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Extensão e Cultura

Pessoas com mais de 50 anos aprendem a lidar com celular em projeto de extensão de Terapia Ocupacional

Camille Bropp     3 de janeiro de 2018 - 15h00

Ex-professora do Departamento de Ciências Biológicas da UFPR, expert em Biologia Celular e Zoologia, Regina Piechnik Cordeiro da Silva, de 74 anos,  sentia-se intimidada pelo seu smartphone. “Eu usava, mas tinha medo de fazer besteira, apagar coisas que eu não queria”, lembra. Isso foi o que levou Regina a se inscrever na turma de 2017 do projeto Inclusão Digital para Adultos e Idosos (IDAI), um projeto de extensão do curso de Terapia Ocupacional que desde 2016 tem oferecido oficinas de uso do celular.

“Percebemos que essa era a maior demanda. O nosso público quer saber como usar o celular, desde as configurações até os aplicativos de mensagens e as redes sociais”, conta a professora do Departamento de Terapia Ocupacional Taiuani Marquine Raymundo, coordenadora do IDAI.

A professora aposentada Regina Piechnik tira dúvidas sobre o celular com Taiane Soares, aluna de Terapia Ocupacional. Fotos: Samira Chami Neves / Sucom UFPR

Para isso, em vez de aulas tradicionais, o método da oficina permite um relacionamento mais próximo entre os instrutores — extensionistas da graduação — e os seus alunos. Assim, são abertas no máximo 30 vagas, em duas turmas por ano. Os inscritos são divididos em grupos de duas ou três pessoas, que têm as dúvidas atendidas diretamente pelos membros do projeto.

As aulas semanais ocorrem ao longo de 12 semanas. Além de tirarem as dúvidas, os participantes recebem apostilas com passo a passo detalhados e noções básicas de segurança no uso do celular.

A quarta turma do projeto, que concluiu as oficinas no último mês de novembro, foi composta de ex-professores da UFPR por meio da parceria com a Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR-SSind). Já a primeira turma, em 2016, foi formada por ex-participantes da Universidade Aberta da Maturidade (UAM-UFPR). O curso permanece em 2018, mas o período de inscrições ainda não foi definido. A ideia é que uma das turmas seja formada em uma parceria com a Associação dos Servidores da UFPR (Assufepar).

Professores e alunos

Os interesses que esse público tem em relação aos celulares são variados. Há quem queira aprender a usar aplicativos de mensagens instantâneas (como o WhatsApp), a câmera e as redes sociais. Mas também há os que desejam aprender mais sobre as configurações do celular — como manter a tela acesa por mais tempo, acertar o despertador (para compromissos ou para facilitar o uso de medicamentos), usar a agenda de compromissos, aumentar a fonte e os ícones para que fiquem mais visíveis.

“Pessoas de todas as idades usam, não tem mais como não usar o celular”, afirma Gelson Tesser, de 63 anos, professor aposentado da UFPR (lecionava no Departamento de Educação) e aluno da quarta turma do projeto. Ela avalia que o curso o ajudou a ter mais segurança ao usar o celular, além de servir como uma espécie de “atualização tecnológica” para quem já está há alguns anos vivendo a aposentadoria.

Segundo outro professor aposentado da UFPR, Elias Karam Junior, de 71 anos (dos quais 59 dedicados ao Departamento de Genética), aprender mais sobre o uso do celular garante mais autonomia na hora de acessar serviços bancários, mas também permite melhorar as possibilidades de comunicação. “Eu tinha um celular que era um dos últimos modelos antes de chegarem os smartphones. Ele fazia tudo, mas não tinha internet. E WhatsApp é uma coisa que se usa para tudo hoje em dia”, conta. Karam Jr. comprou um smartphone, participou do curso e agora acessa aplicativos rotineiramente.

A extensionista Luana de Barros auxilia os participantes Alfredo Herbert Cardoso (centro) e Gelson Tesser (à dir.)

