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Ensino e Educação

Nas oficinas da PRAE, alunos ajudam outros estudantes a superar dificuldades em Exatas

Camille Bropp     28 de novembro de 2017 - 15h24

Com a exceção de Leandro, que estuda para ser professor, Mayara, Camila, Lucas, Guilherme e Christopher encararam como desafio a função de ajudar alunos que sentem dificuldades nas disciplinas que mais reprovam nas graduações da UFPR. Eles são os primeiros bolsistas-instrutores das oficinas de conteúdo de Exatas da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) da UFPR e os principais colaboradores do projeto-piloto iniciado em outubro. A intenção é reduzir índices de reprovação e, por consequência, de evasão, com foco nas disciplinas de maior demanda entre os estudantes.

Nessa fase inicial, foram abertas 55 vagas para alunos que recebem algum benefício de assistência estudantil da PRAE pelo Programa de Benefícios Econômicos para Manutenção aos Estudantes de Graduação e Ensino Profissionalizante (Probem). Um levantamento do setor de Pedagogia da PRAE realizado no segundo semestre de 2016 indicou que, dos 1.951 bolsistas consultados, 475 apresentavam percentuais de aproveitamento acadêmico abaixo de 75% (aprenda aqui como calcular). O percentual (25%) de estudantes com risco de reprovação é similar ao de não-bolsistas.

Da esq. para a dir.: os bolsistas-instrutores Camila da Cunha, Guilherme Cordeiro, Christopher Machado, Leandro da Silveira, Mayara Skraba e Lucas Felipin. Fotos: Samita Chaim Neves/Sucom

Para melhorar o desempenho desse grupo, a PRAE delineou o formato das oficinas para oferecer atendimento personalizado aos estudantes — um diferencial em relação às aulas tradicionais. Assim, seria possível ajudá-los a desenvolver um método e uma rotina de estudos. “As oficinas acabam funcionando quase como uma tutoria. Optamos por grupos pequenos, de até 20 alunos, para que o atendimento fosse individualizado”, conta Eliane Felisbino, pedagoga da PRAE.

Os conteúdos elaborados neste semestre foram Cálculo, Geometria Analítica, Álgebra Linear, Física e química (veja aqui a distribuição das turmas). As oficinas são semanais e serão realizadas no Campus Politécnico, onde estão os cursos de Exatas, até dezembro. A PRAE pretende adequar as oficinas para 2018, considerando sugestões dos bolsistas-instrutores e dos alunos. A ideia é abrir inscrições a cada semestre. Os alunos recebem certificado de participação se garantirem a frequência.

Empatia

O primeiro grupo de bolsistas-instrutores foi selecionado em setembro. Segundo a pedagoga Renata Peres Barbosa, da PRAE, a busca foi por estudantes de cursos da área de Exatas que mostrassem, além de boas notas, empatia para ajudar os outros. Por isso, os instrutores foram escolhidos entre estudantes de fases mais avançadas que são ou foram bolsistas Probem.

Também pedagoga da PRAE, Melissa Vicentini lembra que a seleção contou com uma pergunta-chave: “você acha que todo mundo é capaz de aprender?”. “A resposta deles foi que ‘sim’, que isso depende também do professor”, diz Melissa. “Mostraram sensibilidade, um olhar humano que influencia no ensino”.

Segundo Renata, o setor avalia que o projeto, até agora, tem superado expectativas. “O diálogo entre estudantes ajuda muito na motivação”, acredita. “Quem tem dificuldades acaba percebendo que não é o único. Muitos alunos chegam do ensino médio acostumados a ter notas altas, sem nunca ter reprovado. Quando isso ocorre na universidade, acabam com problemas de autoestima”.

A pedagoga destaca o comprometimento dos instrutores como um fator importante para o projeto-piloto. “Eles foram responsáveis por várias sugestões para melhorar as oficinas, como realizá-las no Politécnico. Estão construindo com a gente a proposta”, diz. Renata ressalta que a postura colaborativa dos instrutores têm ido além das tarefas relacionadas à função, como garantir para as oficinas as salas de aula, bastante disputadas no Politécnico.

