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Ciência e Tecnologia

Gabriel Melo, o pesquisador que se inspirou em Padre Moure e hoje ocupa sala que foi do famoso entomologista

Camille Bropp     25 de maio de 2018 - 13h46

A Universidade Federal do Paraná tem muitas áreas de excelência espalhadas por seus setores e campi. Entre elas estão laboratórios e grupos de pesquisa liderados por pesquisadores que alcançaram o topo da carreira no Brasil. São pesquisadores que, segundo os critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), se destacam entre seus pares, alcançando o nível 1A, o mais alto na modalidade de bolsas Produtividade em Pesquisa. O portal da UFPR está publicando uma série de reportagens sobre os pesquisadores 1A da universidade e o trabalho científico que desenvolvem.

Na porta da sala do pesquisador Gabriel Augusto Rodrigues de Melo, de 51 anos, existem duas placas de orientação. Uma placa cumpre a função de informar o nome do professor que ocupa a sala simples, abarrotada de livros e aparatos mais inesperados, como redes de variados formatos usadas para coletar abelhas. A outra placa, de plástico, se mantém ali por razões históricas e sentimentais. Diz: “Padre Moure”.

Assim como Jesus Santiago Moure, o Padre Moure — um cientista que ajudou a fundar agências de fomento no país e a criar a pós-graduação em Entomologia da UFPR –, Melo se dedica a estudar abelhas. A maioria dos 103 artigos científicos, quatro livros e 31 capítulos de livros que já escreveu traz esse grupo de insetos como tema. Só que o pesquisador não encontrou Moure pela primeira vez na sala da UFPR, mas em Viçosa (MG), quando ainda era aluno da graduação em Ciências Biológicas.

O pesquisador Gabriel de Melo em sua sala no Departamento de Zoologia. Fotos: Marcos Solivan/Sucom-UFPR

“Ele foi a Viçosa para um curso em 1987, quando tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Antes disso, só o conhecia por livros. Em 1988, minha turma foi a um congresso na UFPR e de novo o encontramos”, conta Melo, que ingressou como professor na UFPR em 2000, quatro anos antes de Moure se afastar da instituição. “Ele foi um pioneiro, uma pessoa extremamente ativa, que imprimiu um patamar que nos trouxe a um nível de excelência só alcançado pelas muitas coisas que ele fez”.

Melo fala sobre a biografia do Padre Moure com a propriedade de quem coordenou o projeto Catálogo de Abelhas Moure (Moure’s Bee Catalogue), que foi atualizado e disponibilizado on-line em 2008 e encampou também o trabalho da entomologista Danúcia Urban, outra pioneira da área no Brasil e ex-aluna do sacerdote. O catálogo apresenta espécies de abelhas neotropicais e começou nos idos de 1938, quando Moure começou suas pesquisas. A nova versão do catálogo deve ser disponibilizada em 2020.

Para Melo, a inspiração proporcionada por histórias como a de Moure é algo que move cientistas. Ele acredita que a oportunidade de ser inspirado por pesquisadores mais experientes funciona como grande incentivo para a persistência na vida acadêmica, mesmo quando o conhecimento sobre o autor se dá por meio de um livro. “Minha paixão pelas abelhas vem da adolescência, mas tive sorte de conseguir literatura para poder avançar já nos anos 1980”, conta.

Nesse sentido, o pesquisador acaba por descrever como os produtores de ciência operam em uma espécie de rede em que figuram inspiradores e inspirados que se revezam. “São histórias antigas que se interligam. É um pesquisador que serve de mentor para o outro e, assim, sucessivamente, de forma que é permitido que a ciência possa avançar”.

Muro

Questionado sobre como uma “paixão por abelhas” pode surgir na adolescência, Melo ri, suspira e avisa: “é uma longa história”. Tudo começou com o muro da casa onde morava com a família em Governador Valadares (MG). Um dia, quando deveria estar próximo dos 14 anos, Melo percebeu que abelhas sem ferrão (as jataís) entravam e saiam do muro por meio de um tubo de cera que surgia dentre a estrutura. Perguntou ao pai se poderia quebrar parte do muro para entender o que os insetos tinham feito ali. Construtor (e, por sorte, já interessado em refazer o muro), o pai de Melo concordou.