Depois de participar da primeira turma, Lino Vahediek, eletricista aposentado de 70 anos, conseguiu atualizar a tecnologia que usa para fotografar, um hobby que tem desde os 14 anos. O interesse de Vahediek no curso, de que tomou conhecimento pela internet, era aprender mais sobre as câmeras do seu smartphone. Atualmente, ele as considera as melhores ferramentas para as fotos que tira, mas nem sempre foi assim.

“A gente é curioso, mas age [em relação à tecnologia] com aquele medo que é padrão. Porque os mais velhos têm medo de estragar. Isso os impede de aprender, porque se aprende fuçando, como fazem os jovens”, conta. “Consegui superar um pouco isso e hoje considero o celular o melhor equipamento de fotografia que tenho. Apesar de não ter longo alcance nem zoom, a resolução e a qualidade da imagem são muito boas”.

Inclusão

Segundo a coordenação, a procura pelo curso tem sido alta, o que vai ao encontro de pesquisas recentes que mostram o empenho da população de mais idade em se aprimorar no uso das novas tecnologias. De acordo com um levantamento divulgado em outubro de 2016 pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), que ouviu 619 pessoas, quase 54% dos brasileiros com mais de 60 anos acessam a internet e 61% deles o faz pelo celular. A consulta apontou que os aplicativos mais usados são os bancários (11,8%), os para chamar transporte (8,4%) e os de compras (4,6%). Ainda assim, quase 48% afirmou possuir celular, mas não usar aplicativos. A pesquisa sugere que existe desejo para tanto, mas a educação digital ainda é uma barreira.

Vice-coordenadora do projeto, a professora do Departamento de Terapia Ocupacional Lilian Dias Bernardo avalia que a atual geração de mais idade é a que enfrentará mais obstáculos para a inclusão digital. “Quem não teve contato com a tecnologia desde cedo naturalmente sente mais dificuldade do que nós sentiremos quando envelhecermos”.

Mas isso não significa que mesmo as gerações hoje compostas por jovens não precisarão se adequar à tecnologia, já que os aparelhos são pensados para o público que os consome com mais frequência. Daí a necessidade de as professores indicarem ferramentas específicas para que pessoas mais velhas usem o celular, como as canetas touch.

Participantes do IDAI ganham apostilas com passo a passos detalhados

Fora isso, as coordenadoras destacam o impacto social que o projeto tem exercido sobre os participantes. “Aqui é um espaço de convivência, não serve apenas para um aprendizado específico em si”, conta Lilian Bernardo. Isso explica a quantidade de depoimentos emocionados deixados por participantes na página no Facebook e no grupo de WhatsApp do projeto.

Entre os participantes que já trabalharam na UFPR, a chance de retornar ao ambiente universitário foi marcante. “É muito mais profundo o que esse projeto proporciona. É como se a gente tivesse voltado para a universidade, um ambiente que fazia tanta parte das nossas vidas”, lembra Karam Jr.

“O curso é instrumental, mas os vínculos foram muito benéficos”, conta Tesser. “Foi interessante ver o contraste dos nossos pontos de vista com os de professoras e alunas tão jovens, com troca de ideias e de influência. É importante porque vivemos em uma sociedade muito individualista, egoísta, em que as pessoas deixam de interagir, e esse é um dos objetivos de uma universidade”.

Extensão

Para os cerca de dez extensionistas, que são alunos de graduação de Terapia Ocupacional, o curso tem a meta de proporcionar um espaço de interação com um dos principais públicos da profissão, afirma a coordenadora Taiuani Marquine. Assim, os alunos de graduação conseguem criar e desenvolver recursos e estratégias que facilitam o ensino e a aprendizagem de adultos e idosos.

Para Luana de Barros, aluna do 6º período que tem 22 anos, o projeto tem sido uma oportunidade de se aproximar de um grupo social que a interessa profissionalmente. “Sempre tive facilidade em criar vínculos com pessoas mais velhas, como com os meus avós. Então tem sido uma troca. Eu ensino o que sei sobre o celular e eles me apresentam livros, músicas, filmes que eu desconhecia”, conta. “Tive muito medo de que eles ficassem ofendidos em ter uma pessoa mais jovem os ensinando, mas a recepção sempre é ótima. São muito legais desde o começo”.


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