soluções práticas. Foi um mestre importante na minha carreira”.

A partir do mestrado em Estudos Literários na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concluído com uma tradução das “Elegias” de Propércio, o professor se voltou para traduções de obras antigas. Talvez esse tenha sido o resultado de uma convergência de estudos em idiomas que são caros a Flores: grego (que aprendeu para ler os originais de Safo e Homero), latim, inglês e português.

Entre 2013 e 2017, traduções de Flores receberam quatro prêmios nacionais da categoria. “A Anatomia da Melancolia”, de Robert Burton, obra escrita no século XVII, foi premiada com o 57.º APCA e o primeiro lugar em “tradução” do Jabuti de 2014. “Elegias”, de Propércio, recebeu em 2015 o Prêmio Paulo Rónai de Tradução de 2015, da Biblioteca Nacional. Em 2017, ano do lançamento de “Fragmentos completos”, de Safo, a obra recebeu o 61.º APCA.