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Ensino e Educação

Conheça a história de Maiker, estudante migrante que cursa Odontologia na UFPR

Bruna Bertoldi Gonçalves     28 de agosto de 2019 - 13h00

No dia em que foi assaltado pela quinta vez na Venezuela em um período de três meses, a ideia que amadurecia se transformou em decisão. “Naquele dia, falei para minha mãe que estava decidido que iria embora, porque eu não estava aguentando mais. A situação estava ficando muito complicada, estava me sentindo inseguro”, afirma Maiker Gutierrez. O estudante de Odontologia ingressou na UFPR em 2019 pelo primeiro processo seletivo especial da UFPR para migrantes com visto humanitário e refugiados.

O último assalto ocorreu no ônibus que o levava para casa depois da faculdade. Naquela tarde de fevereiro, por volta das 15h30, Marisol Linares ouviu os planos do filho enquanto tomava uma xícara de café na sala. A dona de casa só acreditou no mês seguinte, quando a passagem foi comprada.

Aos 16 anos, Maiker concluiu o ensino médio e ingressou na Universidade de Carabobo. “Consegui uma ótima oportunidade na melhor universidade do meu estado, só que na Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais”. Por conta de um déficit orçamentário, entre 2009 e 2015 a instituição não ofertou vagas para o curso que ele sonhava fazer. Iniciou, então, Administração Comercial. “Ou ficava esperando dois anos sem fazer nada para fazer Odontologia fora da cidade ou começava um curso. E foi isso que escolhi”.

Na Venezuela, trabalhava em um escritório de contabilidade porque queria, não por necessidade, como frisa. A resistência inicial da família e o apoio recebido após a compreensão de que a viagem representava a esperança de um futuro melhor para o rapaz marcaram o início da jornada de migração. A distância dos seus, as dificuldades que encontraria e a interrupção do caminho profissional que havia começado a trilhar foram motivos de preocupação para ele.

Na foto (em sentido horário) estão Maiker, de camisa listrada, a avó Maria, a mãe Marisol, o padrasto Luis, o irmão mais novo, José, e o irmão Carlos. Foto: Arquivo pessoal

Quando deixou sua terra, no dia 8 de junho de 2016, vivenciava reflexos da crise socioeconômica e política que o país enfrenta desde o fim do governo de Hugo Chávez, em 2013. “Você ia no mercado e, certos produtos, já não achava mais. Era uma fila enorme para comprar algumas coisas, o serviço já estava desgastado”. À época estudante de Ciências Econômicas e Sociais, Maiker fez uma projeção do que aconteceria no país nos próximos anos. “Prevendo isso, resolvi sair. Hoje a realidade mudou e todos estão praticamente obrigados a procurar oportunidades fora da Venezuela. Naquele momento, tinha passaporte, hoje já não tenho mais”, pontua.

Prestes a completar 22 anos, embarcou para o Brasil. Naquele momento, não poderia imaginar o que viveria nos anos seguintes e até onde sua decisão o levaria. Tampouco sabia que realizaria no país vizinho o sonho de cursar Odontologia. Na mala, colocou um objeto que considera especial: a Bíblia, que sempre o acompanha, presente de uma amiga dos Estados Unidos.

Chegada ao Brasil

Quando chegou ao Brasil, não tinha a certeza de querer ficar. As dificuldades em Manaus, cidade onde morou por quase dois anos, assustaram o venezuelano. No Amazonas, não estudou, mas trabalhou, muitas vezes sem receber o salário combinado. Não tinha conhecimento das leis brasileiras e não sabia como recorrer. Sentiu-se refém de situações que viveu. “Lá as oportunidades são mais limitadas. Trabalhei em uma escola de línguas, na recepção de um hotel, como vendedor ambulante na rua, várias coisas aconteceram”. Para Maiker, uma experiência chocante de um período do qual guarda poucas boas lembranças. 

