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Programa de Pós em Meio Ambiente e Desenvolvimento promove seminário e lança revista sobre 30 anos do legado de Chico Mendes

Bruna Bertoldi Gonçalves     5 de dezembro de 2018 - 16h29

O Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento (PPGMade) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) promoveu o lançamento do volume 48 da revista Desenvolvimento e Meio Ambiente no dia 30 de novembro. A edição especial foi apresentada durante seminário sobre o legado de Chico Mendes e o futuro das populações das reservas extrativistas florestais e marinhas – tema da publicação – realizado no Salão Nobre do Setor de Ciências Jurídicas da Universidade, na Praça Santos Andrade, no Centro de Curitiba.

O evento contou com duas conferências e reuniu pesquisadores, professores, estudantes e interessados da comunidade acadêmica. Dois ativistas que acompanharam a trajetória do líder ambientalista dividiram conhecimentos com o público e compartilharam suas vivências na floresta em diferentes contextos – histórico, social, político e econômico.

Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente

A publicação que completou 18 anos em 2018 se propõe a difundir, por meio de três edições anuais, conhecimentos nas áreas das Ciências Ambientais e dialogar com outras ciências. Segundo o professor José Milton Andriguetto Filho, um dos editores, cerca de 60 artigos são publicados por ano, em três idiomas. Na classificação de produção intelectual da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), apresenta o estrato indicativo de qualidade B1 em quatro áreas. “Tenho plena convicção de que na próxima avaliação Qualis, a revista vai para o estrato A. Ela um projeto que nos orgulha. Nós nos sentimos muito, mas muito instigados a continuar apoiando e a permitir que prossiga em sua causa, que é nobre. Esse número mostra ao que o Made se propõe e o que ele valoriza. E o que ele valoriza é o respeito às populações tradicionais, às populações originárias. O Made abre espaço a esse diálogo entre os saberes da academia e o saber que vem de nossas comunidades tradicionais”, afirmou o coordenador do PPGMade, professor Valdir Frigo Denardin.

Capa da edição especial da Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente sobre os 30 anos do legado de Chico Mendes. O periódico é produzido pelo PPGMade desde o ano 2000.

A edição especial foi produzida durante um ano e meio e oferece 23 artigos de 67 autores de 33 instituições do Brasil, dos Estados Unidos e do Reino Unido – universidades, organizações não governamentais, empresas de consultoria e institutos de pesquisa. O número aborda quatro grandes temas, anunciam os editores: Evolução das Políticas, Reservas Extrativistas Florestais, Reservas Extrativistas Marinhas e Valorização dos Recursos Naturais. Desde 2017, o periódico integra o banco de dados internacional de indexação Emerging Sources Citation Index (ESCI) da Web of Science. A publicação passou a ser digital em 2014. Confira a última edição aqui.

O pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, professor Francisco de Assis Mendonça, agradeceu aos docentes e coordenadores do Made pela contribuição, seriedade e dedicação. Em sua fala, destacou a atuação de três professores seniores – Angela Damasceno, Dimas Floriani e Maria do Rosário Knechtel – e estendeu a homenagem a todos os educadores do programa. “Juntos, eles formam esse trio que esteve lá na gênese, ou seja, entre 90, 92, 93, discutindo, pensando, criando, junto com colegas do exterior, lançando essa ideia num momento em que as questões ambientais chamavam à interdisciplinaridade, à transdisciplinaridade. Foi uma ousadia naquele momento, ousadia que, com felicidade, hoje a gente comemora esses 25 anos de história”, disse o pró-reitor, que ingressou no PPGMade em 1995. As atividades iniciaram na década de 90 com o curso de doutorado.

O pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, Francisco de Assis Mendonça, o coordenador do PPGMade, Valdir Frigo Denardin, e o professor José Milton Andriguetto Filho, um dos editores da revista, participaram do lançamento da edição especial no dia 30 de novembro em Curitiba. Fotos: Nicolle Schumacher

De acordo com o coordenador, 155 doutores e 56 mestrandos já foram diplomados. Entre 2001 e 2010, são contabilizados 170 especialistas formados em Educação Ambiental. “Falo com certa convicção, pelo menos dentro da área de Ciências Ambientais, da qual eu participei por duas vezes dos processos de avaliação de novos cursos, que, se tem, no Brasil, um programa que ainda se preocupa, que ainda prima, que tenta ainda manter viva a prática da interdisciplinaridade no seu interior, é o PPGMade”, afirmou Valdir. O programa está em sua 13ª turma de doutorado e na 5ª de mestrado. O corpo docente conta com 22 professores permanentes e sete professores colaboradores.

Seminário sobre legado de Chico Mendes e futuro das populações das reservas extrativistas

“Chico Mendes era um seringueiro pobre, filho e neto de seringueiros, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Ele dedicou sua vida a duas causas: eliminar as injustiças do trabalho dos seringais do Acre e impedir a derrubada da floresta para a expansão da pecuária. Duas causas que centralizaram a vida dele”, informou a antropóloga Mary Allegretti. A conferencista conheceu Chico Mendes em 1981 no Acre durante sua pesquisa de mestrado sobre seringueiros. A parceria deu origem ao Projeto Seringueiro, primeira experiência de alfabetização de adultos na floresta. “Ele morava com a mulher e os dois filhos em uma casa simples de madeira em Xapuri, onde foi assassinado aos 44 anos de idade, às vésperas do Natal de 1988. Ele morreu sem ter tido a chance de ver o seu sonho de justiça realizado, nem a floresta protegida”, lembrou.

