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Cursinhos solidários de Curitiba aprovaram pelo menos 260 calouros da UFPR; conheça histórias e saiba como ajudar

Camille Bropp     16 de fevereiro de 2018 - 15h52

Tempo, material didático e orientações voltados para a preparação para o vestibular são fatores preciosos que fazem a diferença nas provas. Só que não estão acessíveis a todos os candidatos. Nesse cenário, tem se destacado o trabalho dos cursinhos solidários, que selecionam alunos com base na renda familiar e funcionam devido a parcerias, doações e voluntariado. No Vestibular 2017/2018 da UFPR, três dessas iniciativas em Curitiba contribuíram para a aprovação de pelo menos 260 calouros.

Apesar de se inspirarem nos processos dos cursinhos pré-vestibulares padrão, os cursinhos solidários possuem algumas diferenças de atuação. Um exemplo são os horários, geralmente noturnos ou aos fins de semana (em turno integral). Isso porque, entre as histórias de calouros da UFPR que passaram por cursinhos solidários há as de alunos que viveram, até a aprovação, rotinas que incluíam trabalho e cursinho, às vezes com a conclusão do ensino médio também a caminho.

Da esq. para dir.: Vinícius Felipe de Souza, Emili Brito de Lima, Stephany Orgino, Monike Batista, Kevylin dos Santos e Gabriela Kalkmann, calouros de 2018 que fizeram cursinhos solidários. Fotos: Samira Chami Neves/Sucom-UFPR

É o caso de Jhonatan Lutes de Oliveira, de 17 anos, agora calouro de Engenharia Civil da UFPR. Filho de um mestre de obras com uma auxiliar de produção em fábrica, ele terminou o ensino médio enquanto trabalhava como menor aprendiz em um mercado (das 8 às 12 horas) e fazia cursinho aos fins de semana. Com o salário que ganhava conferindo as gôndolas do mercado, pagava alimentação na rua, transporte e material didático.

Motivação

Jhonatan conheceu o cursinho solidário Em Ação por meio de um folheto entregue por um professor da escola. Além da preparação voltada para vestibular, ele diz que o cursinho o ajudou a se manter motivado. “Não faltei um dia, mas, chegando na metade do ano, a cabeça cansa. Só não desisti porque criei amizades lá”, conta. As horas disponíveis para revisão eram à noite.

Depois das provas, teve noção de que poderia ter passado ao comparar a sua nota com a nota de corte do vestibular anterior, mas só teve certeza mesmo ao ver o seu nome no mural do Campus Agrárias, durante o Banho de Lama. “Estava calmo, esperançoso, mas mesmo assim demorou para cair a ficha”, diz ele, que é o primeiro da família a ingressar no ensino superior.

Colega de Jhonatan no cursinho e, futuramente, na Engenharia Civil da UFPR, Daniel Arruda Monteiro, de 17 anos, conciliou estágio, ensino médio com curso técnico e o cursinho ao longo de 2017. “Tinha alguns momentos livres no estágio para estudar lá. Minha rotina ficou meio pesada quando tive que fazer um estágio obrigatório do curso técnico, à noite, lá na minha escola, auxiliando os professores nas aulas de desenho técnico no AutoCAD”, conta.

O turno no cursinho era quando Daniel aproveitava para estudar e se organizar. “Foi de suma importância para que eu passasse no vestibular, pois eu não sabia como me organizar pra estudar, bem como não sabia como funcionava a prova”.

Retorno

Durante a preparação para um processo seletivo tão concorrido, porém, o tempo de dedicação pode exigir escolhas, especialmente quando o aluno está há um tempo afastado dos estudos e, portanto, tem muito conteúdo para rever. Um exemplo disso é o de Emili Brito de Lima, de 20 anos, que viu o anúncio do Cursinho Solidário, da ONG Formação Solidária, em uma rede social. “Nem sabia que era extensivo, fui fazer a inscrição no último dia”, lembra. A decisão marcou o início da sua nova chance de entrar na UFPR. Após concluir o ensino médio e tentar o vestibular pela primeira vez, ela trabalhou em uma feira de rua — depois que o pai, motorista, se aposentou — enquanto pensava o que fazer com o sonho antigo de estudar Medicina.

“Fiquei com muito medo de parar de estudar e perder o ritmo de estudo, mas não tive opção”, conta ela. “Nem iria voltar [a estudar] se não fosse pelo cursinho solidário”. O cursinho a ajudou a retomar o conteúdo do ensino médio e manter a disposição para os estudos. Ainda assim, levou dois anos para que Emili chegasse perto do desempenho necessário.

“Tem que ter um foco muito grande, querer muito”, diz ela. “Precisei de muita humildade porque eu sentia a dificuldade de acompanhar o material didático. Mas quem tem sonho não deve desistir, mesmo quando demora”, acredita.

