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Ciência e Tecnologia

Gripe espanhola de 1918 deixou legado à pandemia do coronavírus em 2020, afirmam pesquisadoras da UFPR

Amanda Miranda     7 de maio de 2020 - 10h00

 

As semelhanças da trágica gripe espanhola, de 1918, que matou milhões de pessoas no mundo, com o início da pandemia do novo Coronavírus são marcantes para pesquisadores do tema, ainda que as comparações entre passado e presente demandem cautela, a começar pela distinção no tipo de vírus responsável pela doença. O que mais chama a atenção são as recomendações de isolamento e distanciamento social, o que também ocorreu de forma muito intensa na época.

Mas também há diferenças, a começar pelo tipo de vírus em circulação. Antes, o influenza; agora o SARS-CoV-2, da família Coronavírus. “Ainda é complicado falar em legado para a pandemia que estamos vivendo agora, mas é possível falar sobre a necessidade de uma atenção permanente e sobretudo estimular pesquisas que busquem produzir vacinas e medicamentos”, comenta a professora Liane Maria Bertucci, do departamento de Teoria e Fundamentos da Educação da UFPR, uma estudiosa do tema.  Essa é, aliás, é outra das distinções marcantes provocadas pelo avanço da ciência nos últimos cem anos: hoje, há expectativas para o desenvolvimento de uma vacina a médio prazo.

Contudo, a historiadora lembra que, neste momento, a sociedade ainda lida com uma pandemia para a qual não há medicação antiviral disponível, nem vacinas protetoras.

” Por não existirem ainda terapias específicas ou vacina profilática, as medidas que estão ao alcance de serem tomadas para dificultar a disseminação do vírus são as medidas de distanciamento social”.

Em 1918, os conselhos sobre higiene e isolamento social eram muito semelhantes aos que se vivencia agora. A informação por parte dos jornais, por exemplo, foi muito importante àquela época, apesar do grande número de analfabetos. “Essas pessoas poderiam ouvir os comentários das notícias e sobre os meios de prevenção da gripe, também podiam observar ilustrações dos jornais – muitas delas alertavam sobre a doença”. Por outro lado, também houve censura sob a alegação de evitar o pânico.

Hoje, de acordo a pesquisadora, o acesso a informação é amplo, assim como a facilidade de encontrar dados. “O que acontece no outro lado do planeta chega até nós muito rápido. É difícil encontrarmos alguém que não tenha acesso a pelo menos uma ferramenta de informação”, comenta.

“O que ocorre é que esse bombardeio também nos leva a um atordoamento. O afã de passar informações às vezes faz com que se confunda uma ideia, uma perspectiva em andamento com uma verdade consolidada”.

No livro “O mez da grippe” (publicada a 1ª edição em 1981, pela Casa Romário Martins, da Fundação Cultural de Curitiba), do autor Valêncio Xavier, há a reconstrução deste momento histórico feito através de recortes de jornais da época, 1918, em outubro, novembro e dezembro, meses difíceis para a cidade de Curitiba, assolada pela gripe espanhola.  O então diretor do Serviço Sanitário do Estado, Trajano Reis, aconselhava os habitantes que não se visitassem até que terminasse o ciclo da epidemia e que evitassem aglomerações. Segundo a historiadora, tanto na cidade, como em outras regiões do Brasil, os chamados conselhos ao povo resumiam, em poucas linhas, prescrições médicas. “Os jornais também publicavam comentários de médicos sobre a doença e, em alguns casos, como fez o paulistano O Estado de S. Paulo, reproduziam diariamente números oficiais de doentes e mortos”, pontua.

Capa original da 1ª edição do livro O Mez da Grippe.

De algum modo, a informação pode ter feito diferença no impacto da pandemia. A professora Lucy Ono, que integra a Comissão de Acompanhamento e Controle de Propagação do Coronavírus da UFPR, estimou, a partir dos dados do livro de Xavier, que 62% de toda a população de Curitiba em 1918 foi atingida.  Desses, 0,85% morreram, o equivalente a 0,52% da população na cidade. “Podemos apenas especular, pois temos poucos dados suficientes, que em Curitiba pode ter havido a implementação maior de medidas de distanciamento social em 1918, pois esse valor de mortalidade de 0,84% está muito abaixo dos 2,5% relatados nos Estados Unidos para a pandemia de 1918”, pondera.


Incertezas científicas

A gripe espanhola teria deixado entre 20 e 50 milhões de mortos no mundo – cerca de 35 mil deles no Brasil. Na época, como relembra Bertucci, os médicos identificavam os sintomas da doença, que já classificavam como microbiana, endêmica e mundial e sem tratamento específico. A comunidade científica também discutia se ela era causada por um bacilo ou um vírus: foi a gripe epidêmica que impulsionou essas pesquisas. Em setembro daquele ano, no Brasil, houve também um impasse sobre os primeiros casos suspeitos. A dúvida é se eram de gripe espanhola ou uma gripe comum. “Isso pode ter acarretado atraso em medidas de combate à doença em algumas localidades”, observa a pesquisadora.