Em sua aula, Mary narrou a trajetória do ambientalista brasileiro; apresentou fotos da época e recortes de jornais com a repercussão internacional sobre o crime; contextualizou fatos e mudanças que ocorreram a partir da revolução socioambiental dos seringueiros. O processo histórico de 1870 a 1990 – do início do desenvolvimento da economia da borracha na Amazônia até a criação da primeira reserva extrativista – foi delineado pela palestrante, que compartilhou suas experiências como pesquisadora e ativista ambiental e falou sobre os impactos do movimento social no Brasil e no mundo. “Há um patrimônio socioambiental do período de 1987 a 2018 que totaliza 790 unidades protegidas, que corre em uma área de mais de 66 milhões de hectares, protegendo mais de 13% da Amazônia e beneficiando 6 milhões de famílias que asseguram serviços ambientais estratégicos para o país e para o planeta. É um extraordinário resultado nunca esperado”.

Em 1986, a antropóloga criou o Instituto de Estudos Amazônicos (IEA), organização não governamental responsável pela sistematização técnica, jurídica e institucional do conceito de Reserva Extrativista (Resex) – área utilizada por populações extrativistas tradicionais cuja base de subsistência é o extrativismo. Segundo dados apresentados no seminário, há 99 reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável – com área de 23 milhões de hectares -, o que corresponde a 5% da floresta amazônica.

Aula ministrada pela antropóloga Mary Allegretti, pesquisadora e ativista ambiental que conviveu com Chico Mendes na década de 80 e participou do movimento social liderado pelo ambientalista, com atuação nos âmbitos institucional, político, acadêmico e científico.

Ao falar sobre o legado de Chico Mendes, Mary ressaltou, para além dos territórios protegidos, um conceito construído pelo ativista. “Ele deixou um conceito: o valor da floresta como meio de vida, como patrimônio socioambiental, o valor da floresta em pé maior do que a derrubada – foi sempre o que ele disse. Ele deixou esse conceito e uma proposta: uma reforma agrária diferenciada. Um movimento social que passou a desenvolver a articulação da política. Uma estratégia: alianças e parcerias técnicas com movimentos sociais, o que resultou nessa conquista de territórios que aconteceu por obra dos seus companheiros e parceiros nos 30 anos após o seu assassinato”, finalizou.

A doutora em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB) lecionou na UFPR no início dos anos 80. Recebeu prêmios como o Global 500 de Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU) – honraria concedida a personalidades que contribuíram por meio de projetos desenvolvidos em seus países para preservar o meio ambiente da destruição humana – e a Medalha Chico Mendes de Resistência do Governo do Acre, que homenageia pessoas ou grupos que lutam pela consolidação dos direitos humanos no Brasil.

“Talvez uma das coisas mais importantes a dizer da Mary é que ela mesma é uma personagem histórica com quase tanta ou a mesma estatura do Chico Mendes, só talvez menos conhecida. Ela efetivamente teve uma colaboração estreita e direta com o Chico no final dos anos 80, colaboração essa que resultou na invenção dessa ferramenta extremamente interessante que é a reserva extrativista enquanto ferramenta de gestão ambiental”, comentou o professor José Milton.

Morador da Reserva Extrativista Médio Juruá, no município de Carauari, no Amazonas, Manoel Silva da Cunha dividiu sua história com os participantes e falou sobre como a política de reforma agrária – as unidades de conservação – tem transformado a vida das pessoas para melhor e contribuído para a conservação dos recursos naturais. “A reserva extrativista é um território garantido por lei, e ele nos ajuda demais porque depois de criado, começa um diálogo com o governo, e isso facilita a chegada de políticas públicas. Hoje nós temos escola de segundo grau e de curso técnico dentro das unidades. Ela garante a preservação dos ecossistemas que ali estão, porque o uso feito pelas comunidades é de forma sustentável e garante, então, a permanência das presentes e futuras gerações. São muitos avanços. Hoje se aposenta uma pessoa como extrativista, antes tinha de ser como agricultor”, explicou o ex-seringueiro que, há dois anos, faz a gestão da unidade Médio Juruá por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

O ex-seringueiro Manoel da Cunha, gestor da Reserva Extrativista Médio Juruá, no Amazonas, identifica mudanças positivas a partir do reconhecimento jurídico da unidade.

“Com as reservas, veio o reconhecimento dessas populações nos seus habitats naturais, o que nos aproximou dos nossos direitos à educação, à produção livremente, sem ser por um sistema de semiescravidão. Facilitou a melhoria da qualidade de vida econômica, que é a mais essencial; a qualidade de vida da família. O econômico leva ao social, que leva ao ambiental”, complementou. Manoel soma décadas de ativismo pela criação de reservas extrativistas, pela preservação do meio ambiente e pela educação dos povos da floresta. Presidiu o Conselho Nacional das Populações Extrativistas da Amazônia por dois mandatos e participa de fóruns sobre o tema, no Brasil e no exterior. Ao final do seminário, foi realizada uma roda de conversa com o público. 

Acesse o PDF da aula ministrada pela antropóloga Mary Allegretti aqui.

As fotos do evento estão disponíveis no Flickr da UFPR.


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