Jhonatan de Oliveira e Daniel Monteiro comemoraram a aprovação no Banho de Lama de Curitiba depois de um ano com jornada tripla. Fotos: Arquivo Pessoal

Da mesma forma, Kevylin Miranda dos Santos, de 24 anos, caloura de Direito da UFPR, tinha completado o ensino médio em 2011 e precisou rever toda a matéria do período. Nesse meio tempo, começou duas graduações, sempre com bolsa de estudos em instituições privadas. Além de não ter conseguido continuar na faculdade, não tinha se achado nos cursos. Primeiro, trancou Pedagogia para trabalhar como telefonista em uma rádio. Depois, se questionou sobre Administração. “Em 2017 fiquei em dúvida sobre trancar de novo a faculdade. Na época eu comecei a conversar com pessoas da área de Direito, fiz testes vocacionais, desses de internet, e sempre dava vocação para Direito”, lembra.

Escolher retornar os estudos para tentar vestibular de novo não foi fácil. Kevylin estudou sozinha o ano inteiro, logo depois de trancar a graduação. “Como meus pais nunca tiveram dinheiro para pagar cursinho, minha saída foi estudar em casa”, diz. “Não tinha computador, então usava o celular. Estudava por umas apostilas que ganhei e livros do ensino médio que tinha guardado desde 2011”. Depois de conseguir nota para a segunda fase, Kevylin aproveitou cada minuto das oficinas do Todos pelo Direito.

“O cursinho me ajudou de uma forma inexplicável”, diz. “São pessoas maravilhosas e muito humanas. Tinha dificuldade em filosofia, mas gabaritei quatro das sete questões discursivas, foi minha maior nota nas específicas”. Para se motivar, via fotos da universidade, especialmente do Prédio Histórico, onde está instalado o curso de Direito, e assistia a vídeos do Banho de Lama. “Dava uma carga de energia muito grande, importante principalmente nas horas em que você acha que não vai conseguir”. Controlar o nervosismo foi essencial para Kevylin, que é diabética desde os cinco anos e toma até sete injeções de insulina por dia. “Quando a glicemia subia, eu tinha que parar de estudar. Então ficava respirando fundo para me acalmar”.

Kevylin deve ser a primeira diplomada do seu núcleo familiar mais próximo. “Minha mãe conta que achava que fazia Direito em universidade federal apenas filhos de médicos ou advogados. Agora, tem uma filha de uma dona de casa com um pizzaiolo lá”, diz.

Aposta

Poder deixar trabalho ou outra graduação de lado para se dedicar a um vestibular concorrido é uma vantagem que nem todos têm. Mas esse investimento não deixa de ser uma expectativa grande para administrar ao longo do ano.

Stephany Vitória Alves Orgino, 18 anos, deixou o trabalho como menor aprendiz em um shopping center de Curitiba para se concentrar mais nos estudos. “Em 2016, quando tentei o vestibular pela primeira vez, eu fazia o ensino médio de manhã, trabalhava à tarde e fazia o cursinho solidário à noite”, lembra. “Foi um ano muito conturbado, descuidei da saúde e, por motivos óbvios, não tinha tempo para me dedicar”.

Ela notou a diferença a partir do momento em que pôde se voltar mais para os estudos. Assim conseguiu uma bolsa em um cursinho padrão, proporcionada pelo Cursinho Solidário, depois de obter uma boa nota em um simulado. “Nessa segunda metade do ano, dei uma aliviada. Tentava não estudar depois das 18h30, fiquei com muito medo de que isso me tirasse meu sonho novamente, mas foi bom para o meu psicológico”, conta ela, hoje caloura de Direito.

Recém-matriculada no curso de Enfermagem, Monike Karoline de Jesus Batista, 18 anos, aconselha quem se sente cobrado a procurar ajuda. “Tem que tirar forças, conversar com professores ou com os pais quando existe abertura”, afirma.

Nascida em uma família em que o mais comum é os estudos terminarem no ensino médio, Monike contou com a ajuda no Cursinho Solidário e de uma professora de redação para dar conta da pressão. “Tive alguns problemas durante o ano, Síndrome do Pânico e tudo, que muitos vestibulandos sofrem”, conta. “Não conseguia mais olhar apostilas sem chorar”. Para ela, entrar na faculdade é uma realização pessoal que buscava desde que escolheu trabalhar com saúde, no ensino médio. “É muito bom saber que vou ajudar o próximo com a profissão que escolhi”, conta.

Família

A paciência precisa ser amiga especialmente de quem opta por cursos com vagas concorridas. Quando colocou na cabeça que faria Medicina, inspirada no médico obstetra da sua mãe, Gabriela Ferreira Kalkamnn tinha boa vontade, mas precisou aprender muito. “Comecei a fazer vestibular em 2015 e prestei para tudo quanto é lugar, mas não sabia como funcionavam as coisas — as seleções, os financiamentos, as mensalidades de uma faculdade privada, se fosse o caso. Eu precisava saber como era a prova e como focar nos estudos”, conta.