Os aprendizados e o amadurecimento que vieram com as adversidades são considerados pontos positivos. “Em dois anos morando em Manaus, aprendi muito mais da vida do que em 21 morando na casa da minha mãe”, avalia. 

Em abril de 2018, fez a mudança para Curitiba. “Eu sabia que queria ficar no Brasil.. Fiz uma pesquisa bem grande das cidades e oportunidades que teria, porque o meu objetivo principal era voltar para a universidade”. A escolha de sair do país onde nasceu implicou mudanças em diferentes áreas da vida, somadas a conquistas e desafios. A saúde do jovem foi nocauteada pelo frio do Paraná. Em Valencia, cidade natal – localizada a cerca de duas horas da capital, Caracas -, a temperatura média durante o ano é de 24 graus. 

“Esse é o meu segundo inverno aqui. No primeiro, fiquei doente, peguei uma gripe super forte. Tive que ir no hospital porque eu não estava aguentando. O médico explicou várias coisas; da roupa, que teria que tomar mais cuidado, cobrir o pescoço, porque eu não estava acostumado. Eu não tinha roupa de inverno. Esse ano está mais tranquilo porque já sei como é”. 

Maiker na escadaria do Prédio Histórico da UFPR, no Centro de Curitiba. O jovem lembra do dia em que avistou a construção pela primeira vez, em abril de 2018, quando chegou à cidade. Fotos: Marcos Solivan/Sucom-UFPR

O preconceito pode cruzar o caminho daqueles que decidem migrar, alerta o estudante. “O fato de ser estrangeiro parece que te faz ‘meio que um cidadão de segunda categoria’, até você conseguir mostrar para as pessoas que você merece essa oportunidade e que você faz parte de uma realidade que acontece – o deslocamento de imigrantes ao redor do mundo. E que você chegou para contribuir, não para tirar. Você tem muito a oferecer para o país que abre as portas”, explica.

Quando optou por morar na capital paranaense, os amigos de Manaus questionaram a decisão. “Diziam ‘como assim? Você não conhece ninguém, ninguém está te esperando.’ Realmente, cheguei no aeroporto de São José dos Pinhais e não conhecia ninguém. Pensei: seja o que Deus quiser”, recorda. Uma mala e uma mochila eram a sua bagagem.

O proprietário de um pensionato no Centro de Curitiba foi receptivo ao telefonema e, assim, Maiker encontrou um quarto e recebeu as primeiras orientações na cidade. Ao caminhar pela Rua XV de Novembro para conhecer a região, teve o primeiro contato com a UFPR. “Cheguei no Prédio Histórico e meio que me arrepiei. Pensei, ‘nossa, Universidade Federal do Paraná’. Naquele dia fiquei sabendo que iria fazer parte disso, porque eu consegui me enxergar saindo desse prédio como estudante, fazendo parte da UFPR”, compartilha.

Com o objetivo de se estabilizar na cidade, conseguiu emprego como garçom em um restaurante japonês. Com planos de morar e permanecer no Brasil, o rapaz considerava importante a formação profissional e tinha a intenção de prestar o vestibular da UFPR. “Para eu conseguir me inserir 100%, teria que ter alguma coisa para oferecer à sociedade e que também me proporcionasse um nível de vida relativamente bom. Para conseguir pagar as contas e fazer a vida de um cidadão”. 

Ingresso na UFPR

O venezuelano soube do processo seletivo especial para migrantes e refugiados por meio de um amigo. Estar em condição regular e já ter iniciado curso de educação superior no país de origem foram requisitos que habilitaram Maiker para a seleção, realizada em janeiro de 2019. Ele enviou a documentação, foi aceito, participou das provas de conhecimentos gerais e redação. O resultado foi divulgado no final do mesmo mês e, junto com ele, veio a aprovação.

