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Ciência e Tecnologia

Marcello Iacomini, o professor sênior que já viveu a universidade sob vários pontos de vista

Camille Bropp     2 de julho de 2018 - 16h41

A Universidade Federal do Paraná tem muitas áreas de excelência espalhadas por seus setores e campi. Entre elas estão laboratórios e grupos de pesquisa liderados por pesquisadores que alcançaram o topo da carreira no Brasil. São pesquisadores que, segundo os critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), se destacam entre seus pares, alcançando o nível 1A, o mais alto na modalidade de bolsas Produtividade em Pesquisa. O portal da UFPR está publicando uma série de reportagens sobre os pesquisadores 1A da universidade e o trabalho científico que desenvolvem.

Um dos assuntos preferidos do professor Marcello Iacomini, de 71 anos, é contar as histórias dos equipamentos usados em laboratórios do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica, no Setor de Ciências Biológicas da UFPR. Enquanto explica a diferença entre um espectômetro e um detector de índice de refração, Iacomini deixa transparecer o conhecimento de quem acompanhou as pesquisas da área de análise de polímeros de carboidratos desde os anos 1970. “Naquela época, tínhamos que esperar algumas semanas para ter o resultado de uma análise que hoje obtemos em horas”, conta.

Em mais de 40 anos como pesquisador na UFPR, Iacomini acompanhou a montagem de diversos laboratórios do setor, além de ter contribuído no processo burocrático para a compra de um bom número das máquinas que hoje estão (ou estiveram) ali. Cada equipamento é uma possibilidade diferente de expandir pesquisas, lembra o professor, enquanto usa suas digitais para abrir fechaduras biométricas de porta atrás de porta. Mas ressalta que equipamentos também representam uma tarefa inglória de que muitos cientistas só se dão conta ao assumir a carreira: gerir e manter, geralmente sem orçamento favorável.

O professor Marcello Iacomini no Laboratório de Ressonância Magnética Nuclear (LabRMN) do Biológicas. Fotos: Marcos Solivan/Sucom-UFPR

Chamado de “professor” (com pronúncia em inglês, em que o “e” fica agudo) pelos colegas, Iacomini está aposentado desde 2003, mas não se afastou da pesquisa — é bolsista no Programa Professor Sênior. Sua rotina de trabalho é similar à de antes. Pela manhã, orienta graduandos de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos. No primeiro semestre de 2018, eram seis orientandos. À tarde, trabalha como parecerista em revistas científicas internacionais, entre as quais a Journal of Natural Products, a Carbohydrate Polymers, a Anais da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Food Chemistry.

Publicações

O conhecimento de Iacomini sobre publicações é outro tema que se destaca na fala do professor. Autor e coautor de cerca de 280 artigos científicos, o pesquisador conta que muitos mais foram rejeitados até mesmo recentemente, o que faz com que, no seu entender, a busca por produtividade exija também humildade. “Não é porque se é pesquisador 1A que trabalhos não são rejeitados. É importante perder também”, conta.

“Perder”, segundo Iacomini, ajuda o pesquisador a rever deficiências nos seus trabalhos. Na área em que atua, um problema usual, por exemplo, é “mostrar a atividade biológica [da substância] sem mostrar a causa”. Outro é deixar de apresentar inovação ou dado inédito na literatura científica. “Com o tempo, se aprendem as prioridades que as revistas dão aos assuntos”, conta. Quando atua como parecerista e precisa rejeitar um paper, Iacomini costuma explicar, até de forma didática, os motivos que o levaram a isso. Orienta que o autor reescreva o artigo ou faça novos experimentos. “Mando de volta os trabalhos que não seguem os padrões internacionais, sempre com respeito”, salienta. “Mas é bom, a humildade se aprende. Ser pesquisador exige gostar de entender”.

Não só os periódicos deram lições de humildade ao pesquisador. Geralmente “convocado”, Iacomini passou por diversos cargos políticos e administrativos dentro da universidade: foi o primeiro ouvidor (entre 2006 e 2010, quando já estava aposentado), diretor de setor, coordenador de programa e conselheiro dos quatro conselhos (Coun, Cepe, Concur e Coplad). Nessas funções, conta que recebeu alguns dos conhecimentos mais importantes (e duros) sobre lidar com pessoas.

