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Ciência e Tecnologia

Em artigo no periódico “One Health”, professor da UFPR adverte sobre riscos do uso de ivermectina contra a Covid-19

Camille Bropp     5 de agosto de 2020 - 10h07

Riscos ainda pouco estudados da combinação de ivermectina com medicações de uso contínuo e do uso massivo do antiparasitário contra a Covid-19 estão entre os alertas do comentário editorial assinado pelo professor Marcelo Beltrão Molento, do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no volume mais recente da “One Health”, da Elsevier. Desenvolvido nos anos 70 para controle de parasitas em animais e pessoas, o medicamento tem sido adotado em protocolos informais, baseados em relatos empíricos (sem comprovação científica), como um auxiliar na prevenção e no tratamento de sintomas leves da Covid-19. Segundo Molento, o uso da ivermectina contra o novo coronavírus ganhou ares de “nova panaceia curativa” especialmente na América do Sul.

Molento relata ter encontrado “pelo menos uma dúzia” de protocolos do tipo, noticiados pela imprensa brasileira e adotados até em hospitais públicos, antes de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interromper o uso livre do medicamento, no último dia 23. Segundo avalia, a disponibilidade do medicamento em farmácias contribuiu para isso, mas também houve outro fator, uma espécie de propaganda boca a boca que parte de pessoas e instituições. “Do ponto de vista terapêutico, o que temos é um grande número de pessoas incentivando o uso da ivermectina. Assim, quando a informação chega ao grande público, ele se torna alvo fácil para que se corra atrás do medicamento como ‘salvação no total’, por isso o termo ‘panaceia’ que usei no artigo”, explica.

Professor da UFPR menciona no artigo científico que o uso da ivermectina contra a Covid-19 ganhou ares de "panaceia curativa" na América do Sul por causa da disponibilidade do medicamento. Na foto, "kit Covid-19" distribuído no Peru. Foto: EsSalud-Ucayali/Flickr, 15/7/2020

Uso da ivermectina contra a Covid-19 ganhou ares de “panaceia curativa” na América do Sul por causa da disponibilidade do medicamento, afirma professor em artigo. Na foto, ivermectina que compõe um “kit Covid-19” distribuído pelo governo do Peru. Foto: EsSalud-Ucayali/Flickr, 15/7/2020

A ivermectina chegou às prateleiras quando Molento estava na graduação, nos anos 80. O professor estuda a ivermectina há 25 anos pelos pontos de vista da biologia molecular e da bioquímica, com foco nos efeitos clínicos e na busca de marcadores para resistência. “Essa molécula é eficiente contra parasitos gastrointestinais e ectoparasitos, que são os parasitos externos. Foi um estardalhaço na Medicina Veterinária, pois combate um amplo espectro de parasitoses com margem de segurança fantástica”, lembra. Ele conta que relatos empíricos de efeitos antibacterianos e antivirais da ivermectina são antigos e se referem também ao uso humano, mas ainda carecem de confirmação. Até hoje na Medicina Veterinária o medicamento em geral não é usado para obter supostos efeitos periféricos — prática chamada de “off label”.

Combinação

Um problema da falta de estudos é o desconhecimento sobre como a ivermectina interage com fármacos, em especial os de uso contínuo, como os antidepressivos. A bula do medicamento desaconselha o uso com drogas depressoras do sistema nervoso central (o que inclui ansiolíticos e opiáceos). Fora isso, a bula traz apenas três contra-indicações além da hipersensibilidade às substâncias ativas: crianças menores de cinco anos, peso inferior a 15 quilos e meningite ou outras infecções no sistema nervoso central.

“Só que essas orientações se referem ao uso como a bula descreve, uma dose única para tratamento. Não todos os dias, como algumas pessoas vêm tomando”, diz Molento. “Ainda que a ivermectina seja conhecida por uma boa margem de segurança, essa margem pode não ser suficiente se o medicamento for tomado regularmente”.

Com o aumento do preço da ivermectina pela procura, uso de medicamento veterinário por humanos passa a ser um risco de intoxicação, informa pesquisador. Foto: Seapa/Divulgação, 5/2/2015

Já o uso em massa da ivermectina traz o risco de acelerar um processo já percebido para os médicos veterinários, que é a perda de eficácia da substância. Isso acontece devido à seleção natural dos parasitos resistentes ao medicamento. Assim, em um prazo mais curto, é possível que o medicamento faça menos efeito para as pessoas e tenha que ser combinado com outros anti-parasitas, como já vem ocorrendo na veterinária

Além de contribuir para o aumento do preço do medicamento, a alta demanda por ivermectina pode induzir pessoas a usarem medicamentos para animais. A troca é um risco grave à saúde, adverte o professor. “A indústria farmacêutica para humanos investe dez vezes mais em pesquisa científica do que a veterinária para desenvolvimento de medicamentos”, compara. “A ivermectina bovina, por exemplo, tem característica de formulação para ser administrada em um animal de 450 a 600 quilos. Tem oleosidade específica, persiste mais porque os animais têm mais tecido adiposo [gordura]. Administrar em uma pessoa um medicamento desses é completamente contra-indicado, não existe paralelo terapêutico possível. Seria um grande risco de intoxicação medicamentosa para humanos”.

Conscientização

“A ivermectina tem sido testada cientificamente para vários fins, porém a maioria dos estudos não chegou à etapa de protocolo de registro”, diz Molento. No comentário editorial, ele destaca o baixo número de estudos em que são realizados os protocolos com ivermectina in vivo. Ensaios clínicos em pacientes com Covid-19 em estado inicial estão sendo conduzidos no Egito, Iraque, Índia, Estados Unidos, Austrália, Brasil, Argentina México e Paquistão. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS) a substância está entre os seis anti-parasitários cuja eficácia no tratamento da Covid-19 está sendo apurado. Como pesquisador consultor da OMS, Molento tem liderado equipe que monitora resultados do uso massivo do medicamento em municípios do Sul.

Parte dos estudos foi iniciada por causa do relato publicado na revista “Antiviral Research” por pesquisadores da Universidade de Melbourne, em abril. Os autores relatam ter obtido a eliminação do vírus em 48 horas com o uso da ivermectina em células (in vitro). Os resultados repercutiram de forma rápida, ainda que os próprios autores do artigo tenham alertado sobre as limitações dos testes in vitro. “Partimos do princípio de que somente um em cada 100 ou 200 mil testes realizados em laboratório chegam à fase de testes em pacientes”, afirma Molento.

O pesquisador reconhece os déficits tecnológicos e em saúde da América do Sul, que tornam o combate à Covid-19 mais difícil e amplia o apelo de fármacos baratos e acessíveis. Por outro lado, defende a necessidade de regulação mais rígida por agências governamentais e de campanhas de conscientização. “Além de provar que a ivermectina melhora a saúde em geral, sem efeitos colaterais, precisamos de mais recursos para pesquisa e estudos científicos na América Latina que possam contribuir para decisões terapêuticas melhores com esse medicamento”, escreveu.

São as recomendações extraoficiais que mais preocupam o pesquisador, que encontrou registros delas especialmente pela internet, em redes sociais e em transmissões em vídeo. “O que queremos cada vez mais é alertar as pessoas para que procurem médicos que estejam trabalhando com a Covid-19 e que tomem decisões com base em protocolos que, mesmo não sendo comprovados, já que não existe tratamento medicamentoso para a doença, que os médicos pelo menos tomem cuidado suficiente para que as pessoas não corram risco de efeitos colaterais ou de intoxicação”, diz.

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