Gabriela começou a estagiar para ajudar a bancar os estudos e teve o apoio do pai, que é mecânico industrial. Foi assim que começou seu processo em longo prazo. “Coloquei na cabeça que vestibular tem todo ano para poder sossegar um pouco”, diz ela, que tem 19 anos e fez dois anos do cursinho Em Ação. Em 2017, estagiou até cerca de um mês antes da primeira fase do vestibular. “Escutei muita gente falando para eu desistir, mas eu nunca tive nem segunda opção. Tem que continuar porque uma hora vai dar certo”.

A família de Vinícius Felipe de Souza, de 18 anos, também calouro de Direito, foi uma grande incentivadora dos estudos dele. “Não deixo de ser um privilegiado, porque tive estímulo para estudar desde a infância, então eu sabia que faria uma faculdade”, lembra.

Filho de uma diarista e ex-estudante de escola pública, Vinícius teve suporte de cursinhos solidários duas vezes. A primeira foi em 2016, ano em que seu pai faleceu. Por causa disso, Vinícius havia decidido não fazer cursinho, mas teve uma oportunidade no superintensivo do Solidário e conseguiu passar para a segunda fase do vestibular. Com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), conseguiu bolsa integral para o curso de Direito de uma universidade privada, que começou a cursar, mas não pretendia concluir. “Sempre quis fazer UFPR e cada vez tinha mais certeza de que lá não era o meu lugar. Então planejei as formas de sair de lá assim que pude”, conta.

Ao longo de 2017, Vinícius conciliou faculdade e cursinho, dessa vez o Em Ação, com aulas nos fins de semana. “Não trabalhei e estudei, mas estudei e estudei”, brinca. Para ele, o esforço direcionado aos estudos tende sempre a compensar o custo. “Acho que estamos em um país injusto no que se refere à educação e eu diria que, quanto mais distante você estiver do seu sonho, mais forte tem que ser e mais tem que batalhar para alcançá-lo”, avalia. “Mas quando você alcança, vale cada segundo”.

Como apoiar

Os dois maiores cursinhos solidários de Curitiba (o Em Ação e o Cursinho Solidário) aceitam os mais variados tipos de apoio para manter as iniciativas — de doações financeiras a voluntariado. O mesmo ocorre com o Tudo pelo Direito, que é iniciativa de alunos da UFPR.

Veja abaixo o que é possível fazer:

Em Ação

O cursinho aceita ajuda por meio de doações por cartão de crédito ou via conta de luz, como voluntário e com doação de material didático (a apostila de cursinho que não se vai mais usar). Hoje o cursinho oferece 160 vagas em Curitiba e 120 em São José dos Pinhais. A renda familiar é o principal critério de admissão.

De acordo com Daiymon Calegari, diretor do Em Ação, o cursinho ainda possui demanda constante de espaços para as aulas. “Também temos alguns gastos mutantes, como comprar carteiras e cadeiras para montar salas de aula”, conta.

O Em Ação também aceita a ajuda de graduandos em diversas áreas, uma vez que oferece um leque amplo de disciplinas — o que inclui matérias técnicas, como desenho, exigido no processo seletivo dos cursos de Design e de Arquitetura e Urbanismo da UFPR. Todos os professores são voluntários: os do curso extensivo, os das aulas de assistência (ou reforço) e os das disciplinas específicas.

Portanto, além das aulas aos fins de semana, em turno integral, os alunos têm aulas de reforço no meio da semana, das 18 às 22 horas, em salas do Campus Politécnico, da UFPR. O processo seletivo é realizado no início de cada ano.

Cursinho Solidário

O cursinho da ONG Formação Solidária recebe doações por depósito em conta e por PagSeguro (link aqui). Empresas também podem apoiar com doações e prestação de serviços.

A ONG tem necessidade constante de voluntários, inclusive em áreas administrativas. Universitários podem ajudar em suas áreas de graduação, ministrando aulas de reforço para quem tem dificuldades. Segundo o coordenador do cursinho, Elias Bonfim, algumas áreas são especialmente carentes de voluntários, como Química, Biologia e Desenho.

As aulas são no turno noturno durante a semana e no sábado de manhã. O processo seletivo começa já em dezembro do ano anterior. A renda também é o principal fator de seleção, além de ser preciso que o aluno tenha cursado ensino médio em escola pública ou como bolsista integral.

Todos pelo Direito

Segundo a aluna de Direito Thais Garcia, que coordena o cursinho, a iniciativa aceita patrocínio para custear o material didático. Em 2017, o Todos pelo Direito foi apoiado pela Assembleia Legislativa do Paraná e pelo escritório de advocacia de René Ariel Dotti, professor do curso.

Os voluntários são alunos da própria graduação, que oferecem aulas de História, Filosofia e Redação. O processo seletivo ocorre após a divulgação do resultado da primeira fase do vestibular, no segundo semestre. A prioridade é para vestibulandos que não fizeram cursinho padrão.

Esta reportagem faz parte de uma série que busca retratar histórias de aprovados no Vestibular 2017/2018 da UFPR até o início do semestre 2018.1. Leia outras matérias aqui e aqui.

Mais fotos de calouros estão disponíveis aqui e aqui.


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