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Ciência e Tecnologia

Doutorando propõe em tese alternativas de resistência à visão eurocêntrica do ensino de Filosofia

Camille Bropp     19 de fevereiro de 2018 - 19h39

Assim que começou a lecionar Filosofia em escolas, Luís Thiago Freire Dantas avaliou que havia uma dissociação entre o que aprendeu sobre metodologia de ensino de Filosofia e a realidade dos alunos. Essa percepção de que delimitar o ensino de Filosofia às teorias clássicas significa negar a existência de intelectualidade fora do Norte do mundo se tornou a tese de doutorado de Dantas, que também propôs formas de intervenção para a inclusão da Filosofia Africana na educação básica e na licenciatura. A banca ocorreu nesta segunda-feira (19) à tarde, no Campus Reitoria, em Curitiba.

A tese é uma das primeiras no Brasil a abordar o assunto dentro de um programa de pós-graduação em Filosofia. Para a banca, foram convidados estudiosos de Filosofia Africana de diversas universidades. Eles também participarão do minicurso sobre o tema que ocorrerá ao longo desta terça (20) na Reitoria, com organização do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab-UFPR).

Doutorando Luís Thiago Dantas questionou conceitos como o de “filosofia universal”. Fotos: Samira Chami Neves/Sucom-UFPR

Dantas partiu da ideia de que um dos princípios relacionados à filosofia, a universalidade, que determina que o ensino deve ser pautado pelo que é de “compartilhamento universal”, tem efeito diverso do pretendido. Citando o filósofo sul-africano Mogobe Ramose, a tese defende que, nas condições da “filosofia universal” (sem cultura, sexo, religião, história ou cor), a particularidade é um ponto de partida, mesmo que não se reconheça isso.

Categorização

Para dar força a esse argumento, Dantas reuniu pensamentos de autores-chave da filosofia moderna, como Immanuel Kant, que confessaram abertamente, em seus escritos, acreditar que os negros africanos eram inferiores. Assim, o doutorando construiu duas premissas: a de que negar a Filosofia Africana é uma estratégia para categorizar povos e seus conhecimentos; e a de que a imagem do que é um filósofo parte de uma visão eurocêntrica.

A tese menciona, por exemplo, que, apesar de não serem encaixados no posto de filósofos, pensadores aymara (povo pré-colombiano) tinham uma palavra equivalente à filosofia (do grego “amor à sabedoria”), tlamachilia (pensar bem), como exposto pelo argentino Walter Mignolo.

Para explicar como se deu a categorização da Filosofia Africana, Dantas aborda conceitos como o de especismo humanista e o de colonização humanista. Também adentra questões sobre o conceito de raça e as formas aceitas de resistência à imposição de ideias colonialistas. Para isso, usa autores como Sueli Carneiro, que revisa o biopoder de Michel Foucault para apresentar a negritude como símbolo de morte, e o camaronês Achille Mbembe, que propôs o conceito de necropolítica.

Silenciamento

Na parte que trata do ambiente acadêmico, o doutorando ressalta as reflexões de Grada Kilomba, estudiosa de questões de gênero portuguesa. Segundo Grada, é comum que o corpo negro que está “fora de lugar” seja “convidado a voltar para casa”. E esse “fora de lugar”, segundo ela, inclui a academia.

Na banca, da esq. para a dir.: Renato Noguera (UFRRJ); Eduardo David de Oliveira (UFBA); Marco Antônio Valentim, professor da UFPR que orientou a tese; Juliana Coutinho, pós-graduanda em Filosofia na UFPR; e Wanderson Flor do Nascimento (UnB)

Em sua defesa, Dantas lembrou que existe uma “crítica à militância” dentro do universo acadêmico, onde é exigida uma suposta “neutralidade de pensamento”. Ainda nesse sentido, ele aludiu ao filósofo Euclides André Mance para lembrar que o silenciamento no âmbito epistêmico funciona por retroação: a deficiência presente alimenta a deficiência do futuro.

“Assim, não se pode abordar certos assuntos em pesquisas porque não tem orientador. Ao mesmo tempo, não há incentivo para que se tenha orientadores no futuro”, exemplificou.

Dantas concluiu sua tese apontando propostas para uma “atividade filosófica descolonial libertária”. Entre elas, uma revisão nos currículos da educação básica à licenciatura, a fim de promover uma descolonização do ensino; e uma política de ensino em Filosofia Africana. “Dessa forma seria possível articular o ensino com a vivência da escola”, acredita.


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