Universidade Federal do Paraná

Menu

Ensino e Educação

Aluna de Publicidade se destaca como escritora, ilustradora e pesquisadora ao produzir livro infantil que aborda o feminismo

Jéssica Tokarski     28 de julho de 2017 - 9h28

A turma de Publicidade e Propaganda que se forma este ano na UFPR revelou um talento especial: Isabelle Silva dos Santos apresentou como trabalho de conclusão de curso um livro infantil escrito e ilustrado por ela, a partir de uma ampla pesquisa teórica e de entrevistas e atividades com crianças. A obra, intitulada “Vivi Lobo e o quarto mágico”, propõe uma ruptura com padrões comumente associados a meninos e meninas, falando de liberdade, protagonismo e empoderamento infantil.

Foto: Arquivo Pessoal

Vivi Lobo é mais do que a protagonista de uma história que leva a repensar de forma crítica as representações femininas na literatura infantil. A personagem é o resultado de muita pesquisa e trabalho de campo e é também a representação da própria autora e de sua evolução pessoal, suas superações e seu processo de autoconhecimento e autoaceitação. Além disso, ela e sua história simbolizam a luta de muitas mulheres que não se conformam com alguma característica inerente a suas vidas ou à sua condição de gênero.

Isabelle conta que o processo de construção do trabalho começou com uma profunda pesquisa teórica e com a busca por autores que tratam do conceito de representação social, papéis de gênero e questões que envolvem a infância e a literatura para esse público. Após consolidar a parte teórica, a estudante mergulhou no mundo sobre o qual estava querendo refletir e procurou dar voz às crianças: “Afinal, se eu estava pensando em fazer um livro infantil, nada mais natural do que perguntar para as próprias crianças sobre seus gostos e pensamentos e entender a realidade infantil – de acordo com o recorte social pretendido – e como elas representam a si e ao outro”.

A estudante conta que promoveu uma atividade lúdica com crianças, às quais propôs desenhar e criar personagens de ambos os gêneros. Também entrevistou e realizou um grupo focal com 24 crianças da Escola Anjo da Guarda, em Curitiba. “Todo o material coletado, entre vídeos, entrevistas e desenhos, embasou direta e indiretamente a criação do livro, a escolha do enredo, a narrativa e os personagens”, explica Isabelle.

De acordo com o professor Fábio Hansen,  orientador do TCC da estudante, o contato com as crianças foi extremamente enriquecedor para ambos. “Nessa fase da pesquisa surgiram as principais descobertas e diversidade de pontos de vista. Foi dando voz às crianças que elas alimentaram com conteúdo a criação do livro infantil ilustrado”, relata Hansen, fazendo questão de destacar não só o produto final do trabalho, isto é, o livro, como todo o processo de pesquisa e de aplicação dos conhecimentos no desenvolvimento desse projeto.

Isabelle se propôs a realizar esta obra visando aproveitar sua posição de mulher, aluna de comunicação, ilustradora e fã de literatura para ajudar a ampliar o debate sobre as questões de gênero e temas sociais relevantes dentro e fora da academia. “Vivi Lobo e o Quarto Mágico” se concretizou a partir da pesquisa realizada pela estudante, que investigou a representação feminina infantil nas narrativas ficcionais e de comunicação consumidas por adultos e crianças.

O enredo

Foto: Thalita Zukeram

Na história, Vivi Lobo é uma menina divertida e corajosa, dona de muitos cachos. Ao mudar para uma casa nova com sua família e finalmente ter um teto todo seu, percebe que seu quarto tem poderes mágicos. Ela pode viajar no espaço-tempo. Assim começa sua aventura, conhecendo diversas garotas inspiradoras ao redor do mundo, do presente e do passado.

