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#ForaAedes: “Estamos tentando ajudar”, diz professor Francisco de Assis Marques, que desenvolve repelente contra o mosquito

Jéssica Maes     4 de março de 2016 - 12h28

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O professor Francisco de Assis Marques está à frente do Laboratório de Ecologia Química e Síntese de Produtos Naturais. Imagem: Samira Chami Neves

Enquanto o país todo busca soluções de curto e longo prazo para o problema da dengue, do chicungunya e do vírus zika, os pesquisadores da Universidade Federal do Paraná também dedicam seu tempo a amenizar a crise epidêmica atual. Um deles é o professor Francisco de Assis Marques, do Departamento de Química.

À frente do Laboratório de Ecologia Química e Síntese de Produtos Naturais, Marques é mestre e doutor em Química pela Universidade Federal de São Carlos e pós-doutor pela University of California – Riverside.

Em entrevista ao portal da UFPR, o pesquisador explica o funcionamento dos repelentes e fala sobre a importância do desenvolvimento da ciência brasileira e destaca o descuido do Estado com políticas de saúde pública.

 

– Como é o trabalho desenvolvido no Laboratório de Ecologia Química e Síntese de Produtos Naturais?

O nosso laboratório trabalha basicamente com duas frentes. A primeira delas é a ecologia química, em que direcionamos nossos estudos para o controle de pragas agrícolas, florestais e urbanas, envolvendo metodologias e compostos que não sejam tóxicos para os seres humanos, para outros animais e para o meio ambiente – uma grande demanda mundial. Já a outra linha de pesquisa envolve síntese orgânica, sintetizando compostos ou desenvolvendo novas metodologias de síntese.

No que tange ao mosquito [Aedes aegypti], a gente tem trabalhado já há algum tempo com novas metodologias de controle. Estamos trabalhando com três frentes: desenvolvimento de um larvicida, de um spray para matar o mosquito adulto – que estamos tentando produzir sem o uso de piretróides, e de um repelente.

Isso porque hoje existem basicamente dois tipos de repelente no mercado, o deet, que é um composto relativamente simples, mas importado, e a icaridina, que é um pouco mais cara e também é uma molécula que vem de fora do país. Quando temos um surto de dengue, por exemplo, com uma alta população desses mosquitos, nós temos falta de repelente no mercado brasileiro, justamente em função das bases desses produtos serem importadas. Então o Brasil tem que romper umas barreiras burocráticas para tentar importá-las com rapidez.

 

– Qual o diferencial do repelente de vocês?

O que estamos tentando fazer com o repelente é desenvolver um produto que seja pouco tóxico quando aplicado na pele e que possa ser uma alternativa aos que estão no mercado. Porque em uma crise como essa, uma emergência, a indústria nacional poderia produzir o que fosse necessário para atender à população sem ter que passar por processos burocráticos de importação.

Fruto da grande demanda, e devido à nossa falta de recursos para levar as três pesquisas ao mesmo tempo, resolvemos focar nesse momento no repelente. É por isso que hoje já temos um repelente formulado, que estamos começando a testar em gaiolas, para ver se atinge as quatro horas de repelência que a gente espera. Caso ele atinja, do nosso ponto de vista [químico], ele estaria pronto para ir para o mercado, dependendo apenas de testes exigidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para ver se ele pode causar algum tipo de reação dermatológica.

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Imagem: Samira Chami Neves

A priori, a gente usou aqui no laboratório, eu e meus alunos, e ninguém sofreu nenhum tipo de reação adversa ou alergia. Mas isso só significa que ele está apto para ser submetido ao teste, porque [a Anvisa] faz testes diferentes. Porém, caso tivesse acontecido alguma reação alérgica já aqui no laboratório, nós já interromperíamos o processo. Felizmente, ele se mostrou interessante sobre esse ponto de vista também.

 

– E aqui nesse laboratório vocês fazem só os químicos, certo? Não têm os mosquitos para testar.

É, os testes nós fazemos lá no laboratório do Mário [professor Mário Navarro, do Laboratório de Entomologia Médica e Veterinária, que entrevistamos há alguns dias]. Ele é um parceiro nosso que cria o mosquito. Meu aluno de doutorado Vinicius Anies cuida das larvas para testar o larvicida, dos machos e fêmeas adultos para os testes com o inseticida e das fêmeas para os testes com o repelente.

 

– E quanto à ação da citronela como repelente?

