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Extensão e Cultura

Araucária, o baobá dos povos do sul do Brasil

Aline Nunes     24 de junho de 2021 - 10h15

“A araucária é uma porta de acesso, uma janela para o mundo de povos originários, com seus saberes, seus conhecimentos, seus modos de ser e existir”, afirma o professor Ricardo Cid. Foto: Diego Ianoski.

Para quem mora no sul do Brasil, o mês de abril costuma trazer a queda da temperatura e o início da safra do pinhão. A semente da araucária – a árvore símbolo do estado do Paraná – é alimento típico dos meses de inverno na região. É o sabor do frio e das raízes dos que habitam o planalto sul brasileiro. A conexão entre homem, araucária e pinhão nestas terras existe há quatro mil anos. A história começa com os povos originários e seus saberes ancestrais e continua a despeito do desmatamento agressivo, que ameaça de extinção a árvore mãe do pinhão.

“A araucária é uma porta de acesso, uma janela para o mundo de povos originários, com seus saberes, seus conhecimentos, seus modos de ser e existir. A araucária nos abre essa porta para encontrarmos um outro mundo, aqui no planalto sul. Através da araucária podemos pensar esse mundo indígena, esse mundo originário”, revela o professor Ricardo Cid Fernandes, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná.

Floresta antropogênica

Estudos arqueológicos apontam relação entre população indígena e distribuição das araucárias. Foto: Diego Ianoski

Os ancestrais dos povos Kaingang e Xokleng habitavam o planalto sul brasileiro há cerca de quatro mil anos. “Nos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná tivemos o início de um período mais úmido começando por volta de quatro mil e quinhentos anos atrás. Os dados arqueológicos indicam que esta mudança ambiental do Holoceno tardio é associada a uma ocupação humana mais intensa nas terras altas do Brasil meridional, conforme é evidenciado pelo aumento dos sítios arqueológicos associados aos Proto-Jê (Tradição Taquara- Itararé). Esse aumento de aldeias parece ser relacionado à exploração de um recurso recentemente disponível, abundante e rico: sementes de Araucária”, explica Sady Pereira do Carmo Júnior, arqueólogo do Museu de Arqueologia e Etonologia da UFPR (MAE).

As araucárias foram determinantes para a sobrevivência dos grupos. Em contrapartida, estes povos contribuíram para a disseminação da floresta pelo território que ocupavam. É o que revelam teorias construídas nos últimos 20 anos. “Estudos arqueológicos mostram a relação direta desta população indígena com a distribuição de Mata de Araucária. A construção de paisagens ou a construção de florestas antropogênicas não é uma exclusividade dos índios do sul do Brasil. Sabe-se que em muitos lugares grupos indígenas, grupos originários, são construtores de paisagem. Isso se aplica à Amazônia, às paisagens do cerrado, mesmo áreas do litoral”, afirma o professor Ricardo Cid.

O mapa da esquerda mostra como seria a Floresta de Araucária sem a intervenção dos povos originários. A imagem da direita mostra como ficou a distribuição com a intervenção humana. Fonte da imagem: ROBINSON et alli, 2018.

“Apesar do aumento da umidade ter favorecido uma dispersão das araucárias, sabemos que Araucaria angustifolia necessita de um agente dispersor, sejam aves, animais ou as populações humanas. A contribuição da ação dos grupos da tradição Taquara-Itararé na dispersão da espécie, pode ser relacionada pela coleta do pinhão, manejo e o possível plantio da espécie”, corrobora Sady.

Fãg, o centro da vida

A relação dos povos indígenas da família Jê com as araucárias não é apenas ecológica. No plano simbólico, a araucária, o fãg, está no centro da vida ritual e cerimonial kaingang. A relação terrena e mágica com a árvore é concretizada no Ritual do Kiki, realizado tradicionalmente na época da colheita do pinhão. O ritual foi registrado por antropólogos nos séculos XIX e XX.

Até os anos 1940 o Ritual do Kiki foi registrado em aldeias nos estados do Sul, mas – condenado pelo Serviço de Proteção ao Índio – foi abandonado na maioria das regiões. A ilustração, feita em 1938, mostra uma releitura do ritual e demonstra a relação entre indígenas, animais e a araucária. Ilustração: Gene Woiski (1938), Acervo do Museu Paranaense.

O Kiki era um ritual de culto aos mortos. Uma araucária era selecionada pelos rezadores, que pediam autorização para o corte. A árvore no chão era cavada para se transformar em um cocho, que era preenchido com mel e água. Durante um ou dois meses o grupo permanecia naquele local, aguardando a fermentação do hidromel.

“Enquanto isso acontece, eles fazem rezas, cantos e se distribuem ao redor de fogueiras feitas com o nó de pinho. Eles fazem pinturas corporais a partir do carvão gerado na cinza do nó de pinho. São repetidas ações que demonstram essa conexão íntima entre o kaingang, o seu culto aos mortos e esse objeto: a araucária. Esse pinheiro, além de servir de cocho, de servir para fazer fogueira e carvão, tem uma propriedade especial que contém as duas metades que formam a sociedade kaingang”, ensina o professor Ricardo.

Atualmente o Kiki é realizado apenas na região de Chapecó, em Santa Catarina, preservando e revisitando traços característicos do ritual ancestral.