Ao viver muitas surpresas em suas andanças, descobre o poder da escrita e da amizade, enfrentando, assim, o seu maior conflito interno: não gostar do próprio nome. O principal intuito é diversificar e pluralizar as possibilidades do ”ser” mulher, suas características, profissões, ambições e, dessa forma, questionar algumas coisas que são tidas exclusivamente como masculinas. “O livro tem por objetivo maior posicionar a mulher como narradora, criadora de sentidos, dona de sua própria história, liberdade e voz”, conta a autora.

A inspiração para a trama veio de experiências reais conhecidas e vivenciadas por Isabelle. “É uma história sobre muitas histórias. Histórias de mulheres com as quais convivi, experiências com as crianças durante as entrevistas e atividades, minhas histórias e também de outras que li por aí”, explica. A obra também faz homenagens a mulheres que tiveram papéis importantes no contexto histórico mundial e também no feminismo.

A personagem principal, Vírginia Lobo, é uma referência à escritora inglesa Virginia Woolf, que lutou pelo lugar feminino na literatura, defendendo no livro ”Um Teto Todo Seu” que todas deveriam ter um espaço próprio e as condições necessárias para serem escritoras e protagonistas de suas narrativas. “O quarto mágico de Vivi, para além de um quarto mágico, representa ludicamente um estado, uma posição enquanto mulher produtora de sentido, de conhecimento e de sua própria emancipação. Sendo também um incentivo para que mais meninas se aventurem a escrever sobre suas vivências”, diz a estudante.

Protagonismo feminino

Isabelle conta que aborda o feminismo e a luta das mulheres de forma sutil e lúdica ao longo do enredo, pois sua ideia não era produzir uma cartilha sobre gênero, mas sim um produto adequado ao gênero literário para crianças. “Falamos sobre feminismo quando o próprio lugar de fala da personagem principal é marcado por uma protagonista menina que conta e narra sua história de forma autônoma. O caminho que Vivi faz enquanto narradora é uma forma de inserir um diálogo sobre essas questões”, comenta.

Um dos conflitos vivido pela personagem central é o desgosto pelo seu próprio nome. O sobrenome Lobo faz com que ela receba o apelido de Vivi-cara-de-lobo, abordagem que leva a refletir sobre bullying e autoaceitação. A autora conta que esta também foi uma forma de retratar traços de sua própria história. “Fui uma criança que tinha uma gagueira severa e não gostava do meu corpo. Era uma grande agonia, na época, não aceitar como eu tinha nascido e ainda assim enfrentar o bullying. Tentei colocar isso de alguma forma na narrativa, pois sei que não é uma luta só minha”.

Assim como Isabelle, Vivi também aprendeu a superar essas questões. No final da história, a menina, por meio da ajuda de outras mulheres e de sua escrita, consegue ressignificar seu nome e encontra cura justamente no que mais a machucava. Segundo a estudante, esta foi uma inspiração na autora americana Clarissa Pinkola Estes que escreveu “Mulheres que correm com os lobos”, comparando a grande força e resistência que os lobos e as mulheres possuem de forma similar.

Hansen salienta que o objetivo da abordagem é ampliar o diálogo sobre liberdade, equidade e empoderamento infantil, bem como entender a comunicação como sendo efetivamente social, como modo de ruptura de padrões normativos, conectada aos movimentos sociais em favor da luta pelas mulheres. “Em especial, destaco a comunicação como espaço de voz e visibilidade a uma essência reprimida e dominada que está irrompendo, que está deixando de reproduzir o discurso da dominação e começa a encontrar na comunicação um lugar para a resistência e para a ruptura”, diz.

Público

Foto: Thalita Zukeram

O livro é destinado a meninas e meninos entre 8 a 10 anos idade que, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), representa o período de maior evolução na leitura, sendo de grande importância para a criação desse hábito. “Contudo, essa definição não é excludente, o livro pode abranger públicos secundários: crianças de outras idades e adultos”, explica Isabelle.