“As coisas foram acontecendo e estou aqui hoje. Nem eu acreditava que iria conseguir. E consegui na primeira tentativa. Terminei o primeiro semestre de Odontologia, sou parte dessa universidade, super cheio de gratidão pela UFPR, por essa cidade. É só amor”, sorri ao falar.

Por meio do processo seletivo especial, dez novos alunos ingressaram na instituição em 2019. A ação integra as políticas de inclusão e acesso à UFPR por grupos sociais vulneráveis  Além disso, 29 estudantes foram selecionados pelo edital de reingresso – acesso a vagas remanescentes de cursos de graduação voltado a migrantes, refugiados e pessoas com visto humanitário que já iniciaram cursos superiores em seus países de origem.

Apesar de relatar não ter sofrido preconceitos – falar fluentemente o idioma ajudou, na sua opinião -, o jovem acredita que é necessário estimular a conscientização da comunidade universitária. “É preciso conhecer que existe um processo e como funciona. Eu já cheguei a ouvir pessoas do meu curso dizendo, ‘nossa, vêm esses estrangeiros para tirar a vaga de um brasileiro que gostaria de fazer o curso’. Eles esquecem que a gente participou de um processo seletivo também, que não estamos aqui de graça, que não estamos à toa. Tenho amigos que participaram do reingresso e que relataram ter passado por preconceito”.

Para o acadêmico, os alunos refugiados também têm uma voz que precisa ser ouvida. “Eles são obrigados a se espalhar pelo mundo inteiro procurando oportunidades porque já não têm mais em seu país. Eu sou migrante. Eu saí do meu país por escolha. Eu não fui obrigado. Ninguém estava me perseguindo politicamente. Eu não estava correndo risco de morte. Eu poderia ficar lá. O refugiado tem condições e características específicas. É um processo migratório diferente e que tem que ser reconhecido, respeitado”.

Ele acredita que as diferentes perspectivas apresentadas pelos estudantes estrangeiros contribuem para a pluralidade de vozes e de ideias no ambiente universitário. “O estrangeiro nunca vai ser uma carga, pelo contrário. Vai ser um aporte de conhecimentos e uma troca cultural muito boa e proveitosa para todas as pessoas que ficam ao redor dele”, argumenta. 

Amigos pelo caminho

Kake – apelido que recebeu de sua tia Evelin – descreve-se um típico canceriano. “Carinhoso e dramático”, como revela. Curioso, gosta de fotografar, conversar, ouvir histórias e ler sobre temas que geram reflexões sobre a vida. Quando o assunto é música, destaca um dos ritmos preferidos: sertanejo. Reuniões entre amigos estão entre seus programas preferidos.

Espontâneo e eloquente, tem a voz doce, os olhos brilhantes e um coração em que cabem muitos amigos brasileiros. O rapaz fala com alegria de cinco colegas da faculdade com quem se relaciona de forma mais direta. Priscyla Cheremeta, de 34 anos, faz parte do grupo que se formou ao longo do primeiro semestre.

“Tem sido um apoio gigante para mim até agora. Um apoio moral e em diferentes sentidos. Priscyla é a irmã que me presenteou a vida em Curitiba, na Universidade Federal. Foi essa pessoa que conheci no primeiro dia de aula e você não sabe por que, mas precisa conversar com ela, e acaba virando a tua colega de curso, a tua dupla, e você acaba tendo ela mais do que amiga, como família”, conta o jovem,  que completou 25 anos em julho.

Maiker e Priscyla iniciaram, em agosto de 2019, o segundo período do curso de Odontologia.

A curitibana retribui o carinho. “Ele é uma pessoa muito atenciosa e sempre tenta ajudar a todos. É muito criativo e bastante esforçado, apesar das dificuldades que passa. Sempre fala da cultura dele, compara o espanhol com o nosso português. Sem dúvida, conviver com alguém de fora é rico. Ele fala das dificuldades do país dele e de como nós aqui reclamamos de barriga cheia”.