De tudo um pouco

A função de bolsista-instrutor se mostrou exigente no quesito versatilidade, segundo os estudantes. Eles perceberam, por exemplo, que precisam estar disponíveis para quaisquer outras dúvidas que os participantes têm, inclusive fora dos temas da turma. Cada instrutor atua em duas delas.

“Participo de uma turma que se chama Engenharias e outra de Cálculo, Álgebra e Geometria. Só que acabo por ajudar em qualquer outra matéria que já cursei, como Programação”, conta Lucas Ferrari Felipin, que cursa o 6º período de Engenharia Civil. “Ajudamos em qualquer coisa que eles precisem, na verdade. E um mesmo aluno pode precisar de ajuda em várias matérias”.

Oficinas estão sendo realizadas no Politécnico. Na foto, a turma de Cálculo, Física e Química

Assim, os bolsistas precisam estar dispostos a rever disciplinas, pesquisar assuntos específicos e ir atrás de formas de resolver exercícios. Para Mayara Melissa Mendes Skraba, do 8º período de Engenharia Química, relembrar conceitos de certas matérias foi um ponto positivo da bolsa, assim como a chance de socializar, que ela também achou interessante. “Pude entrar em contato com pessoas que eu não teria a oportunidade se não fosse dessa forma, além de criar amizades com os outros instrutores, principalmente”, conta.

Para Lucas, inclusive, esse foi um dos atrativos da função. “Já fui monitor no ensino médio, em escola pública mesmo. Tenho facilidade para socializar e gosto de conversar bastante”, diz. “A melhor parte do programa foi conhecer as pessoas. Fiz muitas amizades, principalmente com os outros instrutores, que estão na mesma situação que a minha”.

Rotina de estudos

Um dos maiores complicadores para quem ingressa no ensino superior é não saber como estudar. Dessa forma, os instrutores acabam ajudando alunos a desenvolver sua própria metodologia de estudos, com base no que funciona para cada indivíduo.

Aluno do 10º período de Engenharia Civil, Guilherme Marcondes Cordeiro apresentou a sua forma de estudo para alguns participantes da oficina. Ele mesmo teve que vencer dificuldades no conteúdo de ensino superior. “Gosto muito de ajudar pessoas despreparadas a estudar, porque quando ingressei na faculdade tive muitas dificuldades com as quais tive que a aprender a lidar sozinho”, lembra.

Guilherme diz que poucos alunos são estimulados a estudar com antecedência e não na véspera da prova. Isso ele percebeu ainda na escola, onde superou dificuldades com a ajuda da mãe. “Ela foi chamada à minha escola quando eu era criança, porque eu tinha dificuldade com algumas matérias. Então, fez um esforço enorme para me ajudar. Sentava comigo algumas horas por dia para me fazer estudar matemática e português”.

Daí Guilherme tirou a ideia de que aprender é um processo gradual, que demanda tempo. “Mesmo chegando na faculdade e tendo tantas dificuldades, a paciência que aprendi a ter no processo de aprendizagem me ajudou muito”, diz. “É isso que tento passar: tenha paciência com você, estude os conteúdos básicos antes de ir para os mais difíceis e, quando estiver preparado, vá além das aulas, estude conteúdos muito mais difíceis e surpreenda”.

Nas oficinas de Exatas, alunos são estimulados a estudar com antecedência e organização

A história de Mayara também mostra que “pegar dependência” precisa ser encarado como um impulso para aprender a estudar. “A universidade foi bem difícil no começo para mim também. Peguei DP em Cálculo I e Física I. Então eu sei bem a dificuldade que as pessoas enfrentam no início de curso”, diz. A situação serviu de alavanca para Mayara se superar, entender que se deve aprender com o tempo e contar com a ajuda de amigos. “Sempre estudávamos juntos e eles me ajudaram bastante”.

