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Ciência e Tecnologia

Revistas predatórias ameaçam sistema acadêmico brasileiro, alertam pesquisadores

Superintendência de Comunicação Social     19 de novembro de 2018 - 13h19

Por trás de propostas facilitadas de publicação, um único objetivo: lucrar financeiramente. Assim pode ser resumido o comportamento das chamadas revistas predatórias, publicações sem rigor científico que são objeto de um artigo publicado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na revista Scientometrics, editada na Hungria.

Para o professor da Escola de Administração UFRGS Marcelo Scherer Perlin, as revistas predatórias representam uma ameaça ao sistema acadêmico brasileiro. Perlin ministrou uma palestra sobre o tema no campus Jardim Botânico da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “É algo que a gente precisa combater. A meritocracia é sagrada, precisamos brigar por ela o quanto for preciso”, disse Perlin.

Palestra na UFPR buscou conscientizar pesquisadores sobre armadilhas de revistas predatórias. Fotos: Nicolle Schumacher/Sucom-UFPR

Palestra na UFPR buscou conscientizar pesquisadores sobre armadilhas de revistas predatórias. Fotos: Nicolle Schumacher/Sucom-UFPR

O evento buscou conscientizar pesquisadores sobre as armadilhas desses periódicos e foi organizado na disciplina transversal Academic Writing in English, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG), oferecida a cerca de 60 programas de pós-graduação da UFPR. Diretor do Centro de Assessoria de Publicação Acadêmica (Capa) da UFPR, o professor Ron Martinez afirma que a disciplina foi criada como resposta às pressões crescentes para publicar cada vez mais não só no Brasil, mas no mundo. “Por causa dessas pressões há uma tendência no crescimento das revistas predatórias. Temos que resistir às armadilhas desses periódicos, alertar pesquisadores e não colocar quantidade acima de qualidade”, diz.

A pesquisa

Com o objetivo de entender a proliferação de publicações predatórias no sistema acadêmico brasileiro, os pesquisadores da UFRGS analisaram 2,3 milhões de publicações de 102.969 pesquisadores doutores, a partir de dados dos currículos Lattes. As revistas predatórias foram identificadas a partir de uma análise com cruzamento de dados de uma lista criada pelo bibliotecário norte-americano Jeffrey Beall, do Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj) e de fatores de impacto por meio de indicadores de citações do Journal Citation Reports/Web of Science e do Scientific Journal Rankings/Scimago. Apesar de apenas 0,26% das publicações se enquadrarem como predatórias a partir do cruzamento de todas as plataformas, os pesquisadores consideram que há motivos para preocupação, uma vez que o número vem crescendo ao longo dos anos.

Gráfico publicado no artigo mostra crescimento de publicações predatórias por pesquisadores brasileiros de 2000 a 2015. Imagem: Divulgação/UFRGS

Gráfico publicado no artigo mostra crescimento de publicações predatórias por pesquisadores brasileiros de 2000 a 2015. Imagem: Divulgação/UFRGS

Confira abaixo uma entrevista com o professor e pesquisador sobre revistas predatórias Marcelo Scherer Perlin, da Escola de Administração UFRGS:

Chirlei Kohls – Quais são as principais descobertas da pesquisa sobre revistas predatórias?
Marcelo Scherer Perlin – O gráfico mostra que elas representam uma pequena proporção das publicações científicas, mas que o número vem crescendo de forma exponencial. E, por isso, se olharmos para a frente, imaginamos que vai ficar cada vez pior. A segunda descoberta mais impactante é a questão do Qualis Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) [que avalia periódicos científicos], porque quando a revista predatória entra no Qualis, ela recebe mais publicações [de artigos] do que as não predatórias. Muitos pesquisadores estão priorizando o predatório em detrimento dos demais, o que é muito ruim. Esse é o canal pelo qual as predatórias estão entrando no sistema.

CK – E por que você acredita que as revistas predatórias entram no Qualis Capes?
MSP – Acredito que é pelo volume de trabalho que o pessoal da Comissão tem. O Qualis funciona de forma reativa. Vamos supor: hoje eu publiquei num periódico que não estava no Qualis, então esse novo periódico será avaliado pela Comissão lá na frente. E essa Comissão verificará o site e se ele atende aos critérios de avaliação. Embora não tenha evidências disso, imagino que pela carga de trabalho o pessoal dá uma olhada por cima, vê que parece razoável e aí a revista entra no Qualis. E para não cometer o erro, dado que não tem fator de impacto, eles colocam num patamar mais baixo do Qualis (entre as avaliações B5 e B4). Eu imagino que é isso que acontece.

CK – Como identificar uma revista predatória?
MSP – Primeiro, entrar no site e ver quem são os editores da revista. Verificar o primeiro editor, jogar no Google e ver se essa pessoa realmente existe. Esse procedimento simples já vai mostrar que muitas revistas simplesmente pegaram o nome emprestado ou inventaram o nome de alguém que não existe. Segundo: analisar a escrita em inglês e o formato do site. E mais importante: ver se a revista cobra pela publicação, e de que forma. Além disso, verificar Directory of Open Access Journals e fatores de impacto [Journal Citation Reports/Web of Science e do Scientific Journal Rankings/Scimago] que a gente usa no dia a dia. As características de revistas predatórias são:
· Cobram um valor alto para publicação, geralmente apenas após o aceite do artigo.
· Período curto entre submissão e publicação do artigo, por exemplo: uma semana.
· Editores, quando existem, não dão consentimento para serem listados nas revistas.
· Nomes parecidos com revistas conceituadas e geralmente com alguma indicação geográfica, mas equipe situada em outro país.
· Design e escrita no site sofrível.
· Número abusivo de volumes ao ano.
· Incoerência entre proposta e conteúdo.