A estudante conta que a escolha desse público foi algo pessoal, pois ela gostaria muito que em sua própria infância tivesse entrado em contato com materiais que tratassem sobre temáticas de gênero, conflitos e aceitação das diferenças. “Em minha vivência, este foi um assunto muito negligenciado ou quase inexistente, o que me fez perceber atualmente a importância de se discutir abertamente sobre essas questões”. Mas a possibilidade de trabalhar temas importantes de forma lúdica e descontraída, características da literatura e do imaginário infantil, também chamou a atenção dela. “As crianças possuem uma capacidade de reinventar a realidade, esse espírito de renovação tem muito a ver com a luta das mulheres: acreditar que as coisas podem ser diferentes”, relata.

Futuro

Apesar de ser a primeira vez que Isabelle se aventura em um trabalho para crianças, a escrita e a ilustração sempre fizeram parte da vida dela. “Mais que um hobby, sempre foi nitidamente uma extensão da minha voz, aquela que eu não costumava ter na infância. Ao crescer e entrar na universidade, vi que além de ser algo que amo e me interessa, isso poderia se tornar o meu instrumento de trabalho”, conta.

A futura publicitária também já ajudou a produzir publicações independentes como fanzines, tirinhas e cartilhas. Além disso, fez ilustrações, projetos gráficos e capas de livros. Atualmente, ela concentra suas energias na viabilização de seu livro infantil e em formas de disseminar esse conteúdo. “Um dos meus propósitos no desenvolvimento da pesquisa e na criação do livro é que ele possa, de alguma forma, dar um retorno à sociedade do trabalho e conhecimento que é produzido e pensado dentro da universidade pública. Gostaria muito que crianças e adultos pudessem ter acesso e compartilhassem suas impressões e críticas.”, conta a jovem que coloca o trabalho com literatura infantil como um de seus futuros projetos.

Mensagem e aprendizado

Foto: Thalita Zukeram

A autora conta que o projeto como um todo fez com que ela mudasse sua visão sobre a infância. “Muitas vezes, de forma equivocada ou sem mesmo perceber, julgamos as crianças como seres extremamente ingênuos ou até incapazes em algum nível devido a sua idade, ignorando a grande capacidade intelectual, criativa e inventiva que meninos e meninas igualmente possuem desde cedo”, explica.

“Vivi Lobo e o quarto mágico” é fruto da contribuição e da troca realizada entre as crianças e a estudante. Além da forma de pensar, trabalhar sobre esse aspecto também fez com que ela percebesse e ficasse otimista com relação ao novo espaço que vem se abrindo para a ruptura dos discursos normativos e nocivos a respeito das temáticas de gênero.

Segundo Isabelle, a principal mensagem de sua obra é sobre liberdade, autonomia, amizade entre mulheres e aceitação. “Todas as pessoas e todas as mulheres possuem grandes e pequenos lobos dentro de si. E é por meio do enfrentamento das dores, da resistência e da compreensão que é possível encontrar a cura, a força e também a liberdade em conjunto com as pessoas que nos cercam. Sobretudo, é uma mensagem para que todas as meninas e crianças sejam aquilo que elas querem ser, sem restrições”, finaliza.


UFPR nas Redes Sociais

UFPR no Facebook UFPR no Twitter UFPR no Flickr RSS UFPR UFPR no Youtube UFPR no Instagram
Universidade Federal do Paraná
Rua XV de Novembro, 1299 | CEP 80.060-000 | Centro | Curitiba | PR | Brasil | Fone: +55(41) 3360-5000
UFPR no Facebook UFPR no Twitter UFPR no Youtube
Setor de Universidade Federal do Paraná
Rua XV de Novembro, 1299
CEP 80.060-000 - Centro
Reitoria da UFPR - Curitiba - PR - Brasil
Fone: +55(41) 3360-5000

Imagem logomarca da UFPR

©2020 - Universidade Federal do Paraná

Desenvolvido em Software Livre e hospedado pela AGTIC - Agência de Tecnologia da Informação e Comunicação da UFPR