Kaimé e Kairu

A sociedade kaingang concebe o mundo dividido a partir de dois heróis mitológicos: Kamé e Kairu. O dualismo é uma característica de muitas sociedades, mas por aqui – estranhamente – conhece-se mais o dualismo yin e yang da filosofia chinesa do que a força de Kamé e Kairu dos povos originários. A araucária é o ser que tem a propriedade de fundir essas duas dimensões da existência, com papel central na vida ritual.

“A gente tem a araucária como um centro da vida ritual dos povos indígenas caingangues no sul do Brasil”, afirma Ricardo Cid. Foto: Aline Nunes/Sucom UFPR.

“A araucária, neste mundo indígena é um centro da vida ritual extremamente importante. Talvez como o baobá é para os povos africanos. O carvalho para os europeus, a Samaúma para os povos da Amazônia. A gente tem a araucária como um centro da vida ritual dos povos indígenas caingangues no sul do Brasil”, afirma o professor Ricardo Cid.

Destruição e salvação

Se por um lado os povos ancestrais adensaram a Floresta de Araucária, por outro o colonizador europeu e os homens modernos e contemporâneos contribuíram para a sua quase destruição. De acordo com o professor Ricardo Cid, “no começo do século XX o Governo Estadual do Paraná demarcou várias terras indígenas. Já nos anos 50, 60 e 70 foi implantado o regime das serrarias no interior delas. As araucárias sofreram enormemente. Foram cortadas milhares de araucárias das terras indígenas. Em Chapecó, a contabilidade do Sistema de Proteção ao Índio (SPI) deu conta de 80 mil pinheiros extraídos daquela terra. A araucária foi alvo da indústria madeireira ilegal que se estabeleceu no interior das terras indígenas”.

O professor sênior do Departamento de Fitotecnia e Fitossanidade da UFPR, Flavio Zanetti, dedicou 36 anos da vida acadêmica e pessoal a mudar esta história. Zanetti percebeu que no mundo do capital, era preciso tornar a Araucaria angustifolia viável economicamente para garantir a sobrevivência da espécie. A meta era tornar a araucária “mais rentável em pé do que deitada”.

“Hoje portanto é possível formar pomares de araucária para produção de pinhões e ao longo do tempo ganhar mais do que o plantio de soja”, diz o professor Zanetti. Foto: Marcos Solivan/Sucom/UFPR.

Foi assim que o professor, e o grupo de estudo liderado por ele, criou um enxerto capaz de produzir pinhões em apenas 6 anos. O desenvolvimento foi realizado em parceria com a Embrapa Florestas e com o pesquisador Ivar Wendling. As araucárias na mata levam de 15 a 20 anos para iniciar a produção. “A enxertia e formação de mudas enxertadas de araucária foram os maiores avanços que nós conseguimos no nosso grupo de pesquisa. Nós atingimos um grande objetivo: tornar a araucária altamente econômica na produção de pinhões. Hoje, portanto, é possível formar pomares de araucária para produção de pinhões e ao longo do tempo ganhar mais do que o plantio de soja e bem mais, duas a três vezes mais, produzindo um alimento rico, sem agrotóxico e preservando essa espécie de tanta importância”, comemora Zanetti.

Alimento

“Grande parte dos alimentos que temos na mesa, provém do manejo ambiental indígena, como a mandioca, o milho, a abóbora, o inhame, a pimenta e até o nosso pinhão”, diz o arqueólogo Sady, do MAE. O professor Ricardo Cid lembra o papel essencial do pinhão para as populações que habitavam o planalto sul. “É um alimento que tem a capacidade de ser preservado por longos períodos e a gente sabe que eles cozinhavam o pinhão, aferventavam e assavam o pinhão. Tinham uma série de preparos”.

O pinhão – a semente do fruto da araucária, a pinha – era parte importante da dieta dos povos indígenas desta região. “Por isso, para eles, a araucária era uma planta sagrada. É sagrada, pois se pensarmos em todo o planalto sul brasileiro – toda a área de planalto do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, montanhas em São Paulo e em Minas Gerais – onde há araucária, praticamente não há outra fruta no período de inverno. O pinhão era a garantia de vida para eles e consideravam a Araucaria angustifólia, o nosso pinheiro, uma planta sagrada”, revela o professor Zanetti.

O pinhão é fonte de gorduras monoinsaturadas, de cálcio, de magnésio e vitaminas. Foto: Dan Trix/Pixabay.

Nutrição

Do ponto de vista nutricional, o pinhão é fonte de gorduras monoinsaturadas, de cálcio, de magnésio e de outros minerais e vitaminas. É uma importante fonte de energia, mas com menor quantidade de calorias do que o coco e as amêndoas, por exemplo. Por outro lado, tem mais fibras do que o gergelim, a castanha do Pará e a de caju, perdendo somente para a linhaça. “O alto teor de fibras vegetais aumenta a saciedade, diminui a absorção de colesterol no intestino, melhora o trânsito intestinal e favorece uma microbiota – ambiente constituído pelas nossas bactérias intestinais – mais saudável”, explica Regina Maria Vilela, professora do Departamento de Nutrição da UFPR.

Raízes

Nesta quinta-feira, dia 24 de junho, é comemorado o Dia Nacional da Araucária. Atualmente resta no Paraná apenas cerca de 3% da extensão original da Floresta de Araucárias. A espécie corre risco de extinção, de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza e com a Relação das Espécies Ameaçadas de Extinção no Paraná, do Instituto Água e Terra (IAT). As araucárias e seus pinhões permitiram a ocupação humana intensa na região séculos antes da chegada dos colonizadores europeus. Garantir a existência destas árvores é manter viva a tradição, as raízes e o futuro desta terra.

 


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