Gabriel Melo na sua mesa de trabalho, onde analisa insetos; no detalhe da porta da sala do pesquisador, a placa antiga com o nome do Padre Moure; e o professor manejando colmeias de abelhas sem ferrão no Botânico

Em vez de parte do muro, o adolescente acabou quebrando a estrutura inteira. Afinal, o que se revelou aos poucos ia muito além do que ele esperava. A colônia de abelhas havia tomado conta do muro por dentro e se apresentava como uma rede intrincada de tubos de cera, com setores aparentemente específicos de produção e reprodução. “Nunca imaginei que houvesse algo assim ali dentro”, lembra Melo. A situação marcou o início do interesse do pesquisador pelas abelhas, que logo passou para a procura por embasamento teórico. Mas, claro, não foi das experiências mais agradáveis para a colmeia. “Acho que devo ter matado a abelha-rainha sem querer, porque logo depois as abelhas saíram dali”, conta.

Assim resolvido, Melo buscou a graduação em Ciências Biológicas e, na sequência, o mestrado em Genética (com foco na ordem de insetos Hymenoptera, composta por abelhas, vespas e formigas), também na UFV. A meta era começar o doutorado antes dos 28 anos e fora do país, mas, antes de o pesquisador conseguir bolsa para ingressar em um programa, passou em concurso público para lecionar genética básica a alunos de Medicina Veterinária e Agronomia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Tinha 27 anos.

Quando já estava imerso na docência, foi avisado da oportunidade de cursar doutorado em Entomologia na Universidade do Kansas, nos Estados Unidos. A decisão sobre cargo ou bolsa deveria ser tomada rapidamente e seria excludente, já que professores em estágio probatório (os três anos que servem de “período de experiência” para servidores públicos) não podem pedir licença para estudos.

“Foi uma decisão difícil: pedir demissão quando já era concursado, sabendo que voltaria ao Brasil como pesquisador desempregado, tendo que começar tudo de novo”, afirma Melo. “Mas me perguntei qual a probabilidade de uma oportunidade como aquela surgir de novo dali a alguns anos. E se eu gostaria mesmo de trabalhar com genética para sempre”.

Decidiu ir. Passados pouco mais de quatro anos na Universidade do Kansas, na volta conseguiu uma bolsa de pós-doutorado para estudar vespas na Universidade de São Paulo (USP), continuando a linha que seguiu no mestrado. Mas a fase de “pesquisador desempregado” veio: dois anos até surgir a vaga de docente na UFPR. “Fui o primeiro a mandar a documentação para concorrer”, brinca. De novo, a vida optou por uma fase de abundância, em vez de oportunidades bem distribuídas. “Na época atuava como professor visitante em outra universidade na Bahia, mas preferi a UFPR”.

Docência

Até ser classificado como pesquisador 1A pelo CNPq, em 2017, Melo seguiu o roteiro que os parâmetros da agência pedem. Orientou mestrandos e doutorandos, escreveu artigos e livros — entre eles, “Insetos do Brasil”, lançado em 2012 –, e foi editor de periódicos. Este último ele destaca como uma função relevante para as áreas de conhecimento, ainda que isso nem sempre seja enunciado. “O editor doa o seu tempo para produzir um trabalho em conjunto para a ciência, é uma contribuição importante”, explica.

O pesquisador garante, por fim, que a dedicação à ciência tem o poder de aprimorar o professor. “O professor que leva experiência de pesquisador para a sala de aula também trabalha estimulando estudantes”, conta. “O início é bem complicado porque o professor novo tem receio de mostrar seus limites para a turma. Hoje eu digo quando não sei as respostas e me ofereço para procurá-las”.

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Conheça aqui outros pesquisadores 1A da UFPR (“Série Excelência”)


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