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Ensino e Educação

Compartilhar dificuldades ajuda a romper bloqueio na escrita acadêmica, diz psicólogo em palestra promovida pelo Capa

Superintendência de Comunicação Social     1 de novembro de 2017 - 17h49

A escrita de Lúcia, uma bióloga de 53 anos que estava fazendo pós-doutorado em Curitiba, simplesmente travou. Apesar da facilidade com que sempre se expressou ao escrever, de uma hora para outra a insegurança a fazia se sentir paralisada em frente ao computador. Nada saía, a não ser angústia. “O emocional bloqueou completamente”, conta. Depois de relutar, ela buscou a ajuda de um terapeuta e constatou que a dificuldade era reflexo de um problema maior, uma tendência à autocrítica que piorou no ambiente universitário.

“A gente não se dá conta de como se cobra. Meu orientador de mestrado dizia que eu encontrava problemas onde ninguém via nada, mas só ele falar não foi suficiente para resolver. É um sentimento que se acumula sem que a pessoa se dê conta”, acredita.

A situação que Lúcia enfrentou está longe de ser novidade. A pressão por produtividade e superação no meio acadêmico, que começa na graduação, tem consequências sobre a saúde mental dos alunos que geralmente são subestimadas. Para o psicólogo Robson da Cruz, da PUC-SP, existe relutância em constatar que a academia tem fatores que a tornam um ambiente propício para o esgotamento mental.

Cruz: comunidade acadêmica costuma tentar ignorar o impacto da pressão sobre a saúde mental. Foto: Samira Chami Neves

“É quase como se desconsiderássemos que a universidade faz parte da sociedade e é um ambiente laboral”, afirma. “Existe a ideia de que este é um espaço privilegiado, portanto quem está aqui não pode sofrer. O silêncio sobre as condições sociais da produção acadêmica ocorre de forma tão poderosa que leva pessoas em dificuldade a se voltarem contra si mesmas”, afirma.

Cruz tratou do assunto, que é objeto do seu pós-doutorado na PUC-SP, em uma palestra promovida pelo Centro de Assessoria à Publicação Acadêmica (Capa) da UFPR, no Setor de Educação Profissional e Tecnológica (Sept), na última sexta-feira (27). Além do público que se inscreveu em Curitiba, havia cerca de 500 espectadores na transmissão ao vivo pela UFPR TV via internet. (A íntegra da palestra pode ser vista no canal da UFPR TV no Youtube)

Reações

De acordo com o psicólogo, “lidar com problemas na escrita é lidar com causas muito amplas”, mas isso não significa que as soluções serão sempre complexas. “Elas geralmente passam por apoio social, um suporte para a pessoa que escreve”, diz. Cruz ilustra que a dificuldade em escrever se manifesta depois que um “mal-estar”, que pode ser tanto psicológico quanto social, se instala entre o autor e o texto, criando uma barreira.

Em casos mais simples, mudança nos hábitos pode ajudar a vencer esgotamento. Foto: Pixabay/Moritz320

Quando isso ocorre, é comum que duas reações equivocadas tornem a situação ainda mais difícil. Uma delas é refletir de forma maniqueísta, especificando culpados – ainda que, às vezes, eles existam, seja nas relações interpessoais ou no ambiente das instituições, ressalta Cruz.

Em contraponto, outra resposta perigosa é internalizar a dificuldade, o que leva o aluno a fazer comparações e a acreditar piamente que é o único a sofrer com isso. Além de nociva, essa situação também não se sustenta nos fatos.

O psicólogo lembra que, historicamente, se consolidou um ideal romântico sobre o processo de escrita que valoriza o “espontâneo” em detrimento do trabalho duro, difícil e artesanal, que é culturalmente associado a classe sociais mais baixas.

Disso advém o horror a recursos como a revisão ou a pré-escrita – o esboço que será trabalhado arduamente até se chegar ao texto final –, que são bem mais disseminados do que os autores reconhecem abertamente. Afinal, que livro é publicado sem edição?

“É o clássico comportamento cultural da elite, que esconde o treino [e mostra apenas o resultado]”, compara Cruz.

Sociedade

O estudo de Cruz abrange também aspectos sociológicos que impactam no bloqueio da escrita acadêmica. Segundo o pesquisador, “em última instância, escrever tem a ver com permissão social”. Isso quer dizer que grupos sociais que nem sempre participaram de ambientes intelectuais tendem a desenvolver uma cobrança excessiva sobre a qualidade dos textos que apresentam, o que pode colocá-los no rumo que se inicia na baixa produção e termina com a desistência.

Para Cruz, grupos como mulheres, minorias étnicas e pessoas de origem humilde de alguma forma sofrem porque recebem “menos solidariedade” quando se põem a escrever. Assim, se isolam mais e têm cada vez menos visibilidade. “Obviamente isso tem a ver com controle social”, avalia.

A falta de incentivo, porém, não está restrita a alguns grupos. É quase uma regra do mundo acadêmico, em que o encorajamento é um fator quase individual e os elogios começam raros na graduação e terminam inexistentes à medida que a formação avança.

A cultura de apontar os erros, mas não os avanços, pode ser revista principalmente por professores e orientadores, afirma Cruz. “Apontar o bem feito pode funcionar mais porque dá direcionamento e não forma a sensação contínua de que se está sempre errado”, diz. “Apontar o avanço também permite autocorreção”.

Conselhos

Cruz esclareceu que quem espera uma tradicional “lista de dicas” para superar o bloqueio da escrita pode se frustrar. Afinal, as soluções são diversificadas e geralmente funcionam para o indivíduo.

Uma exceção é o que se chama de “socialização” do processo de escrita, que é simplesmente dividir as dificuldades com outra pessoa. Mas Cruz destaca que é preciso escolher bem com quem desabafar. “É preciso buscar formas efetivas de comunicar o sofrimento, mas buscando pessoas que ajudam, que propõem estratégias”, diz.

A socialização é um dos objetivos do Capa, que se propõe a orientar graduandos e pós-graduandos da UFPR e de outras instituições. O centro tem realizado, por exemplo, os chamados “dias de produção”, em que alunos se reúnem para escrever, trocar ideias e criar metas de trabalho. As inscrições são gratuitas e há dias para graduandos e para pós-graduandos.

Abaixo, alguns conselhos de Cruz para superar bloqueios que não envolvem situações muito complexas:

– Não existe “forma correta” de escrever. Isso é ilusão psicológica. O que existe são recursos que podem funcionar para certa pessoa em certos textos.

– Planejar a escrita segundo longos blocos de tempo pode aumentar a frustração. Afinal, pouca gente consegue “escrever oito horas seguidas hoje” sem entrar em colapso ou desistir.

– Se no passado você conseguiu escrever em tempo recorde, com bons resultados, parabéns. Mas isso não significa que será sempre assim, portanto se organize.

– Não traumatize a escrita. Isso equivale a escrever apenas enquanto se sente o peso do lazer e do descanso de que se está abdicando. Com o tempo, o ato de escrever acaba associado a algo ruim.

– Separe geração (criar o texto) da edição (criticar o que se escreveu). Escrever sem censura, apenas para dar o pontapé inicial, além de libertador, ajuda na produção.

– Rascunho, rascunho, rascunho. Isso geralmente está na base dos melhores textos. Adote a pré-escrita. Se não consegue escrever algo, coloque a dificuldade no papel. O processo de escrever também ajuda a pensar por outros caminhos para se achar a solução.

– Não minimize a força de um bom texto apenas porque ele significa trabalho duro e revisão. A escrita é parte integrante do reconhecimento do trabalho científico.

Por Camille Bropp Cardoso


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