Nosso repelente é baseado na citronela. Porém não o óleo de citronela, que tem um efeito de 30 minutos de repelência, o que é muito pouco, e tem um cheiro muito forte e característico, embora seja indicado pelos órgãos de controle como não tóxico.

O que nós fizemos foi partir de um componente do óleo de citronela, mudando a estrutura dele em laboratório. Nós partimos dele por já ser tido como de baixa toxidade – queremos que o nosso repelente tenha essa característica. Com a alteração estrutural, a repelência passou de meia hora para mais de duas horas. Agora nós estamos tentando formular esse composto em laboratório para que ele fique mais retido à pele.

Isso porque esses compostos, via de regra, são voláteis – ou seja, têm baixo ponto de ebulição. Então, passando na pele, com o corpo sistematicamente a 36° C, 37° C, o produto forma uma fina película e vai evaporando. A perda do repelente se dá pela absorção natural do corpo e pela volatilização, então o que estamos tentando fazer é deixar ele mais fixo à pele. É como uma técnica de perfume, que também precisa de um fixador para o aroma não ir embora.

 

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Imagem: Samira Chami Neves

– Como funciona um repelente?

Para começar, o repelente não deveria se chamar repelente. O nome é esse porque a população o absorveu e isso não vai mudar, mas ele não repele o mosquito. Quando você passa o repelente no seu corpo, ele não foge de você, não é esse efeito que a substância provoca. A questão é como os mosquitos te reconhecem como fonte de sangue, do qual as fêmeas precisam para viabilizar a próxima geração. Elas nos reconhecem através do CO₂ e alguns outros componentes que nós emitimos, entre eles o ácido lático.

O que o repelente faz é agir como um bloqueador. Quando aplicamos na pele, o produto sai de nós e bloqueia os receptores que os insetos têm para identificar o CO₂ e o ácido lático, principalmente. As moléculas de repelente se encaixam nesses receptores, ocupando o lugar que estes compostos que nós eliminamos ocupariam. Do ponto de vista da sinalização química, você fica invisível.

 

– E o que o senhor aconselha que as pessoas façam hoje para se proteger?

Tem que aplicar [os repelentes que estão no mercado], principalmente no caso das mulheres grávidas. E quando eu digo principalmente, é para evitar o pior. Se eu pegar dengue ou zika é ruim, porém não é tão ruim quanto um feto ser alterado de uma maneira que pode gerar complicações para o resto da vida.

Então, o que tem que acontecer é o Estado assumir o seu papel perene e não contingencial, investir pesadamente em políticas públicas (o que não está acontecendo), reestruturando todos os centros de vigilância sanitária que existem nos municípios. Enquanto cidadãos, temos que acabar com os focos de mosquito, tirar a água dos pratinhos de plantas, não acumular lixo.

As pessoas têm que assumir para si que é um problema sério e nós temos que ajudar o Estado a diminuir os focos de proliferação do mosquito. Pois repelentes, inseticidas e larvicidas são medidas paliativas, a principal estratégia de ação deveria ser para minimizar os focos de proliferação do mosquito.

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Imagem: Samira Chami Neves

 

– Em grande escala, qual o maior problema no quadro atual?

O que salta aos olhos nisso tudo é a falta de vigilância do Estado. Agora temos que correr atrás – e vai demorar anos – para colocarmos a população do mosquito sob controle de novo. Até 1982, temos dados mostrando que ele estava totalmente controlado. Agora, nesse nível atual, a situação está fora do controle

É caro investir em saúde pública? É muito mais barato prevenir do que apagar incêndio. O que está sendo gasto agora com políticas de apagar incêndio é muito mais do que se tivesse o número de agentes de saúde ideal, um monitoramento para o aedes, para outras pragas… É para isso que o Estado arrecada!

Agora, recai uma cobrança sobre os pesquisadores. “Quando o repelente estará pronto?” Como eu posso dizer isso? Eu não sei nem se ele vai para o mercado!. Nós temos um candidato a repelente e estamos fazendo o nosso melhor para que de fato ele tenha a eficiência que esperamos. Mas se só tem duas moléculas que funcionam como repelente a nível mundial, significa que não é fácil. Estamos tentando ajudar e esse é um dos papéis importantes que a pesquisa tem, poder contribuir para o bem estar da população ou, nesse caso, minimizar os dados que podem ser causados por essa epidemia que assola nosso país.


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