“Eu até gostava dessas obrigações, acredito que era chamado porque sempre fui mediador”, lembra. “As obrigações que vêm com esses cargos sempre trazem ensinamentos. É preciso humildade para lidar com pessoas”.

Química

Iacomini nunca teve dúvidas sobre a vontade de ser pesquisador. Sempre fui curioso sobre ciência, especialmente sobre indústrias farmacêuticas, e se mostrou autodidata já na adolescência. A escolha da área de atuação dentro da Farmácia e Bioquímica, no entanto, teve caráter mais pragmático. O pesquisador chegou a se envolver com análises químicas, mas um par de óculos de lentes grossas o impediu de ir à frente. “Não me adaptava ao microscópio por causa do óculos, tinha astigmatismo alto”, conta.

O professor Iacomini em sua mesa na UFPR, onde passa as tardes fazendo pareceres para periódicos

Assim, sem explicações épicas, foi como Iacomini se dedicou à química de carboidratos, especialmente aos polímeros que se relacionam com estruturas biológicas. O pesquisador se concentra principalmente em pesquisas que isolam carboidratos extraídos de plantas que têm potencial de interagir com o organismo humano. É esse processo que dá origem aos fitoterápicos. Há cerca de 20 anos, começou na UFPR a linha de pesquisa que trata de isolar carboidratos de cogumelos.

Ele revela que a escolha por estudar uma determinada planta ou fungo pode começar com uma sabedoria não científica, a popular. “A espinheira santa, por exemplo, é conhecida pela atuação biológica intensa em nível estomacal. Inibe úlceras e previne contra males gástricos. Mas a pesquisa mostrou que ela também exerce função de baixar a pressão sanguínea pelo uso contínuo”, explica.

Imigrante

Por causa da ciência, Iacomini tomou outra decisão importante quando começou a cursar a graduação na UFPR, em 1968. Foi nessa época que ele, nascido italiano e filho de imigrantes, optou por se naturalizar brasileiro. Tratava-se de uma decisão sensata para quem possuía interesse na carreira de pesquisador no ápice da ditadura militar. “Me naturalizei no início da faculdade porque, pela perspectiva de trabalho para um brasileiro, era o mais adequado”, conta. O mesmo fez pelo menos outro colega de Iacomini, o professor Olaf Mielke, entomologista e alemão de nascimento, também pesquisador 1A.

A família de Iacomini deixou a região da Toscana e veio para o Brasil quando ele tinha quatro anos, no pós-guerra. A família buscava “uma terra em franco progresso”, segundo as palavras do pesquisador, e fugia da terra arrasada. Os pais de Iacomini não tinham ensino superior (o pai era comerciante), mas incentivavam os filhos a continuar a formação. As três irmãs do pesquisador se formaram no magistério, o que não era tão usual nas famílias em que havia mulheres. “Ai de mim se não estudasse. Eles entendiam que educação era fundamental”, conta.

Durante a graduação, Iacomini conheceu laboratórios farmacêuticos em outros Estados, como Rio de Janeiro e Santa Catarina, uma experiência que veio a confirmar o desejo de seguir na área de fármacos. Não chegou a ser aluno de iniciação científica porque precisou trabalhar como representante comercial para poder estudar. “Foi um período difícil, não conseguia ter muito tempo vago”, lembra.

A oportunidade veio com a sugestão de uma professora, a bioquímica Glaci Zancan, para fazer parte da turma da pós-graduação na área da universidade, em 1972. “Ela viu em mim uma possibilidade de que eu fosse pesquisador”. Mantendo-se daí para frente com bolsa de pesquisador, Iacomini foi aprovado no concurso para docente da UFPR em 1973, quando ainda estava no mestrado, dando início à sua carreira também na docência.

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Conheça aqui, aqui e aqui outros pesquisadores 1A da UFPR (“Série Excelência”)


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