CK – De que maneira as revistas predatórias impactam a ciência brasileira? Que ameaça representam?
MSP – Elas impactam diretamente porque quando facilitam a publicação em troca de dinheiro, do recurso financeiro, deixam de lado a meritocracia. Então, pesquisadores com mais recursos publicarão mais, terão mais pontos no Qualis, conseguirão mais financiamento e continuarão esse ciclo até sei lá quando. O problema da revista predatória é que, primeiro, tira a meritocracia e, segundo, cria uma locação de recursos que é extremamento ineficiente. Imagina um professor de uma universidade federal: ele tem um salário, tem todo um investimento, muitas vezes estudou com base em bolsas de doutorado e ele vai produzir em revistas que não têm citação, que ninguém lê, que não valem para nada. Então obviamente é um recurso mal aplicado. É uma ameaça. É algo que a gente precisa combater. A meritocracia é sagrada, precisamos brigar por ela o quanto for preciso.

“Se o pesquisador está na dúvida, o melhor a fazer é não submeter o artigo para a revista”, Marcelo Perlin

“Se o pesquisador está na dúvida, o melhor a fazer é não submeter o artigo para a revista”, Marcelo Perlin

CK – Por que você acredita que o número de publicações em revistas predatórias têm crescido no Brasil?
MSP – A partir de 2010 começou a haver um maior incentivo por parte da Capes com relação à internacionalização. Então eles direcionam os recursos. Se você tem a Capes indicando e priorizando recursos para publicações internacionais e os periódicos predatórios facilitam essa publicação, aí eles vão crescer. É um terreno fértil para as revistas predatórias.

CK – O que pode e deve ser feito para diminuir esse número?
MSP – Primeiro é a conscientização. Divulgar que as revistas predatórias existem; que os alunos precisam evitar, porque é uma coisa muito feia, impacta inclusive na carreira; não confiar cegamente no Qualis. Uma ideia para tentar prevenir é tirar do Qualis. Usar esses dados alcançados na nossa pesquisa, por exemplo, para dar uma olhada nos periódicos que parecem não estar muito bem. É isso que a gente está sugerindo com essa pesquisa. Acho que é importante também ressaltar que se o pesquisador está na dúvida, o melhor a fazer é não submeter o artigo para a revista.

CK – Um dos resultados da pesquisa mostra que a probabilidade de publicar em periódicos suspeitos é maior entre pesquisadores com título de doutor há mais tempo e menor entre os mais jovens e inexperientes. Por quê?
MSP – É difícil dizer. Eu não tenho evidências para afirmar que a maioria está burlando o sistema. Eu não consigo provar se eles foram inocentes, se publicaram sem saber que eram revistas predatórias, ou se eles sabiam e publicaram mesmo assim. O que acho difícil é você ter 10 anos de experiência e não saber o que é um periódico bom e um periódico ruim. Mas é uma opinião minha. Além disso, hoje o pesquisador brasileiro tem incentivos para produzir melhor, como os financeiros, que são a progressão na universidade e a bolsa de produtividade, ambos com necessidade de ter publicações. Esses incentivos de publicação são um fator para que a gente veja esse aumento nas predatórias. Se não tivesse incentivo para publicação internacional, era muito mais fácil publicar numa revista local, que também tem suas contribuições para a ciência. A gente escreve artigos para ter uma discussão na sociedade e se essa discussão está alocada em revistas nacionais, ótimo. Não precisamos ser escravos de um sistema internacional. O importante é entender a contribuição do que estamos fazendo – não é questão de ser local ou internacional.

CK – Existe algum dado sobre o período de sobrevivência de uma revista predatória? O que faz uma revista predatória se manter mesmo após ser identificada como tal?
MSP – Na minha pesquisa não encontrei nenhuma estatística a respeito disso, porque é difícil encontrar a data de criação. E muito mais difícil é estruturar essa informação de uma maneira que um software consiga carregar. E outra coisa difícil de identificar é quando ela termina. Mas mesmo que a revista predatória acabe, é muito fácil criar uma nova. É um custo zero. Então fica-se criando, criando, criando esses periódicos. Algumas editoras têm 20 ou 30 revistas [predatórias]. Inventam um nome e vão criando revista. Quem caiu, caiu, né?

CK – Se uma revista for identificada como predatória, há algum sistema para denúncia? O que deve ser feito?
MSP – A lista do Beall [bibliotecário norte-americano] foi descontinuada em 2017. Suspeita-se que ele teve pressões de editoras para descontinuar. Surgiu uma nova, que é a Cabell’s list, mas é uma lista privada, você precisa pagar para acessar. Então não sei se vale a pena mandar para essa lista. O que eu acho é o seguinte, minha sugestão: todo convite que eu recebi para publicar nunca era coisa boa. Imagina: a revista vai atrás dos autores. Tem alguma coisa estranha, porque normalmente os autores vão atrás das revistas. Então é demanda e oferta. Se a revista está indo atrás, quer dizer que a oferta está muito baixa – então ninguém publica lá e ninguém vai ler o artigo. Se ninguém publica lá, deve ter uma razão. Eu acho que não vale a pena. Vale mais a pena submeter para uma revista tradicional da área.

Assista abaixo à matéria sobre a palestra produzida pela UFPR TV:

Clique aqui e confira uma galeria de fotos da palestra na UFPR sobre o perigo das revistas predatórias.

Por Chirlei Kohls
Parceria Superintendência de Comunicação e Marketing (Sucom) e Agência Escola de Comunicação Pública e Divulgação Científica e Cultural da UFPR


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