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Ciência e Tecnologia

Ritual de acasalamento atípico de pássaro da Mata Atlântica é registrado por cientistas da UFPR

Superintendência de Comunicação Social     22 de julho de 2019 - 8h52

Em meio à Mata Atlântica do Paraná, uma fêmea do pássaro tangará distingue o canto de um grupo de machos da sua espécie. Ela voa em direção à cantoria e pousa no poleiro dos machos, que executam uma apresentação em grupo, a “dança do tangará”. Se tudo der certo, o macho alfa do grupo vai ganhar a permissão da fêmea para copularem — os demais estão ali apenas para ajudar na conquista. Não é algo comum na natureza, já que geralmente o cortejo é feito por apenas um macho, em interesse próprio.

Os machos podem repetir a mesma dança, para a mesma fêmea, uma vez depois da outra. Às vezes, após a apresentação, a fêmea não emite nenhum sinal — nem sim, nem não. Então, o grupo pode recomeçar o carrossel, em uma nova tentativa de impressioná-la.

O comportamento do tangará (cujo canto e dança são tão famosos nas matas brasileiras que o fazem ser conhecido também por “cantador” ou “fandangueiro”) foi registrado em fotos e vídeo por pesquisadores do Laboratório de Ecologia Comportamental e Ornitologia (Leco) da UFPR, ligado ao Setor de Ciências Biológicas.

As gravações ocorreram na Reserva Natural Salto Morato, em Guaraqueçaba (PR) e nos Mananciais da Serra, em Piraquara, entre 2016 e 2018. Em artigos publicados neste ano nos periódicos Journal of Ornithology e Bioacoustics , os pesquisadores descrevem as descobertas em detalhes (acesse aqui e aqui).

Descobertas

O grupo é coordenado pela professora Lilian Manica, que atua no Departamento de Zoologia da UFPR desde 2014, e uma de suas metas é buscar entender por que as aves têm esses comportamentos complexos. Entre as descobertas registradas pelo grupo estão, por exemplo, o fato de o pássaro não produzir sons apenas pelo bico durante a dança, mas também pelo bater das asas. Os pesquisadores observaram ainda que os machos procuram sincronizar seus cantos durante o coro.

Um dos aspectos sobre o qual os cientistas estão se debruçando é a a evidência de os machos dançam em ritmos diferentes, o que pode ser um indicativo de como se dá a escolha da fêmea. “Pode ser que a fêmea prefira os machos mais rápidos”, afirma Lilian.

Como espécie característica de um bioma que já perdeu quase 90% da sua floresta nativa para o desmatamento, o tangará (Chiroxiphia caudata) nunca teve tão pouco espaço para desempenhar sua dança. Nesse sentido, as pesquisas do Leco resultam em subsídios para políticas de preservação da biodiversidade da Mata Atlântica.

Além de representar essa diversidade, o tangará tem atuação no ciclo da flora. “É uma espécie preferencialmente frugívora, portanto importante para a dispersão de sementes. Ao se alimentar das frutas, nem sempre o tangará destrói as sementes, o que faz com que elas saiam pelo seu sistema digestório e encontrem o solo em locais distantes de onde estavam”, explica a professora.

Observação

Para acompanhar os pássaros, a equipe de pesquisadores do Leco precisa seguir uma rotina de cuidado e paciência. O modo de trabalho dos cientistas é tão específico que a equipe ajudou nas filmagens a produção da série documental britânica “Nosso Planeta”, que foi filmada em mais de 50 países e estreou em abril no serviço de streaming Netflix. O primeiro episódio da série traz a dança do tangará (veja o trailer aqui).

“A gente costuma dizer que mora seis meses em campo e outros seis meses na cidade. Gravamos muitas horas para ter dados das exibições”, explica o doutorando em Zoologia da UFPR Pedro Ribeiro.

A mestre em Ecologia e Conservação Laura Schaedler relata algumas técnicas para não atrapalhar a apresentação e, assim, poder medir a vocalização das aves. “Temos que acordar antes deles, quando ainda está escuro, para montar os equipamentos. Se chegar antes, é como se nada estivesse acontecendo. Você se insere, se camufla ao ambiente, para dificultar que eles nos vejam”.

Nessas observações, os pesquisadores conseguem obter alguns dados, como o tempo da apresentação, se há a presença de fêmeas e a medida dos saltos que o pássaro dá durante a dança da corte. “O objetivo geral é entender quais mecanismos levam as aves a ter esse comportamento, e entender, por exemplo, quais movimentos são preferidos pela fêmea”, explica Lilian.

Porém, Laura ressalta que alguns dos machos do grupo podem passar a vida inteira na posição subalterna, sem nunca conseguir ocupar o papel principal. “A maior parte dos indivíduos copula muito pouco ou quase nunca. Poucos indivíduos conquistam a maior parte das fêmeas”.

Pedro explica que as pesquisas também têm o objetivo de promover a conservação da espécie. “Se a gente não conhece, a gente não consegue conservar. Como a Mata Atlântica é um bioma que está sendo destruído, poder falar sobre conservação, mostrando coisas que podem ter nesse ambiente, é interessante, se torna mais fácil para a população querer conservar aquele lugar”, enfatiza o pesquisador. O Tangará, objeto de estudos da equipe,é encontrado principalmente na nossa Mata Atlântica e na de alguns trechos da Argentina.

Os pesquisadores indicam que as pesquisas sobre o comportamento dos pássaros podem balizar conhecimentos futuros sobre outros animais, inclusive o homem. Laura dá um exemplo: “Podemos relacionar, com o tempo, estudos sobre a evolução de cantos e danças em aves com a evolução destes comportamentos em seres humanos. Porém, há todo um processo para se chegar a esse resultado”, finaliza.

Acesse as publicações científicas de pesquisadores do Leco/UFPR neste link

Por João Cubas, da Aspec/UFPR


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