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Ciência e Tecnologia

Pesquisadores que estudam o bem-estar animal defendem que crustáceos devem ser tratados como seres sencientes

Jéssica Tokarski     28 de fevereiro de 2018 - 12h43

Em janeiro deste ano, a Suíça aprovou lei inédita que proíbe o preparo de lagostas e outros crustáceos usando a técnica de cozimento em água fervente enquanto os animais ainda estão vivos. A regra prevê que essa espécie de animal deve ser atordoada antes de levada à panela e também não pode ser transportada em caixas de gelo. O que motivou a legislação suíça é a possibilidade de que esses animais sejam sencientes, ou seja, sintam dor.

O Laboratório de Estudos em Estresse Animal (LEEA) da UFPR, coordenado pela professora Marisa Fernandes de Castilho – do Departamento de Fisiologia -, é pertencente a um grupo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que, juntamente com dois outros laboratórios da Universidade Estadual Paulista de Botucatu e de São José do Rio Preto, estudam o bem-estar animal. A pesquisa sobre a senciência dos crustáceos não é algo novo para o grupo, que já publicou artigo sobre o tema há dez anos.

Foto: Samira Chami Neves

A prática de cozimento de crustáceos ainda vivos em água fervente é bastante difundida na culinária em diversos países, incluindo o Brasil. “A proposta continua atual, visto que ainda não há um consenso na ciência sobre os animais sentirem ou não dor”, diz Marisa. “A aceitação pela sociedade de que animais domésticos como gatos e cães sentem dor é tarefa fácil. Mas o que dizer sobre um sapo, um peixe, uma lesma, um pernilongo ou uma lagosta?”, indaga a professora, afirmando que a própria comunidade científica diverge sobre o alcance da ciência em demonstrar com dados empíricos que os animais sentem dor.

“Um dos requisitos comumente citados como necessário para que um organismo tenha a percepção da dor é a presença de estruturas cerebrais semelhantes às dos mamíferos. Contudo, esse argumento não tem fundamento, pois diferentes espécies recebem informações sensoriais por vias específicas. Um crustáceo não tem córtex visual, mas tem visão. Então, a sensação de dor (que é um tipo de percepção sensorial) não está necessariamente associada ao sistema nervoso complexo ou a animais com córtex cerebral”, explica Marisa.

De acordo com a professora, sentir dor ou desconforto parece essencial para a manutenção da integridade e do bem-estar dos organismos. Assim, é razoável supor que a maioria dos animais, se não todos, experimentem alguma sensação desse tipo quando expostos a estímulos que comprometam sua integridade física, independente da complexidade do sistema nervoso.

Foto: Samira Chami Neves

Entretanto, se a falta de consenso ainda é fato, a dúvida reside em como proceder até que a ciência comprove a matéria. Segundo Marisa, a lei aprovada na Suíça dá um passo importante usando um conceito ético filosófico chamado “ônus da prova”. “O conceito é o seguinte: que ônus haverá para a sociedade e os animais se continuarmos tratando essas espécies como seres não sencientes? No mínimo, haverá um desconforto imenso aos sujeitos que usaram dessa prática. Já se aplicarmos a ideia oposta, tratando os animais como sencientes e, daqui a alguns anos houver uma conclusão de que eles sentem mesmo dor, não haverá ônus algum”.

Leia o artigo publicado em 2007 por Gilson Luiz Volpato (Unesp), Eliane Gonçalves de Freitas (Unesp) e Marisa Fernandes de Castilho (UFPR) que embasou manifesto recente das duas últimas autoras, ao qual se juntou Percilia Cardoso Giaquinto (Unesp): 2007-Volpatoetal-Insightsintotheconc.


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