Para Priscyla, promover o acolhimento de estudantes estrangeiros é demonstrar empatia, sentimento que julga essencial para a construção de uma sociedade saudável e equilibrada. “Nossos amigos estrangeiros são pessoas maravilhosas, animadas e de bem com a vida. Na nossa sala eram três. Todos queridos e cheios de coisas para somar. O Maiker é uma simplicidade só, super parceiro”, diz. Síria e Congo são os países de origem dos colegas que estudam com a dupla.

As dificuldades que o amigo enfrentou e ainda enfrenta com a família na Venezuela a fazem refletir que há um jeito para tudo. Para a estudante, o convívio com o colega venezuelano a ajuda a valorizar as pequenas coisas. “Esse garoto é exemplo de alguém que realmente vai atrás do que quer. Ele sempre amou a Odontologia, quis fazer desde o princípio. Ele não desiste fácil e ‘é certeza’ que será um excelente profissional”.

“Menos fronteiras. Mais descobertas”. O slogan da campanha da UFPR de acolhimento aos estudantes estrangeiros, lançada em agosto de 2019, é vivido pela dupla no dia a dia na Universidade.

Priscyla avalia que ampliou sua visão sobre a realidade política e o funcionamento das universidades na Venezuela. Além disso, passou a conhecer as belezas naturais do país vizinho – algo que Maiker adora compartilhar com os colegas. Nas rodas de intervalo, os amigos brasileiros conversam com estudantes estrangeiros sobre religião, sociedade e outros temas polêmicos. Na opinião da jovem, algo rico e que rende bons debates, com pontos de vista diferentes. “O Maiker não é diferente de nenhum de nós. Acho que a maior contribuição dele para nosso grupo é dar, sempre que preciso, um ‘tapinha de luva’ nos amigos que reclamam por nada, sabe? Tipo um acorda pra vida, vai à luta e não reclama”, conclui.

Acolhimento e gratidão

O convite para participar do curso de acolhimento Linguístico e Acadêmico foi recebido por e-mail após a aprovação. Além das sete matérias do primeiro semestre do curso de Odonto, Maiker cursou uma disciplina de Português Acadêmico ministrada a alunos estrangeiros. Por meio do Programa Política Migratória e Universidade Brasileira (Pmub), participou também de outras ações com foco em promover sua adaptação. Entre elas, uma visita ao Laboratório de Informática para aprender a acessar o sistema acadêmico.

Maiker conta que se sentiu acolhido pelos professores no início das atividades na UFPR. “Gostaria de fazer menção a Giovana Pecharki, professora de Introdução à Saúde Coletiva, que sempre ficava bem atenta com a gente, perguntava se estava conseguindo acompanhar o curso; e ao professor Vinícius Bolognesi, tutor que vai me acompanhar ao longo dos nove períodos do curso. Ele também demonstrou bastante interesse na minha história e em oferecer ferramentas para que o desenvolvimento do curso seja tranquilo e cheio de sucesso”.

Já habituado à rotina universitária, sente que está em casa. “A UFPR é minha casa, é o que eu gosto, é um espaço que gera paz em mim. Eu me sinto bem melhor na universidade, porque em casa bate a saudade, você fica sozinho, fica pensando muita coisa. Você tem tanta coisa pra fazer, tantas coisas pra descobrir, tantas pessoas pra conhecer que prefiro mesmo ficar aqui”, reforça.

Quando recebeu a notícia de que havia sido selecionado, o rapaz se questionou se conseguiria se manter financeiramente, por se tratar de um curso integral. O suporte institucional que relata ter recebido trouxe resposta à sua pergunta. “A pró-reitora da Prae me falou para ficar tranquilo que a UFPR iria proporcionar ferramentas econômicas. Falou das bolsas que hoje tenho acesso para conseguir acompanhar o curso e me manter durante esse período”, relembra. 