Como instrutor, Leandro Ratske da Silveira, que é aluno do 8º período da licenciatura em Física, notou que sucessivas repetências fazem com que muitos estudantes se sintam “bloqueados” para lidar com certas disciplinas. A isso se somam os outros fatores, como a formação do estudante e a falta de jeito para estudar, que a universidade exige desde o início. “Hábitos de organização vêm com o tempo e é uma meta que os estudantes devem conquistar. Temos que lembrar que o modelo da universidade é muito novo para os estudantes do início do curso”.

Aluno do 10º período de Engenharia Civil, Christopher Andersen Machado alerta que mesmo estudantes que nunca encararam reprovação podem precisar adaptar os estudos durante a faculdade, já que muitas vezes apenas prestar atenção na aula não é suficiente. Ele diz que sempre haverá conteúdos que são assimilados com mais facilidade do que outros. “Porém, em grande parte do curso você tem que arrumar algum método para conseguir aprender o que não consegue com facilidade”.

Listas e listas de exercícios

Os períodos iniciais dos cursos de Ciências Exatas — seja engenharias, licenciaturas ou outros bacharelados — costumam surpreender alguns alunos pela quantidade de exercícios exigidos. Geralmente o estudo dessas disciplinas comuns a todos se faz por meio de listas com dezenas de exercícios extraídos ou inspirados em livros-base. A situação exige uma forma de estudo diferente, que escapa às fórmulas salvadoras e obriga o estudante a desenvolver o raciocínio abstrato, o que não é tão comum no ensino médio.

Camila (à dir.) tirando as dúvidas de Yasmin (à esq.) e Aline (centro) na turma das sextas-feiras à tarde

Por causa disso, mesmo bons alunos podem sentir o baque. “Minha professora é muito solícita, mas a gente fica assustado ao encontrar na universidade cálculos que nunca tinha visto na vida”, conta Éria Alves Semensato, de 18 anos, aluna do curso de Química. Para superar as dificuldades em Cálculo I, Éria tem assistido a muitas vídeo-aulas no YouTube e aproveitado para tirar dúvidas nas oficinas da PRAE. Com isso, já conseguiu perceber que alguns conceitos eram mais fáceis do que pareciam. “É aquela coisa, não é tão difícil, você que ainda não sabe fazer”.

As estudantes de Agronomia Yasmin Hellen Cenovicz, de 22 anos, e Aline de Fátima Cobachek Siqueira, de 20, notaram que ninguém consegue captar novos conteúdos sem dedicação. “A base do ensino médio às vezes é muito fraca em matemática, química e física. Acaba que a gente se obriga a tirar um tempinho para estudar”, diz Aline. “Às vezes falta tempo, porque o curso é integral, tem aula o dia inteiro. Mas você chega em casa e não dá para dormir. Precisa fazer a lista de exercícios bem antes da prova, para poder vir aqui [na oficina] e tirar as dúvidas”, fala Yasmin.

Abismo educacional

O fato de os instrutores terem sido alunos de escolas públicas os fez ter noção da desigualdade na educação no país. “Quando entrei na faculdade, vi como é diferente o grau em que a gente chega do ensino médio em escola pública para a galera que veio de escola particular. Eu vi a diferença de base mesmo, sei como é difícil”, conta Camila Lopes da Cunha, que cursa o 5º período de Engenharia Química.

Esse fator acabou se revelando uma motivação para os bolsistas acreditarem na função. “Eu queria tentar ajudar aqueles que precisam, sabe? Porque com uma oficina eles teriam uma pessoa da idade deles e sentiriam mais liberdade para perguntar”, diz Camila.

Segundo a pró-reitora de Assuntos Estudantis da UFPR, Maria Rita César, o apoio a estudantes que vêm do ensino público precisa ser uma meta em uma universidade que busca a inclusão social. “Nesse sentido, essa iniciativa tem um papel importante”, diz ela.

Para Maria Rita, a instituição que, como a UFPR, opta por um processo de abertura para mudar o elitismo sempre associado às universidades públicas tem de acompanhar o desenvolvimento dos estudantes. “Uma das portas da política contra evasão na universidade é o programa de assistência estudantil e não é apenas a fragilidade econômica que leva à evasão”.


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