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Mulheres da UFPR: Dionne Freitas e a luta pela representatividade transexual

Superintendência de Comunicação Social     6 de março de 2018 - 13h32

Quem conhece a terapeuta ocupacional, Dionne Freitas, não imagina as grandes dificuldades por que ela passou. A mestranda no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Territorial Sustentável já teve de enfrentar o preconceito, a discriminação e até mesmo a violência física por ser uma mulher transexual.

Dionne conta que desde muito pequena já se identificava como menina, foi aos poucos que começou a perceber que havia algo estranho acontecendo. “Para mim era algo natural, naquela época eu lembro muito bem que para mim eu era uma menina. Eu não entendia porque o meu pai e minha mãe me tratavam diferente disso. Davam presentes que, entre aspas, eram brinquedos de menino… queriam que eu tivesse um comportamento que não tinha a ver comigo, eu ficava triste mas ainda não entendia o que estava acontecendo” lembra.

Foi ao atingir a adolescência que a estudante passa a expressar o gênero com quem se identificava, o processo de transição. Ela conta que a condição de intersexualidade, que viria a descobrir essa época, ajudou nesta procura. “Eu não tive puberdade, então quando eu cheguei nesta fase eu não desenvolvi caracteres secundários masculinos por causa de uma questão genética. Eu nasci com um estado intersexual, chama-se Quimera de Klinefelter. Isso facilitou toda minha vida” conta.

Dionne Freitas – estudante de mestrado da UFPR (foto:Rodrigo Choinski)

As várias condições que levam à intersexualidade não são tão raras como se imagina. Dionne explica que somando todas as possibilidades, que envolvem questões cromossômicas, de gônodas e hormonais, cerca de 1,7% da população apresenta características intersexo.

Transição

Dionne teve que consquistar o apoio da família para que pudesse fazer sua transição e, posteriormente romper a barreira dos médicos, que ao descobrir a condição genética, buscavam convencer a família da estudante a fazer a reposição de testosterona, essencial para o desenvolvimento de características masculinas.

“Na minha condição física era mais fácil para eles que eu me desenvolvesse como menino, era só passar testosterona, eu tomar durante a minha vida inteira e pronto” explica Dionne,

Foi num centro trans, ainda em Ribeirão Preto que acabou encontrando acolhimento. Conta que começou a se automedicar com 14 anos, mas aos 15 um médico passa a acompanhar seu tratamento, mesmo contrariando a legislação, que não permitem este tipo de procedimento nesta idade.

Dionne fala da importância de começar o uso dos medicamentos cedo, o que é uma das bandeiras do movimento trans. A estudante, que também é ativista, explica que a questão da mudança de nome e da indicação de gênero nos documentos é essencial.

“Depois da barreira médica, tinha a questão do nome, o meu nome é ambíguo, então não tive problemas, mas alguns lugares pedem RG e a Certidão de Nascimento onde está especificado o gênero. Então era outra barreira, o constrangimento, as pessoas querem saber de sua história, perguntas sem sensibilidade, que não fazem sentido, coisas que jamais seriam perguntadas para uma pessoa cisgênero”, relata Dionne.

Dionne Freitas - estudante de mestrado da UFPR (foto:Rodrigo Choinski)

Dionne Freitas – estudante de mestrado da UFPR (foto:Rodrigo Choinski)

No mestrado a estudante se debruça no tema de políticas públicas voltados ao público transexual e destaca a importância de ações afirmativas na inclusão e superação do preconceito. Um dos pontos de destaque é a questão da representatividade. Neste ponto lembra como foi importante a visibilidade que a atriz e cantora Roberta Close teve em sua vida. “É importante saber que tem alguém que tem a mesma experiência que você e é reconhecido, mostra que nós também podemos” afirma.

Dionne explica que a maioria das transexuais não tem o apoio da família e nem características que permitem que se faça uma leitura cisgênero, o que aguça mais os preconceitos e torna ainda mais urgentes as políticas públicas de inclusão.

A estudante destaca a importância da convivência com a diversidade. “Quando a gente convive com a diversidade, crescemos como ser humano, se você não possibilita que a diversidade tenha acesso aos espaços, você sempre está convivendo com o igual e acaba numa polarização, como estamos vendo na política, nos costumes religiosos e na vida cotidiana” conclui.

Momentos difíceis

A estudante conta que durante o ensino fundamental e médio, o período correspondente a sua transição, sofreu muita discriminação. Ela explica que a violência física e psicológica acaba afastando transexuais dos ambientes formais de ensino, o que, somado ao preconceito, acaba excluindo as pessoas do mercado de trabalho, levando uma grande parcela à prostituição.

Dionne lembra que o fetiche pelas mulheres transsexuais está muito presente entre os homens, muitas vezes misturado ao preconceito. Relata que os mesmos homens que a atacavam com xingamentos, zombarias, algumas vezes tentavam uma aproximação sexual ou a assediavam. Conta que por três vezes foi vítima de tentativas de estupro coletivo. Esses ataques a motivaram a prática de artes marciais, que mantém até hoje.

O período mais difícil da sua vida corresponde à transição, dos 13 aos 20 anos. Dionne morava na cidade de Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo. Como vivia na vizinhança há já algum tempo, as pessoas acompanharam este processo e agiam constantemente de forma agressiva e discriminatória, ao ponto da estudante não poder sair de casa sozinha e viver em constante isolamento. Foi neste período em que aconteceram os piores ataques.

A situação só melhorou quando mudou de bairro para cursar Terapia Ocupacional na Universidade de São Paulo (USP), onde passava despercebida, já tendo completado sua transição.

Família

O acolhimento do núcleo familiar fez toda a diferença. Dionne afirma com uma convicção assustadora que, sem o apoio da família, todos estes ataques, toda esta crueldade a teria levado ao suicídio. O que não é um mero acaso, as estatísticas mostram que comparado ao restante da população a taxas de transexuais que tiram sua própria vida é muito mais alta.

“Eu chegava em casa e tinha apoio da minha mãe, tinha apoio do meu pai, tinha apoio da minha irmã. Eu tinha no colo de quem chorar, de quem me dar força. Eu tinha quem me estimulasse a estudar, que falava: não você tem que estudar, para você não repetir a história das pessoas que tem uma situação igual a sua” relata Dionne.

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