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Ciência e Tecnologia

Cientistas da UFPR testam população de penitenciária para Covid-19; ideia é estudar dinâmica do “efeito-ilha”

Camille Bropp     10 de agosto de 2020 - 8h03

Devido à rotatividade nas unidades prisionais e às aglomerações forçadas, a população carcerária está sujeita a um “cenário complexo” frente à pandemia de Covid-19, segundo manual do Ministério da Saúde divulgado em abril. Isso se dá pelo risco representado pelo chamado efeito-ilha, decorrente do isolamento: ocorre quando agentes infecciosos chegam a uma comunidade confinada, onde há muita interação entre os habitantes, e por isso a dinâmica de contágio é acelerada, tornando todos suscetíveis. Uma parceria para pesquisa entre a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e governo do Paraná busca monitorar a situação da Penitenciária Feminina de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, para entender mais sobre como o novo coronavírus atua nesse contexto e como ele pode ser prevenido.

Com esses objetivos, pesquisadores já testaram 57 pessoas da unidade, entre elas 36 mulheres em privação de liberdade e 21 agentes prisionais e demais servidores. Os últimos exames foram concluídos nesta sexta-feira (7) e atestaram negativo para agentes e servidores. Entre as presas, cinco apresentaram resultado positivo com baixa carga viral — os testes serão refeitos em duas delas nesta semana para confirmação, mas estão sendo tratados como positivos por precaução. Por terem ingressado na unidade recentemente, essas presas estavam separadas das outras. A precaução ajudou a reduzir o número de testes necessários nessa situação, uma vez que as presas tiveram contato com poucas pessoas.

Para amostragem, foram selecionadas mulheres em privação de liberdade que fazem serviços na Penitenciária de Piraquara que pedem interação. Foto: Ari Dias/AEN/Divulgação, 25/7/2020

“Isso mostra a importância do isolamento e da prevenção na entrada com diagnóstico rápido”, explica o professor Alexander Biondo, do Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular (PGBiocel) da UFPR. Ele orienta no programa uma pesquisa que trata do mapeamento epidemiológico da Covid-19 na penitenciária. Biondo também já estudou o efeito-ilha no contexto de outras zoonoses (doenças transmitidas entre animais e pessoas), entre as quais a toxoplasmose e a leptospirose, nas ilhas paranaenses, em parceria com pesquisadores da PUC-PR.

A fim de testar uma nova hipótese, derivada da aplicação do efeito-ilha, os pesquisadores se baseiam na chamada Regra de Foster, princípio que propõe que todos os grupos de seres de uma localidade são afetados pelo isolamento, o que inclui pessoas e microrganismos. Na pesquisa atual, os pesquisadores querem saber se vírus, bactérias e protozoários, que são os microrganismos causadores das zoonoses, muitos de transmissão direta (por contato), a reprodução e transmissão são favorecidas pela interação diária entre todos os seres vivos e meio ambiente (Saúde Única ou Iniciativa One Health). “A Covid-19 teve origem zoonótica, apesar de a característica da pandemia ser da transmissão de pessoa a pessoa. Se ela permanece zoonose ainda não se pode afirmar, mas pessoas podem infectar gatos, por exemplo”, afirma Biondo.

Alto contágio

Durante a pandemia de Covid-19, situações assim foram verificadas, por exemplo, em porta-aviões (houve mortes entre militares nos Estados Unidos e na França), cruzeiros turísticos (caso do navio Diamond Princess, interceptado no mar japonês em fevereiro, que registrou mais de 3 mil infectados, dos quais três mortos) e até em cidades interioranas. Nessas situações, o próprio isolamento dos conviventes no ambiente pode ter acelerado a contaminação entre eles, já que a Covid-19 tem a particularidade de possuir fases assintomáticas. “A quarentena do cruzeiro levou à exacerbação de casos pela facilitação de transmissão”, avalia Biondo.

Enquanto a equipe do PGBiocel ficou responsável por coletar as amostras na penitenciária, as análises pelo método RT-qPCR, que vasculha o material genético do muso nasofaríngeo em busca de traços do vírus, ficaram a cargo de cientistas de laboratórios liderados pelo Laboratório de Imunogenética e Histocompatibilidade (Ligh), do Setor de Ciências Biológicas da UFPR. Os kits de diagnóstico foram cedidos pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP). A parceria foi similar à firmada com a Prefeitura de Curitiba para a análise de felinos no Zoológico Municipal, dessa vez no âmbito de um estudo das formas de transmissão interespécies do vírus.

O critério para selecionar as pessoas testadas na penitenciária teve relação com o risco de exposição. Assim, foram escolhidas presas que exercem serviços em que é preciso lidar com público grande na unidade, como de refeitório, limpeza e de ambulatório. Essa também é a situação do trabalho dos agentes prisionais, que escoltam quem ingressa na unidade e acompanham o dia a dia das detentas. Essa composição heterogênea dos conviventes na penitenciária representa um desafio para a administração dos locais, porque a forma de contenção da doença é testar a população e isolar os infectados com supervisão médica.

“A indicação para Covid-19 é isolamento, não tem outra opção. É teste e isolamento monitorado por médicos, até que o resultado seja negativo. São pelo menos dois testes consecutivos, a cada semana ou a cada 15 dias, para liberar o paciente”, explica o professor Emanuel Maltempi de Souza, que coordena um pool de laboratórios do Setor de Ciências Biológicas da UFPR que realizou os exames e preside a comissão de enfrentamento ao vírus na universidade.

Epidemiologia

A pesquisa do PGBiocel tem o objetivo de analisar a exposição de presas e agentes ao novo coronavírus. “Principalmente, com relação às presas, que são classificadas como população de risco, frente a realidade de privação de movimentos e aglomeração involuntária”, diz o mestrando Caio Fábio dos Santos Gonçalves. Com isso, o estudo fará um levantamento com bases analísticas, fundamentado em um questionário para medir comportamentos e nas análises das amostras.

Os testes na penitenciária foram realizados a pedido da direção da unidade, que também solicitou que a UFPR teste periodicamente as mulheres que chegam à unidade para cumprir pena, o que ocorre quinzenalmente. A direção informa ainda que está monitorando o caso das presas que atestaram positivo para o vírus no exame PCR. Segundo o departamento, foram feitos outros testes rápidos, alguns deles com resultado negativo. Os testes rápidos medem a presença de anticorpos no organismos, por isso há a possibilidade de um resultado negativo significar que a infecção se encontra em estágio inicial.

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