Coube a Maiker o comprometimento pessoal de se dedicar aos estudos e obter boas notas, requisito para continuar a ter acesso ao benefício. “A minha vida inteira vou ser grato por isso. Apoio moral da Universidade é super importante”.

Curso dos sonhos

“Hoje eu faço o curso que eu quero, meio que na teimosia mesmo, porque a realidade é que cursar Odontologia é caro na Venezuela, no Brasil e em qualquer parte do mundo. Muitas pessoas falam pra mim, ‘você é maluco, você tem oportunidade de escolher o curso e vai escolher Odonto, o curso mais caro?’. É o que eu gosto. Eu já cheguei até aqui, por que não iria conseguir o resto?”, considera.

Por conta do curso integral, dedica-se inteiramente aos estudos. O estudante recebe auxílio moradia, com o qual paga o aluguel; auxílio permanência, para suas despesas; e auxílio refeição – é isento nos Restaurantes Universitários (RUs) para as três refeições oferecidas por dia. “Não dá para trabalhar. Gostaria de estar trabalhando. Dependo hoje das bolsas da Universidade”. 

Desde a infância, sente a vocação para a área. “Sempre quis fornecer algum serviço de saúde para as pessoas. Acho que isso é muito importante e é a melhor forma que a gente tem para contribuir na sociedade”. Maiker tem simpatia por duas especialidades, Periodontia e Implantodontia. Apaixonado pelo curso, reflete a respeito da carência de serviços odontológicos. A disciplina “Introdução à Saúde Coletiva” chamou a atenção e, como diz, deixou uma sementinha em seu coração. “É bem mais além do que só fazer a parte prática na boca do paciente. É desenhar estratégias de saúde bucal para as pessoas”, detalha entusiasmado.

O semblante muda ao falar da experiência que viveu em uma escola, no final do primeiro semestre do curso. “É muito triste você olhar na boca do paciente, na boca das crianças de 9, 10 anos que já têm dentes perdidos, super cariados. A gente começa a pensar: o que está faltando no Brasil? Porque é um país muito rico, mas o que está acontecendo para haver esses índices de cárie na sociedade?”, indaga.

Distância da família

O acadêmico acredita que um dos propósitos de estar no Brasil é ajudar sua família. “Para eu conseguir ajudá-los do jeito que eu quero, eu tenho que estar muito bem antes. Estou construindo um futuro não só pra mim, mas também para eles”. Todos os dias, conversa com familiares, e as notícias não são boas. “É uma situação constrangedora. Há pessoas comendo do lixo, sem acesso a um sistema de saúde decente. Não há remédios, crianças estão morrendo. Há uma situação muito triste com energia lá também. Eles passam três, quatro dias sem energia elétrica em casa”, lamenta.

Os pais se separaram quando Maiker tinha seis anos. Os três irmãos, um mais velho e dois mais novos, moram na Venezuela com a mãe e o padrasto, que considera seu pai. Os parentes não pensam em mudar de país. A mãe incentiva o rapaz em seus projetos. “Ela diz, ‘você fica lá, tenta fazer uma vida, tenta construir uma vida, porque aqui as oportunidades são bem reduzidas’”, conta.

No Brasil, fora da zona de conforto, avalia: tudo está valendo muito a pena, apesar da falta que sente dos familiares. “É claro que a situação se torna bem complexa. Você está longe, sozinho, sente muita saudade. Há poucos minutos estava conversando com minha mãe, ela mandou um vídeo do meu irmão de 11 anos se apresentando na escola dele e eu só chorei, porque faz quase três anos que não os vejo”.

Boas lembranças e novas experiências

Um povo alegre, que gosta de festas. É assim que descreve as pessoas do seu país. “Elas são maravilhosas, sempre estão contentes. Desde pequenininho, sempre morei na mesma região. Eu lembro até do senhor que vende jornal na esquina de casa; da mulher que vendia o café da manhã que eu tomava todos os dias antes de ir para a escola. Venezuela é minha família, é minha casa, é meu porto seguro”. A beleza das praias é motivo de orgulho. “Elas fazem parte do Caribe!”, exclama.