Registro de aviso em jornal de Curitiba, feito no dia 22 de outubro de 1918 (Reprodução O Mez da Grippe)

O fato de a comunidade científica e o sistema de saúde estarem diante de um vírus novo, de uma família diferente, evoca, hoje, outro tipo de incerteza. Para Liane, a nova faceta do microorganismo mostrou que nenhum sistema de saúde do mundo estava suficientemente preparado para esse tipo de pandemia, forçando autoridades a se questionarem sobre a melhor forma de usarem os recursos já disponíveis. “Em uma epidemia, agir com rapidez é muito importante. Como estar preparado para uma doença que vai exigir centenas de leitos a mais nos hospitais, além de grande número de equipamentos e medicamentos? Seria possível manter e atualizar constantemente estruturas assim em diferentes partes do mundo?”, questiona.

Anúncios extraídos de jornal da época (Reprodução O Mez da Grippe)

A historiadora recorda como, de certa forma, a última grande epidemia mundial, de H1N1, em 2009, foi um momento em que a história reforçou as urgências do presente. “Foi um alerta sobre o período potencial de uma gripe – que até hoje não tem tratamento específico e é causada por um vírus que pode sofrer mutações extremamente letais”. Segundo ela, no surto de gripe A muitas pessoas, inclusive profissionais de saúde, “redescobriram” a gripe espanhola e isso pode terá ajudado a agir com prontidão diante dos riscos do novo Influenza. “Isso é uma hipótese – a história serve para nos dar um alertar, para pensarmos em como agir”.

A professora Lucy Ono também compara o passado ao tempo presente. “Se não tivéssemos sistema de saúde, se não tivéssemos os medicamentos antibióticos que temos para tratar infecções bacterianas secundárias, se tivéssemos as mesmas condições da época, com uma população atual de quase 2 milhões de habitantes, a cidade poderia ter 16,8 mil mortes pelo vírus da gripe espanhola”, comenta, fazendo um adendo de que o cenário não é mais realístico atualmente. “Temos medicamentos, inclusive antivirais contra o vírus da gripe, temos um sistema de saúde e temos vacina, que são frentes importantes no enfrentamento das epidemias virais”.


Tabela de óbitos publicada no Diário da Tarde (Reprodução O Mez da Grippe)

 


 

Dados registravam que percentual de óbitos chegava a 0,84, em Curitiba (Reprodução O Mez da Grippe)

 


Medo e solidariedade

Há dez anos, a professora Liane Maria Bertucci publicou um artigo intitulado A onipresença do medo na influenza de 1918″. Naquele 2009, a população mundial voltaria a se preocupar com a influenza por conta do H1N1, enquanto Liane retomava um período de incertezas, medo e também de solidariedade impulsionada pela gripe espanhola.

Em outubro de 1918, por exemplo, o jornal O País dizia que era necessário combater duas epidemias, a de gripe espanhola e a do medo, mas apontava um pavor injustificável. A historiadora conta que os brasileiros foram, então, “forçados a abandonarem seus valores e costumes mais enraizados”. Atividades familiares foram interrompidas, doentes isolados e as cidades ficaram em silêncio.

“Em 1918, os brasileiros, de norte a sul do país, tiveram seu cotidiano modificado devido à gripe espanhola, e assistiram os locais públicos (como escolas, parques, teatros, cinemas, etc) serem fechados; as reuniões noturnas, inclusive as religiosas, tornarem-se proibidas (a diferença de temperatura, dentro e fora desses locais já favoráveis à propagação da doença, poderia ser fatal para as pessoas e para a difusão da moléstia), e os enterros com acompanhamento a pé serem vedado. Visitas foram condenadas e beijos e abraços desaconselhados. Até mesmo cumprimentar as pessoas com aperto de mão passou a ser ato indesejado”, registra, no artigo.

O medo do contágio transformou o cotidiano de várias formas, inclusive aumentando a vigilância dentro das comunidades. Como a hospitalização tinha um público privilegiado, os mais pobres das cidades, homens e mulheres que viviam em péssimas condições sanitárias foram considerados inimigos.

Por outro lado, o livro de Xavier também mostra a preocupação com o acolhimento à população de baixa renda, à qual se ofereciam refeições, divulgadas em anúncios nos jornais. A professora também identificou esses movimentos em seu estudo. “Uma das expressões desta solidariedade pode ser detectada na intensa divulgação de fórmulas caseiras com a explícita intenção de, gratuitamente, ajudar as pessoas a curar a doença ou evitá-la. Difundidas por todo o Brasil em 1918, as práticas de cura da medicina popular revelavam aspecto significativo do dinâmico universo cultural nacional”, indica.


Colaborou: Carlos Martins da Rocha (pesquisa e curadoria de imagens)

Sobre o autor de O Mez da Grippe: Valêncio Xavier Niculitcheff é um dos nomes mais reconhecidos da literatura experimental brasileira. Foi um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som do Paraná e fundador da Cinemateca de Curitiba. Sua obra O Mez da Grippe ganhou o Prêmio Jabuti de melhor produção editorial em 1999.


 


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