O tempero da comida da mãe é uma de suas saudades. No Brasil, gosta de se deliciar com churrasco, polenta, farofa e frango frito. “Na culinária venezuelana, temos influência da culinária mediterrânea, uma grande influência espanhola. Toda vez que vou fazer alguma comida na casa dos meus amigos, eles acham engraçado que eu quero ‘tacar’ pimentão em tudo. É que pra mim é isso: tem que ter alho, pimentão e cebola”, brinca.

Maiker é só elogios quando o assunto é Curitiba. “É uma cidade que eu amo. Não consigo me enxergar morando fora daqui. Gosto do clima, das pessoas, do charme que tem a cidade. Por ter segurança boa. O curitibano sempre reclama da segurança, mas eu venho da Venezuela, então… eu gosto de tudo”, resume. Há três anos no Brasil, o aluno fala português fluentemente e acredita que o contato com as pessoas, o gosto pela língua e o volume de leituras auxiliaram na aprendizagem autodidata. “De boa”, “treta” e “tipo” são gírias que aprendeu nesse período, e que utilizou durante a entrevista.

Ao longo da conversa, duas palavras escapuliram em espanhol: desarollo, ao falar do desenvolvimento do curso; desplazamiento, ao abordar o deslocamento dos refugiados. “Cheguei e não conhecia a língua, nunca tinha estudado português. Quando vim para o Brasil, tinha três referências: carnaval, futebol e samba”, recorda. A motivação para aprender o idioma foi reforçada pelo desconforto que sentia com comentários sobre sua forma de falar diferente.

Planos para o futuro

Dos medos e desafios que encontrou pelo caminho, extrai aprendizados. De acordo com o estudante, uma descoberta pessoal – a de que é capaz de conseguir tudo o que quer – floresceu ao longo do primeiro semestre na UFPR. “Acabei descobrindo que, realmente, eu sou bem mais forte do que acredito. Eu consegui até tirar notas melhores do que brasileiros, consegui acompanhar o curso bem tranquilo. Não reprovei em nenhuma matéria”, comemora.

Quando o assunto são os objetivos para os próximos anos, tem a resposta na ponta da língua: continuar e curso com tranquilidade e, futuramente, exercer a profissão. A expectativa é de que a família possa vir ao Brasil para comemorar sua formatura. Cerca de 7 mil reais é o valor aproximado das passagens de ida e volta, contabiliza Maiker.

Um curso de mestrado está nos planos. “Acho que a gente tem que compartilhar o conhecimento que a gente tem, não é só aprender para ficar com a gente. Temos que espalhar um pouco desse conhecimento e, se através do conhecimento eu puder ajudar outras pessoas, eu farei”. Atuar como professor universitário ou em projetos que levem informações às pessoas são opções que vislumbra. “Gostaria muito de continuar trabalhando com projeto de migração para fornecer informação para outros migrantes. Mostrar também que recomeços são possíveis”.

Ao lembrar da criança que foi, a personalidade forte é motivo de orgulho. “Eu nunca me conformava com nada, eu sempre queria saber o porquê de tudo. É engraçado, mas acho que todos nós sabemos, desde criança, até onde a gente vai, e temos uma projeção do futuro. Eu sempre soube que eu iria morar fora”. Se ele se arrepende de algo? “Se hoje voltasse para o passado, eu falaria para mim: Maiker, continua desse jeito porque isso vai te levar longe”, finaliza o futuro dentista.

A história de Maiker é a primeira de uma série de três perfis de estudantes da UFPR. A ação integra a campanha “Menos Fronteiras. Mais Descobertas”, que visa à conscientização da comunidade acadêmica para o acolhimento dos alunos estrangeiros. Acompanhe no Portal da UFPR e no página da Universidade no Facebook.